A representação do Ministério Público Militar se baseia na legislação que permite submeter oficiais condenados a penas superiores a dois anos de prisão a um processo específico para avaliar se continuam merecedores das honras e prerrogativas da carreira militar. Nessa ação, o foco não é mais a condenação criminal em si, mas a análise ética e disciplinar sobre a compatibilidade da conduta dos réus com os valores exigidos de um oficial das Forças Armadas.
Além de Bolsonaro, o pedido inclui nomes de peso da cúpula militar que integrou o governo anterior, como os generais da reserva Walter Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira, além do almirante da reserva Almir Garnier. Todos já foram condenados pelo STF em processos relacionados a ataques às instituições democráticas, o que, segundo o Ministério Público Militar, comprometeria de forma definitiva a honra militar exigida para manutenção de posto e patente.
Caso o STM aceite o pedido e julgue procedente a ação, os oficiais podem perder seus títulos militares, o direito de usar farda, insígnias e até benefícios associados à patente. Na prática, é a medida mais severa no âmbito administrativo-militar, equivalente a uma expulsão simbólica e institucional da história oficial das Forças Armadas. A decisão caberá aos ministros do STM, que deverão analisar se as condenações e os fatos atribuídos aos acusados ferem de maneira irreversível os princípios da hierarquia, disciplina e lealdade à Constituição.
O movimento do Ministério Público Militar é visto por especialistas como um desdobramento direto da responsabilização judicial de civis e militares por atos contra o regime democrático. Ao levar o caso para dentro da Justiça Militar, o debate deixa de ser apenas político ou penal e passa a atingir o coração simbólico da instituição, ao questionar se oficiais envolvidos em ataques à ordem constitucional podem continuar ostentando as honras da carreira das armas.
A tramitação no STM não tem prazo curto para conclusão e deve envolver direito à ampla defesa dos acusados. Ainda assim, o simples protocolo da ação já produz forte impacto político e institucional, reacendendo discussões sobre os limites da atuação de militares na vida pública e sobre as consequências, dentro da própria caserna, para quem ultrapassa as fronteiras impostas pela Constituição. O desfecho poderá redefinir não apenas o destino funcional dos envolvidos, mas também o precedente histórico sobre como as Forças Armadas lidam com oficiais condenados por crimes contra a democracia.