Por Edney Souto
A política pernambucana vive um momento em que muita gente prefere levantar muros. Raquel Lyra, ao contrário, parece ter escolhido construir pontes. E talvez esteja justamente aí uma das maiores forças da governadora nesta eleição.
A passagem pelo Assentamento Normandia, em Caruaru, não deve ser analisada apenas pela fotografia ou pela repercussão imediata. O gesto tem um significado político maior: Raquel demonstra que não tem medo de conversar com quem pensa diferente dela.
E isso, convenhamos, não é pouca coisa.
O Normandia é um território historicamente associado ao MST e à esquerda. Ainda assim, Raquel foi até lá, sentou para conversar, ouviu reivindicações, apresentou sua visão de governo e assumiu compromissos com pautas ligadas à agricultura familiar e à reforma agrária.
Não precisou mudar de lado para dialogar.
Esse talvez seja o ponto que mais merece ser colocado na lupa.
Raquel não está tentando ser uma política de uma única tribo. Está tentando se apresentar como governadora de Pernambuco — e governar Pernambuco significa conversar com quem vota nela, com quem não vota, com quem concorda e, principalmente, com quem discorda.
Há uma diferença enorme entre conviver com a divergência e ter medo dela.
Quem tem convicção não precisa transformar todo adversário ideológico em inimigo.
E Raquel parece ter entendido isso.
Enquanto parte da política brasileira continua presa à lógica de que conversar com determinado grupo significa automaticamente pertencer a ele, a governadora vem mostrando uma postura mais pragmática. Dialoga com empresários, prefeitos, movimentos sociais, trabalhadores, lideranças comunitárias e partidos de diferentes matizes.
Sua aliança eleitoral também é uma fotografia dessa estratégia.
Ao lado de nomes como Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha, Raquel apresenta uma composição que atravessa diferentes experiências e campos políticos. Não é uma aliança construída apenas em torno de uma identidade ideológica. É uma tentativa de reunir forças em torno de um projeto eleitoral.
E há uma questão ainda mais importante: Pernambuco não é uma bolha política.
O Estado tem direita, esquerda, centro, conservadores, progressistas, independentes, movimentos sociais, setor produtivo, trabalhadores rurais e urbanos. Todos esses grupos têm demandas e todos eles votam.
Uma governadora que pretende representar todo o Estado precisa estar disposta a conversar com todos.
É aí que Raquel leva vantagem política.
Sua capacidade de transitar por ambientes diferentes desmonta uma narrativa muito comum na política: a de que é preciso escolher um lado e permanecer permanentemente em guerra contra o outro.
Raquel parece ter escolhido outro caminho.
Pode discordar do MST e, ainda assim, conversar com o MST.
Pode disputar votos contra setores da esquerda e, ainda assim, sentar com lideranças desse campo.
Pode manter suas convicções e, simultaneamente, ouvir reivindicações de quem possui outra visão de mundo.
Isso não é fraqueza.
Isso é maturidade política.
E talvez seja justamente essa característica que explique parte da capacidade de articulação que a governadora vem apresentando nesta eleição.
A política pernambucana sempre foi conhecida pela capacidade de construir acordos improváveis. Grandes lideranças do Estado, ao longo da história, souberam conversar com adversários e construir entendimentos quando o interesse público estava acima da disputa partidária.
Raquel está tentando recuperar essa lógica.
Em uma eleição cada vez mais polarizada entre projetos políticos distintos, ela aposta na imagem de quem consegue atravessar a ponte e conversar com o outro lado.
E existe uma razão eleitoral para isso.
Quem está no centro da disputa precisa conquistar não apenas os votos dos convencidos. Precisa também chegar aos independentes, aos eleitores que não gostam de radicalismos e àqueles que podem até discordar da governadora em determinados pontos, mas reconhecem nela capacidade de diálogo.
É justamente nesse eleitorado que a postura de Raquel pode encontrar terreno fértil.
O encontro no Normandia mostrou uma governadora disposta a sair da zona de conforto. E política, no fundo, é exatamente isso: sair do lugar onde todos já concordam com você e tentar convencer quem ainda não está convencido.
A esquerda pode continuar tendo seus candidatos.
A direita pode continuar tendo os seus.
Os movimentos sociais podem continuar fazendo suas cobranças.
Mas o Governo do Estado precisa conversar com todos.
E é nesse ponto que Raquel vem construindo uma narrativa poderosa: não é necessário pensar igual para sentar à mesma mesa.
Na eleição de 2026, essa postura poderá pesar.
Porque Pernambuco não precisa de uma governadora de uma facção. Precisa de alguém capaz de governar um Estado plural, complexo e politicamente dividido.
Raquel está mostrando que sabe conversar com diferentes ideologias sem necessariamente abrir mão da própria identidade política.
E, na política, quem consegue conversar com quem pensa diferente costuma ter uma vantagem que não aparece necessariamente nas pesquisas: a capacidade de ampliar pontes quando chega a hora de governar.
Essa é a Raquel que está sendo apresentada nesta campanha.
Menos muros.
Mais diálogo.
E uma disposição cada vez maior para jogar em campo aberto.