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domingo, 30 de novembro de 2025

ESPECIAL - A TRAGÉDIA ESQUECIDA DA SERRA DAS ARARAS: MAIS DE 300 MORTOS, VEÍCULOS SOTERRADOS E CORPOS QUE NUNCA FORAM ENCONTRADOS

Em março de 1967, o Brasil assistiu a um dos desastres naturais mais violentos e chocantes de sua história contemporânea. A Serra das Araras, trecho íngreme e estratégico da antiga Rio–São Paulo (atual BR-116, na região de Piraí, RJ), foi palco de uma sequência de deslizamentos catastróficos que ceifaram centenas de vidas e deixaram marcas profundas, muitas delas jamais recuperadas.

O dia em que a serra desabou

Após dias de chuva intensa e ininterrupta, o solo encharcado da serra perdeu estabilidade. Na madrugada do dia 20 de março de 1967, uma gigantesca massa de terra, pedras e vegetação deslizou sobre a rodovia, arrastando tudo o que estava pela frente. Ônibus, caminhões, carros de passeio e até estruturas de apoio da estrada foram engolidos em poucos segundos.

Relatos da época descrevem um cenário “apocalíptico”: trechos inteiros da via desapareceram, veículos ficaram completamente soterrados e o barulho do desmoronamento foi ouvido a quilômetros de distância.

Número de mortos ainda é motivo de controvérsia

Embora documentos oficiais da época tenham registrado mais de 300 vítimas fatais, investigações posteriores e depoimentos de sobreviventes indicam que o número real pode ter sido muito maior.

Estimativas apontam que mais de 1.800 pessoas podem ter perdido a vida na tragédia, considerando:

  • passageiros de ônibus interestaduais desaparecidos,

  • motoristas que nunca chegaram aos seus destinos,

  • famílias inteiras soterradas dentro dos carros,

  • caminhões e veículos que nunca foram resgatados ou contabilizados.

A dimensão do desastre foi tão grande que muitos corpos jamais foram encontrados, permanecendo até hoje sob toneladas de terra e pedras.

Soterramento de centenas de veículos

Até hoje acredita-se que centenas de veículos — muitos deles completamente intactos no momento do soterramento — continuam enterrados em camadas profundas da encosta. Em 1967, não havia tecnologia, estrutura ou segurança para recuperá-los.

Trabalhadores que atuaram no resgate relataram cenas devastadoras, dizendo que “a cada escavação surgia um novo corpo”. Mesmo assim, a instabilidade do terreno obrigou as equipes a interromper operações, deixando parte da área inacessível.

Um desastre silenciado pelo tempo

A tragédia da Serra das Araras ocorreu em um período em que o país vivia sob censura e restrições à imprensa. Consequentemente, a divulgação oficial foi limitada, muito menor que a grandeza real do desastre.

Por isso, apesar da enorme perda de vidas, o episódio nunca recebeu a mesma atenção histórica dada a outras grandes catástrofes nacionais.

Memória e alerta

A Serra das Araras continua sendo, ainda hoje, uma das áreas de maior risco geológico do país. Apesar das obras de contenção e melhorias estruturais ao longo das décadas, o local permanece sob monitoramento constante.

A tragédia de 1967 permanece como um alerta permanente sobre:

  • o poder destrutivo dos deslizamentos,

  • a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura,

  • e a importância da memória histórica para prevenir futuras perdas.

Mais de meio século depois, famílias ainda esperam respostas, e muitos desaparecidos continuam apenas como números de uma das páginas mais trágicas — e esquecidas — do Brasil.


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