sábado, 17 de janeiro de 2026

INVISÍVEL NAS URNAS, BARULHENTO NAS REDES: RENAN SANTOS E O DESRESPEITO EM CAETÉS

Edney Souto

O vídeo publicado por Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre (MBL), em frente à casa onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou parte da infância, em Caetés, não é apenas uma provocação política. É um gesto raso, ofensivo e profundamente desrespeitoso com a história de uma família pobre do Nordeste e, sobretudo, com a própria região que Santos tenta instrumentalizar para ganhar curtidas, engajamento e alguns segundos de atenção nas redes sociais.

Ao jogar sal grosso diante da antiga residência de Dona Lindu e afirmar que o objetivo seria impedir que “outro Lula nasça no Brasil”, Renan Santos não atinge Lula. Ataca simbolicamente milhões de nordestinos que compartilham uma trajetória marcada por pobreza, migração forçada, trabalho precoce e resistência. O gesto não é corajoso, não é inteligente e tampouco original. É apenas a encenação vazia de um personagem político que, invisível nas urnas, tenta existir no debate público por meio do escárnio e da afronta gratuita.

A casa de Caetés não é um “território inimigo”, como disse o líder do MBL em sua retórica beligerante e juvenil. É um símbolo da exclusão social que marcou gerações no Nordeste e da possibilidade concreta de ascensão política a partir das margens. Ao tratar o local como alvo de um ritual de ódio, Renan Santos demonstra desconhecimento histórico ou, pior, desprezo consciente por tudo o que aquela casa representa: a luta de uma mulher, Dona Lindu, que criou oito filhos em condições duríssimas, e a realidade de milhares de famílias nordestinas que nunca tiveram o privilégio do conforto ou da herança política.

A tentativa de justificar o ato com referências à Roma Antiga e à destruição de Cartago beira o ridículo. Comparar disputas políticas contemporâneas com guerras de extermínio da Antiguidade não engrandece o discurso, apenas evidencia o vazio de ideias. O que se viu em Caetés não foi um gesto simbólico sofisticado, mas uma encenação grotesca de alguém que confunde política com performance de internet.

Ao associar o local da infância de Lula a escândalos recentes e tentar deslegitimar o valor histórico da residência, Santos reforça uma estratégia conhecida: deslocar o debate da política pública para o ataque pessoal, da crítica institucional para a ofensa simbólica. É a política reduzida a espetáculo, feita não para convencer, mas para provocar reações, alimentar algoritmos e manter um personagem relevante em bolhas digitais.

Mais grave ainda é o desprezo explícito pela memória e pela identidade nordestina. A casa de Caetés não pertence apenas ao PT, nem a Lula, mas à história social do Nordeste. Desrespeitá-la é desrespeitar uma região inteira, suas dores, suas conquistas e sua importância na formação do Brasil. Não há crítica política legítima quando ela se constrói sobre o deboche e a desumanização.

No fim, o episódio diz menos sobre Lula e mais sobre o próprio Renan Santos. Um candidato invisível, sem densidade eleitoral, que busca desesperadamente um lugar na história não por ideias, propostas ou votos, mas por atos de provocação calculada. Jogar sal grosso pode render likes. Não rende respeito, nem grandeza política.

Souto

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