Anderson Ferreira construiu, ao longo dos últimos anos, uma posição sólida no campo conservador em Pernambuco. Ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes por dois mandatos, com recall eleitoral e base consolidada, ele se tornou um dos principais nomes da direita no Estado após o enfraquecimento do bolsonarismo puro e duro no pós-2022. Nesse cenário, a disputa por uma vaga na Câmara Federal aparece, hoje, como um caminho seguro: voto, estrutura, grupo político e visibilidade nacional. Poucos duvidam de sua eleição.
É justamente por isso que a hipótese de uma guinada mais ousada causa estranhamento. Levantar um palanque isolado para Flávio Bolsonaro, sem o apoio de uma candidatura ao governo — seja da governadora Raquel Lyra, seja do prefeito do Recife, João Campos — significaria romper com a lógica básica das eleições majoritárias em Pernambuco. Historicamente, o Senado no Estado se constrói a partir de chapas robustas, com forte ancoragem no Executivo estadual ou em alianças amplas. Caminhar sozinho, ainda mais em um ambiente político polarizado e pragmático, é nadar contra a corrente.
O dilema se aprofunda quando se observa o atual desenho do tabuleiro. A direita pernambucana não apresenta, até agora, um nome competitivo para o Governo do Estado que sirva de eixo para uma candidatura ao Senado alinhada ao bolsonarismo. Raquel Lyra governa buscando ampliar pontes e reduzir radicalismos. João Campos lidera um campo político com ampla capilaridade e forte apoio do governo federal. Fora desses dois polos, o espaço é estreito, fragmentado e de alto risco.
Para Anderson Ferreira, a decisão envolveria mais do que coragem política; exigiria disposição para enfrentar um possível hiato de poder. Caso optasse por essa estratégia e não lograsse êxito, o resultado seria conhecido: mais uma longa temporada sem mandato, fora do centro das decisões e distante dos holofotes institucionais. Em política, especialmente no Nordeste, ausência de mandato costuma significar perda gradual de influência, espaço e capacidade de articulação.
Há ainda um componente simbólico relevante. Ser o único grande nome a abrir palanque para o filho de Jair Bolsonaro em Pernambuco, sem amparo local e sem uma estrutura majoritária, poderia reforçar a imagem de isolamento que setores do próprio bolsonarismo enfrentam hoje no Estado. A pergunta que ecoa entre líderes partidários é simples e dura: vale a pena assumir sozinho um projeto nacional que, localmente, não se sustenta?
Anderson Ferreira é conhecido por ser um político estratégico, de movimentos calculados e avesso a aventuras sem lastro eleitoral. Por isso, a leitura predominante é de cautela. A tendência natural aponta para a preservação do capital político já construído, garantindo presença em Brasília e mantendo-se como peça ativa no jogo de 2026, em vez de apostar tudo em uma travessia solitária, de alto risco e retorno incerto.
No fim das contas, a encruzilhada de Anderson Ferreira revela mais do que uma decisão individual. Ela expõe as fragilidades da direita em Pernambuco, a dificuldade de montar um projeto majoritário competitivo e o custo elevado de transformar convicção ideológica em estratégia eleitoral viável. Entre a segurança de um mandato quase certo e o risco de um palanque avulso, a política costuma premiar quem escolhe permanecer no jogo — e não quem aceita, voluntariamente, sair dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário