sábado, 7 de fevereiro de 2026

CHACINA DE POÇÃO: JUSTIÇA CONDENA MANDANTE A 142 ANOS E EX-DIRETOR DE PRESÍDIO A 67 ANOS POR EXECUÇÃO DE CONSELHEIROS E IDOSA

Depois de mais de uma década de dor, espera e comoção social, a Justiça de Pernambuco deu uma resposta dura e histórica para um dos crimes mais brutais do estado. Terminou na madrugada deste sábado (7), no Recife, o julgamento que condenou Bernadete de Lourdes Britto Siqueira Rocha a 142 anos, cinco meses e 16 dias de prisão por encomendar a chacina que matou três conselheiros tutelares e uma idosa, em Poção, no Agreste. Ao lado dela, José Vicente Pereira Cardoso da Silva, ex-diretor da Penitenciária de Arcoverde e apontado como o articulador do crime, foi condenado a 67 anos, três meses e oito dias de reclusão.

O júri popular, realizado na 4ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, entrou para a história não apenas pelo tamanho das penas, mas pelo simbolismo do caso. As vítimas estavam a serviço da proteção de uma criança quando foram surpreendidas por uma emboscada mortal. O julgamento foi transferido para o Recife por decisão de desaforamento, medida adotada para garantir a imparcialidade dos jurados, diante da forte repercussão do crime em Poção.

De acordo com a acusação, a chacina foi motivada por uma disputa pela guarda de uma menina de apenas três anos. Bernadete, avó paterna da criança, teria ordenado a execução após perder espaço na convivência com a neta. José Vicente, com influência e trânsito no sistema prisional, teria sido o responsável por contratar os executores e articular a ação criminosa. Na noite do crime, em 6 de fevereiro de 2015, o carro do Conselho Tutelar foi interceptado no Sítio Cafundó. Os ocupantes não tiveram chance de defesa. A criança foi atingida, mas sobreviveu.

As vítimas foram Carmem Lúcia da Silva, José Daniel Farias Monteiro e Lindenberg Nóbrega de Vasconcelos, conselheiros tutelares que cumpriam uma missão oficial, além de Ana Rita Venâncio, avó materna da menina. A execução chocou Pernambuco e provocou uma onda de indignação, com manifestações e cobranças por justiça em todo o estado.

Durante os dias de julgamento, o tribunal ouviu delegado responsável pela investigação, testemunhas, além dos próprios réus. Na sexta-feira (6), acusação e defesa travaram debates intensos, com réplica e tréplica, até que o Conselho de Sentença, formado por seis mulheres e um homem, decidiu pela condenação. O Tribunal de Justiça de Pernambuco informou que a pena de José Vicente foi reduzida em razão da idade, já que ele tem mais de 70 anos. A defesa anunciou recurso ainda em plenário.

O caso, porém, não se encerra apenas com essas duas condenações. Ao todo, sete pessoas foram acusadas pela chacina. Em dezembro de 2025, três réus já haviam sido julgados: Égon Augusto Nunes de Oliveira e Orivaldo Godê de Oliveira receberam penas de 101 anos e quatro meses de prisão, enquanto Ednaldo Afonso da Silva foi condenado a 12 anos e seis meses. Em 2024, Wellington Silvestre dos Santos, localizado no Maranhão após mais de um ano foragido, foi sentenciado a 74 anos de reclusão. O julgamento de Leandro José da Silva, que ocorreria junto com Bernadete e José Vicente, foi adiado a pedido da defesa e ainda terá nova data definida.

As investigações apontaram ainda que Bernadete chegou a ser investigada por envolvimento no envenenamento da própria nora, mãe da criança sobrevivente, reforçando o retrato de um conflito familiar marcado por violência extrema. O pai da menina chegou a ser preso no início das apurações, mas acabou não indiciado; segundo a polícia, ele teria sido envolvido pela própria mãe, sem conhecimento do plano criminoso.

A Chacina de Poção ficou marcada como um ataque direto ao sistema de proteção à infância e adolescência. Ao condenar os mandantes e articuladores, o Tribunal do Júri envia um recado claro: crimes contra quem defende crianças e famílias não ficarão impunes. Para os parentes das vítimas e para a sociedade pernambucana, a sentença representa um passo decisivo para transformar indignação em justiça.

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