Para muitos moradores, a sensação é clara: “mexer no que está quieto”. A feira funciona há décadas em seu dia tradicional, sustentando famílias, organizando a rotina do comércio local e garantindo que feirantes consigam trabalhar em diferentes municípios ao longo da semana. Alterar esse calendário, segundo os próprios comerciantes, seria uma decisão que ignora a lógica real da economia popular.
A crítica central é objetiva e prática: se a feira do distrito acontecer no mesmo dia da feira da cidade, os feirantes não poderão estar em dois lugares ao mesmo tempo. E isso não é detalhe — é prejuízo direto. Muitos trabalham circulando entre feiras de cidades vizinhas justamente porque os dias são alternados. Unificar as datas significa obrigar esses trabalhadores a escolher onde vender, reduzindo renda e enfraquecendo o comércio local.
A proposta caiu mal desde o início. Redes sociais foram tomadas por vídeos, críticas e desabafos. Moradores acusam a gestão de criar um problema onde não existia. “Mais uma trapalhada”, dizem alguns, ao questionar a necessidade de mexer em uma estrutura que sempre funcionou.
Na Câmara Municipal, o tema ganhou contornos ainda mais intensos, com discussão de projeto voltado ao reconhecimento do dia tradicional da feira como patrimônio cultural, numa tentativa de proteger a data histórica. A audiência pública realizada para tratar do assunto foi marcada por divergências, discursos firmes e clima de tensão.
O Executivo defende a reorganização como medida administrativa. Já a população questiona: reorganizar para quem? Ao alinhar as feiras, o município pode acabar promovendo concorrência interna entre distrito e sede, afetando diretamente pequenos produtores, agricultores familiares e comerciantes que dependem do giro semanal.
Mais do que uma simples mudança de calendário, o episódio escancara um embate entre gestão e comunidade. Para os feirantes, não se trata de política — trata-se de sustento. Para parte da população, a decisão representa um erro desnecessário, uma intervenção em algo que funcionava e que não precisava ser alterado.
Em Rainha Isabel, a feira é mais do que comércio. É tradição, encontro, identidade. E ao tentar mudar o dia, a gestão municipal acabou despertando um debate que ultrapassa a agenda administrativa e entra no terreno sensível da sobrevivência econômica e do respeito à história local.
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