De forma inédita, Pernambuco inicia uma campanha para o Governo do Estado sem um favorito consolidado. As convenções realizadas neste fim de semana deixaram evidente que Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) entram na disputa em condições de equilíbrio raramente vistas na política pernambucana. Diferentemente das eleições de 2014 e 2018, quando Paulo Câmara venceu em cenários competitivos, mas com uma vantagem mais definida ao longo da campanha, desta vez os levantamentos divulgados nas últimas semanas mostram os dois principais candidatos tecnicamente empatados em praticamente todos os cenários. O ambiente eleitoral confirma que nenhum dos dois chega à largada da campanha com vantagem confortável, transformando a eleição de 2026 em uma disputa voto a voto e município a município.
As convenções realizadas no sábado e no domingo foram muito além da formalidade de homologar candidaturas. Elas serviram como demonstrações de força, organização e estratégia, deixando claro que a campanha será intensa desde o primeiro dia. O que se viu nos dois eventos foi a montagem de dois projetos distintos para conquistar o eleitor pernambucano.
No sábado, João Campos reuniu sua militância em uma convenção marcada pelo resgate da identidade histórica do PSB. O socialista procurou associar sua candidatura ao legado de Miguel Arraes e Eduardo Campos, reforçando a imagem de continuidade de um projeto político que governou Pernambuco por vários anos. Também fez questão de destacar o alinhamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apostando que uma eventual reeleição do petista fortalecerá sua candidatura e permitirá maior sintonia entre Brasília e o Palácio do Campo das Princesas. João buscou se apresentar como um político jovem, moderno e preparado para unir a experiência administrativa adquirida na Prefeitura do Recife à tradição política construída pelo PSB no Estado.
No domingo, a governadora Raquel Lyra respondeu com uma demonstração igualmente expressiva de mobilização. O Parador, no Bairro do Recife, recebeu milhares de militantes, prefeitos, vereadores, deputados e lideranças vindas de todas as regiões de Pernambuco. O evento foi marcado pelo discurso de continuidade da gestão e pela defesa dos resultados alcançados ao longo do mandato. Raquel relembrou as críticas recebidas desde que assumiu o governo, afirmou que enfrentou dificuldades políticas para administrar o Estado e voltou a repetir a frase "me deixem trabalhar", transmitindo a mensagem de que precisou superar obstáculos para colocar projetos em prática.
Ao contrário do adversário, Raquel evitou nacionalizar a disputa e concentrou sua fala nas entregas do governo, nas obras em andamento e nos investimentos realizados em diversas regiões do Estado. Também reforçou a permanência de Priscila Krause como vice-governadora, afirmando que a parceria entre as duas vai além da política eleitoral e está baseada em valores e compromisso com Pernambuco. A governadora ainda deixou claro que pretende trabalhar para eleger uma ampla base política, fortalecendo seus candidatos ao Senado, ampliando a bancada governista na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Chamou atenção, entretanto, a ausência de duas importantes lideranças do grupo governista: Miguel Coelho e o senador Fernando Dueire. Embora não tenham participado da convenção, ambos foram lembrados por Raquel durante o discurso. Logo depois, em entrevista, a governadora afirmou que mantém diálogo permanente com Miguel e com o União Brasil, buscando demonstrar que as conversas continuam e que o grupo permanece unido.
Miguel Coelho, por sua vez, divulgou um vídeo confirmando o apoio à reeleição da governadora e convocando prefeitos, lideranças e aliados a permanecerem no projeto político liderado por Raquel Lyra. Apesar disso, a realidade mostra que parte de seu grupo fez escolhas diferentes. Enquanto diversos aliados seguem no palanque da governadora, outros optaram por apoiar João Campos, demonstrando que a disputa também será travada nos bastidores e nas bases municipais.
O que ficou evidente neste fim de semana é que Pernambuco viverá uma eleição marcada pelo equilíbrio. De um lado, João Campos aposta no legado do PSB, na força política do presidente Lula e na experiência acumulada à frente da Prefeitura do Recife. Do outro, Raquel Lyra pretende transformar sua gestão no principal cabo eleitoral, apostando nas entregas, nas obras e na defesa da continuidade administrativa. Com pesquisas apontando um cenário de empate técnico e dois grupos políticos altamente mobilizados, a campanha de 2026 reúne todos os ingredientes para se tornar uma das mais disputadas da história recente de Pernambuco, em uma corrida na qual cada movimento poderá fazer a diferença até o último voto.