domingo, 18 de janeiro de 2026

ENTRE O SONHO DO CAMPO DAS PRINCESAS E O JOGO DURO DA MAJORITÁRIA: OS DESAFIOS DE MIGUEL COELHO NA ÓRBITA DE RAQUEL LYRA

O movimento de aproximação de Miguel Coelho com a governadora Raquel Lyra não é casual, tampouco improvisado. Ele revela um cálculo político de longo alcance, que mira o Palácio do Campo das Princesas como destino final do projeto do clã de Petrolina. No entanto, apesar da lógica estratégica que sustenta essa articulação, o caminho está longe de ser simples e passa por obstáculos de peso, envolvendo aliados, disputas internas e resistências que podem redefinir completamente o tabuleiro de 2026.

A federação partidária da qual Miguel é peça central enxerga na aliança com Raquel Lyra uma oportunidade rara de protagonismo. Diferentemente de uma eventual composição com o prefeito do Recife, João Campos, a governadora oferece um cenário mais robusto para negociações. Com Raquel, a federação tem musculatura política para reivindicar duas vagas na chapa majoritária, algo praticamente inviável no campo de João, onde o espaço seria limitado e previamente condicionado. Ali, a vaga ao Senado, se existisse, teria dono certo: Eduardo da Fonte. E ainda assim, apenas uma cadeira estaria em disputa, já que Humberto Costa surge como nome natural à reeleição.

É nesse ponto que o projeto de Miguel encontra seu primeiro grande nó. Convencer Raquel Lyra a ceder duas vagas na majoritária à federação é um desafio considerável, mas ainda assim mais factível do que deslocar interesses consolidados no campo adversário. O verdadeiro teste de articulação, porém, está em outro personagem-chave: Eduardo da Fonte. Para que o desenho avance, Miguel precisará demonstrar que há espaço político real para que ambos figurem como candidatos ao Senado na chapa da governadora, sem que um projeto anule o outro.

Existe ainda uma segunda alternativa no radar: a federação abrir mão de uma das vagas ao Senado e ficar com a vice-governadoria e uma cadeira na Câmara Alta. Esse caminho, entretanto, exigiria uma ruptura delicada. Raquel Lyra teria que substituir Priscila Krause, atual vice e filiada ao PSD, o que não é uma decisão trivial. A vice-governadoria, neste contexto, ganha um peso estratégico enorme. Diferentemente de outras composições, o vice de Raquel tem chances concretas de assumir o governo, seja por renúncia ou por rearranjos naturais do ciclo político.

Esse fator torna a vaga de vice na chapa de Raquel significativamente mais atrativa do que a de João Campos. No Recife, o vice só herdaria o comando do Estado em caso de um projeto presidencial bem-sucedido. Já no cenário da governadora, a possibilidade de sucessão é mais palpável. Caso reeleita, Raquel Lyra tende a mirar o Senado, o que implicaria renúncia e abriria caminho direto para o vice. João Campos, por sua vez, poderia simplesmente trocar o companheiro de chapa numa eventual reeleição, diluindo o peso estratégico do posto.

Diante desse quadro, a hipótese de Miguel Coelho como vice de Raquel Lyra surge como o atalho mais curto e mais ousado para o clã de Petrolina alcançar o comando do Estado. Seria a consolidação de um projeto familiar que há anos amplia sua influência no Sertão e busca projeção estadual definitiva. Mas esse atalho passa por um terreno minado: a permanência de Priscila Krause, as ambições de Eduardo da Fonte e a própria disposição de Raquel em reconfigurar sua chapa.

No fim das contas, o que está em jogo é mais do que uma simples aliança eleitoral. Trata-se de uma disputa silenciosa por espaços de poder, onde cada movimento precisa ser calculado com precisão cirúrgica. Resta saber se o clã de Petrolina está fazendo a conta certa ou se subestima a resistência dos atores que hoje ocupam posições estratégicas no governo e na federação. Em política, atalhos existem, mas raramente são livres de pedágios altos.

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