O dia em que a serra desabou
Após dias de chuva intensa e ininterrupta, o solo encharcado da serra perdeu estabilidade. Na madrugada do dia 20 de março de 1967, uma gigantesca massa de terra, pedras e vegetação deslizou sobre a rodovia, arrastando tudo o que estava pela frente. Ônibus, caminhões, carros de passeio e até estruturas de apoio da estrada foram engolidos em poucos segundos.
Relatos da época descrevem um cenário “apocalíptico”: trechos inteiros da via desapareceram, veículos ficaram completamente soterrados e o barulho do desmoronamento foi ouvido a quilômetros de distância.
Número de mortos ainda é motivo de controvérsia
Embora documentos oficiais da época tenham registrado mais de 300 vítimas fatais, investigações posteriores e depoimentos de sobreviventes indicam que o número real pode ter sido muito maior.
Estimativas apontam que mais de 1.800 pessoas podem ter perdido a vida na tragédia, considerando:
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passageiros de ônibus interestaduais desaparecidos,
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motoristas que nunca chegaram aos seus destinos,
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famílias inteiras soterradas dentro dos carros,
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caminhões e veículos que nunca foram resgatados ou contabilizados.
A dimensão do desastre foi tão grande que muitos corpos jamais foram encontrados, permanecendo até hoje sob toneladas de terra e pedras.
Soterramento de centenas de veículos
Até hoje acredita-se que centenas de veículos — muitos deles completamente intactos no momento do soterramento — continuam enterrados em camadas profundas da encosta. Em 1967, não havia tecnologia, estrutura ou segurança para recuperá-los.
Trabalhadores que atuaram no resgate relataram cenas devastadoras, dizendo que “a cada escavação surgia um novo corpo”. Mesmo assim, a instabilidade do terreno obrigou as equipes a interromper operações, deixando parte da área inacessível.
Um desastre silenciado pelo tempo
A tragédia da Serra das Araras ocorreu em um período em que o país vivia sob censura e restrições à imprensa. Consequentemente, a divulgação oficial foi limitada, muito menor que a grandeza real do desastre.
Por isso, apesar da enorme perda de vidas, o episódio nunca recebeu a mesma atenção histórica dada a outras grandes catástrofes nacionais.
Memória e alerta
A Serra das Araras continua sendo, ainda hoje, uma das áreas de maior risco geológico do país. Apesar das obras de contenção e melhorias estruturais ao longo das décadas, o local permanece sob monitoramento constante.
A tragédia de 1967 permanece como um alerta permanente sobre:
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o poder destrutivo dos deslizamentos,
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a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura,
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e a importância da memória histórica para prevenir futuras perdas.
Mais de meio século depois, famílias ainda esperam respostas, e muitos desaparecidos continuam apenas como números de uma das páginas mais trágicas — e esquecidas — do Brasil.
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