Entre os raros casos de sucesso estão dois tucanos paulistas que viraram referência nesse tipo de movimento: José Serra, eleito governador de São Paulo em 2006 após deixar a prefeitura, e João Doria, que repetiu o feito em 2018. Antes deles, também conseguiram a transição Wilma Faria, no Rio Grande do Norte; Marcelo Déda, em Sergipe; Beto Richa, no Paraná; e Ricardo Coutinho, na Paraíba. Mas são exceções em um universo marcado por tropeços.
Entre os derrotados estão nomes de peso. Tarso Genro deixou a Prefeitura de Porto Alegre em 2002 para disputar o governo do Rio Grande do Sul e perdeu. Só conseguiria se eleger governador oito anos depois. Mais recentemente, Alexandre Kalil abriu mão da Prefeitura de Belo Horizonte para enfrentar Romeu Zema em 2022 e foi derrotado ainda no primeiro turno.
Mas o caso mais emblemático — e que ecoa diretamente no debate atual — é o de ACM Neto. Em 2022, ele iniciou a disputa pelo governo da Bahia como franco favorito. Ex-prefeito de Salvador por dois mandatos e herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da política baiana, ACM Neto aparecia em pesquisas com percentuais que flertavam com os 50%, alimentando a expectativa de vitória no primeiro turno. A narrativa era de retorno do seu grupo ao comando do estado com ampla vantagem.
Só que eleição é dinâmica. Enquanto Neto liderava com folga, o então menos conhecido Jerônimo Rodrigues crescia impulsionado pela estrutura estadual e pelo peso político de Luiz Inácio Lula da Silva na Bahia. A campanha avançou, a diferença diminuiu, a disputa foi para o segundo turno — e o favoritismo inicial se dissolveu. No fim, Jerônimo venceu com pouco mais de 52% dos votos válidos. ACM Neto, que começou a corrida embalado por números quase majoritários, terminou derrotado.
O episódio virou referência entre analistas políticos. Primeiro, porque mostrou que liderança antecipada não garante vitória consolidada. Segundo, porque expôs um fator recorrente nesse tipo de movimento: a percepção de “quebra de contrato” com o eleitor. Quando um prefeito é eleito — ou reeleito — com promessa implícita de governar quatro anos e abandona o cargo no meio, parte do eleitorado pode interpretar o gesto como ambição acima do compromisso administrativo.
É justamente essa equação que ronda Recife. João Campos foi reeleito com votação histórica, consolidando ampla aprovação na capital pernambucana. Tem estrutura partidária, visibilidade nacional e base política sólida. Mas a vitrine da capital não se confunde com o mapa eleitoral do estado inteiro. Interior, alianças regionais e conjunturas nacionais pesam — e muito.
A história recente ensina que a popularidade urbana pode não resistir à complexidade de uma eleição estadual. Dos que tentaram o salto, a maioria caiu. Alguns começaram como favoritos absolutos e terminaram derrotados. Outros subestimaram a força de adversários regionais ou o impacto do cenário nacional.
Para João Campos, como antes foi para ACM Neto, a decisão não será apenas estratégica — será histórica. A pergunta que ecoa não é se há viabilidade eleitoral, mas se o risco compensa. Porque, na política brasileira, começar com 50% nas pesquisas pode significar pouco. O que define o futuro não é a largada, é a linha de chegada.
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