quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

DOIS VOTOS SEPARAM JOÃO CAMPOS DE UMA INVESTIGAÇÃO: O CASO DA “CANETADA” QUE COLOCOU O RECIFE NO CENTRO DE UMA CRISE POLÍTICA


Recife vive um daqueles momentos em que a política deixa os bastidores e passa a ser debatida nas ruas, nas redes sociais e nos corredores do poder. Um episódio envolvendo a nomeação de um procurador municipal, já conhecido nacionalmente como o “esquema da canetada”, colocou o prefeito João Campos (PSB) diante da possibilidade concreta de ser investigado por crimes de responsabilidade e infração político-administrativa. O desfecho dessa história pode depender de apenas dois votos na Câmara Municipal do Recife.

O caso gira em torno do concurso público para o cargo de procurador do município. Em uma decisão que causou espanto e indignação, a Prefeitura do Recife nomeou o 63º colocado na lista geral, deixando de fora o candidato que havia ficado em 1º lugar na vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD). A medida, considerada por juristas e especialistas como no mínimo controversa, rapidamente ganhou repercussão nacional, levantando suspeitas sobre a legalidade e a moralidade do ato administrativo.

O que agravou ainda mais a situação foi o perfil do beneficiado. O candidato nomeado é filho de um juiz que atua em uma vara responsável por analisar inquéritos que apuram suspeitas de outro suposto esquema, envolvendo a Prefeitura do Recife, empreiteiras e contratos milionários na capital pernambucana. Para completar o cenário de desconfiança, a mãe do nomeado ocupa o cargo de procuradora no Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE), órgão que, em tese, tem como uma de suas atribuições fiscalizar possíveis irregularidades cometidas pela própria Prefeitura.

A combinação desses fatores — a quebra da ordem do concurso, os vínculos familiares com o Judiciário e com o órgão de controle externo — acendeu um alerta vermelho. Para muitos, não se tratava apenas de uma decisão administrativa questionável, mas de um episódio que colocava em xeque princípios básicos da administração pública, como impessoalidade, moralidade e transparência.

Diante da forte pressão popular e da repercussão negativa, o prefeito João Campos optou pelo silêncio. Não houve pronunciamento público detalhado sobre o caso. Ainda assim, no último dia 31 de dezembro de 2025, em uma movimentação interpretada como recuo político, o gestor municipal acabou nomeando o candidato que, de fato, era o legítimo detentor da vaga destinada a PCD.

A tentativa de encerrar o episódio como se fosse apenas um erro corrigido, porém, não convenceu a todos. Na Câmara do Recife, o vereador Eduardo Moura (NOVO) decidiu levar o caso adiante e protocolou um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Segundo o parlamentar, a simples correção do ato não elimina a necessidade de investigação, já que o gesto inicial pode configurar, em tese, crimes de responsabilidade e infração político-administrativa.

Para que a CPI seja instalada, são necessárias 13 assinaturas dos vereadores da capital. No momento, faltam apenas duas. É esse detalhe que transforma o episódio em um verdadeiro teste de fogo para o Legislativo recifense. A depender da decisão de poucos parlamentares, o pedido pode avançar, abrindo caminho não apenas para uma investigação aprofundada, mas também para um eventual processo de impeachment do prefeito.

O clima nos bastidores é de tensão. De um lado, aliados do prefeito defendem que o problema foi corrigido a tempo e que não há motivo para prolongar a crise. Do outro, parlamentares e setores da sociedade civil argumentam que a gravidade do ato exige apuração rigorosa, independentemente de recuos posteriores.

A pergunta que ecoa em Recife é direta e incômoda: os vereadores irão proteger o prefeito do PSB ou permitir que os fatos sejam plenamente investigados? Em jogo não está apenas o futuro político de João Campos, mas a credibilidade das instituições e a confiança da população no funcionamento correto do serviço público.

Com apenas dois votos separando a abertura da CPI, o Recife entra, definitivamente, na hora da verdade. O desfecho desse caso poderá marcar a política local e servir de exemplo — positivo ou negativo — sobre como o poder público reage quando decisões polêmicas vêm à tona e exigem explicações claras à sociedade.

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