CONCURSO SOB SUSPEITA: O CASO JOÃO CAMPOS, O JOGO DE BASTIDORES E O RECUO QUE NÃO APAGA AS MARCAS
O que começou como uma “controvérsia jurídica”, segundo a versão oficial da Prefeitura do Recife, transformou-se em uma das maiores crises políticas e institucionais da gestão do prefeito João Campos (PSB). O caso envolvendo a alteração do resultado de um concurso público para procurador municipal escancarou um enredo que mistura poder, influência, parentesco, decisões administrativas questionáveis, silêncio institucional e uma repercussão que ultrapassou os limites de Pernambuco, ganhando destaque nacional.
Sob a justificativa de assegurar direitos a pessoas com deficiência, a gestão municipal acabou mergulhada em acusações de favorecimento, violação ao edital, afronta a princípios constitucionais e possível crime de responsabilidade. O recuo tardio do prefeito, apenas após a forte pressão da imprensa, de entidades de classe e da sociedade, não foi suficiente para estancar as suspeitas que agora estão sob análise política e jurídica.
A coluna NA LUPA destrincha, ponto a ponto, o caso que colocou João Campos no centro de um pedido formal de impeachment e levantou questionamentos sobre a lisura de decisões tomadas nos bastidores do poder municipal.
A ORIGEM DO IMBRÓGLIO: UM CONCURSO HOMOLOGADO E UMA REGRA MUDADA NO MEIO DO JOGO
O concurso para procurador do Recife foi realizado em 2022 e homologado em junho de 2023. À época, Marko Venício dos Santos Batista foi o único aprovado para a vaga reservada a pessoas com deficiência (PCD). Com o resultado definitivo publicado, restava apenas a nomeação, etapa que, em concursos públicos, costuma ser automática diante da existência de vaga.
Dois anos depois da homologação, quando o processo já estava juridicamente encerrado, a “regra do jogo” começou a ser alterada. Um candidato que sequer havia concorrido na modalidade PCD reapareceu no certame, reabrindo um concurso que, na prática, já estava decidido.
O NOME NO CENTRO DA POLÊMICA E SEU PODEROSO ENTORNO
O candidato beneficiado pela reclassificação foi Lucas Vieira Silva. Até então, ele figurava na 63ª colocação da ampla concorrência, posição que não lhe garantia qualquer perspectiva de nomeação. Lucas é filho do juiz Rildo Vieira da Silva, atualmente titular da Vara de Crimes Contra a Administração Pública e a Ordem Tributária do Recife, e de Maria Nilda Silva, procuradora do Ministério Público de Contas de Pernambuco.
A coincidência de nomes, cargos e decisões não passou despercebida. No universo político e jurídico, parentesco com autoridades que ocupam postos estratégicos sempre acende alertas — especialmente quando atos administrativos passam por cima de pareceres técnicos e de regras expressas em edital.
O LAUDO TARDIO E A RECLASSIFICAÇÃO EXTEMPORÂNEA
Em maio de 2025, mais de três anos após a inscrição no concurso, Lucas Vieira Silva solicitou à Procuradoria do Município a reclassificação para concorrer às vagas destinadas a pessoas com deficiência. Para isso, apresentou um laudo médico que o diagnosticava com Transtorno do Espectro Autista (TEA), emitido anos depois da realização das provas.
O pedido foi analisado por três procuradoras concursadas, todas contrárias à reclassificação. Os pareceres apontaram, de forma clara, que o edital não permitia mudança de modalidade após a homologação do resultado, sob pena de violação aos princípios da legalidade, da isonomia e da vinculação ao edital.
PARECERES IGNORADOS E A CANETA DO PODER
Apesar das manifestações técnicas contrárias, o procurador-geral do município, Pedro Pontes — cargo de livre nomeação do prefeito — decidiu deferir o pedido. A nova classificação foi homologada em dezembro de 2025, em edição extra do Diário Oficial, e, três dias depois, João Campos assinou a nomeação de Lucas Vieira Silva como procurador judicial do Recife.
Na prática, o ato empurrou para fora o candidato que havia sido regularmente aprovado na vaga PCD, provocando indignação imediata dentro e fora da Procuradoria.
A CONEXÃO EXPLOSIVA: ARQUIVAMENTO DE INVESTIGAÇÃO E NOMEAÇÃO
O caso ganhou contornos ainda mais graves quando veio à tona que o pai do candidato nomeado, o juiz Rildo Vieira da Silva, havia arquivado, apenas 46 dias antes da nomeação do filho, uma investigação do Ministério Público de Pernambuco envolvendo contratos de aproximadamente R$ 100 milhões da Prefeitura do Recife.
A investigação, fruto da chamada Operação “Barriga de Aluguel”, apurava suspeitas de fraudes em licitações, pagamentos duplicados de serviços de engenharia e esquemas para beneficiar empresas contratadas. Mesmo com elementos levantados pelo Gaeco, o juiz entendeu não haver irregularidades nos contratos firmados pela gestão municipal.
A sequência temporal das decisões — promoção do juiz, arquivamento da investigação e nomeação do filho — virou combustível para acusações de conflito de interesses e favorecimento indevido.
O SILÊNCIO, A IMPRENSA E A PRESSÃO NACIONAL
Inicialmente, a Prefeitura do Recife tratou o episódio como uma questão meramente jurídica e tentou esvaziar o debate público. O PSB, partido do prefeito, optou pelo silêncio. No entanto, a repercussão extrapolou os limites locais e passou a ser explorada por veículos de alcance nacional, como o Metrópoles.
Entidades como a Associação Nacional das Procuradoras e dos Procuradores Municipais (ANPM) e a Associação dos Procuradores do Município do Recife (APMR) se posicionaram publicamente contra a reclassificação, apontando risco institucional e violação de princípios constitucionais.
O RECUO TARDIO E O DANO INSTITUCIONAL
Somente após a explosão do caso na imprensa e a indignação generalizada, a gestão municipal voltou atrás. A nomeação de Lucas Vieira Silva foi tornada sem efeito, e Marko Batista, o candidato originalmente aprovado, finalmente tomou posse.
O recuo, porém, não apagou as marcas do episódio. Para muitos, o gesto soou menos como reconhecimento de erro e mais como uma tentativa de conter danos políticos em um ano pré-eleitoral.
O PEDIDO DE IMPEACHMENT E O FUTURO POLÍTICO EM XEQUE
Diante dos fatos, o vereador Eduardo Moura (Novo) protocolou pedido de impeachment contra João Campos, apontando possível crime de responsabilidade e atos de improbidade administrativa. O documento sustenta que houve interferência indevida em concurso público, desrespeito a pareceres técnicos e favorecimento pessoal.
Caso o pedido avance, o prefeito poderá enfrentar investigação no âmbito do Legislativo, com potencial afastamento do cargo durante o processo.
O CASO QUE NÃO SE ENCERRA COM UM ATO ADMINISTRATIVO
O episódio do concurso de procurador do Recife não é apenas uma disputa entre candidatos. Ele escancara como decisões tomadas nos bastidores do poder podem fragilizar instituições, corroer a confiança pública e lançar sombras sobre discursos de modernidade e boa governança.
Mesmo com o recuo, as perguntas permanecem: por que ignorar pareceres técnicos? Por que reabrir um concurso encerrado? E por que tudo isso só foi revisto após a repercussão nacional?
Na política, como na Justiça, nem sempre voltar atrás é suficiente para apagar o caminho percorrido. O caso João Campos segue NA LUPA — e ainda promete novos capítulos. É isso estamos de olho!
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