segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

ORELHA, O CÃO QUE VIROU ETERNIDADE NA AREIA DA PRAIA BRAVA

Na faixa de areia da Praia Brava, em Santa Catarina, onde o vento espalha o cheiro salgado do mar e o som das ondas dita o ritmo dos dias, uma presença silenciosa chama a atenção de quem passa. Voltada para o horizonte, cercada por flores que se renovam como gestos contínuos de carinho, a estátua de um cachorro transformou um ponto da praia em espaço de memória, afeto e homenagem. O nome dele era Orelha — e sua história ultrapassou os limites da vida comum de um animal de rua para se tornar símbolo de amor e lealdade.

Frequentadores da praia, moradores da região e turistas que ouviram falar do cão compartilham lembranças semelhantes: Orelha não tinha dono, mas parecia pertencer a todos. Circulava entre cadeiras de praia, quiosques e calçadões com a tranquilidade de quem se sente em casa. Recebia afagos, acompanhava caminhadas, deitava-se próximo às famílias como se também fizesse parte delas. Não pedia muito — um pouco de comida, água fresca e, sobretudo, companhia. Em troca, oferecia uma presença mansa, constante, quase terapêutica para quem enfrentava dias difíceis ou apenas buscava um momento de paz à beira-mar.

Com o tempo, Orelha deixou de ser apenas “o cachorro da praia” e virou referência afetiva. Crianças o procuravam para brincar, idosos sentavam perto dele para fazer companhia, trabalhadores da orla se revezavam para garantir que nunca faltasse cuidado. Em um cenário muitas vezes marcado pela pressa e pelo individualismo, o animal virou ponto de encontro e lembrete diário de gentileza. Sua rotina simples — observar o mar, caminhar devagar pela areia e descansar sob o sol — passou a fazer parte da paisagem tanto quanto os prédios ao redor e o azul do oceano.

A despedida, quando veio, foi sentida como a perda de um velho amigo. A notícia se espalhou rapidamente entre os frequentadores da Praia Brava, provocando uma onda de comoção que mostrou a dimensão do vínculo construído ao longo dos anos. Mensagens nas redes sociais, fotos antigas e relatos emocionados revelaram que Orelha havia marcado histórias pessoais, ajudado a aliviar solidões e criado memórias que agora ganhavam outro significado: o da saudade.

A ideia da estátua nasceu desse sentimento coletivo. Mais do que um monumento, a escultura foi pensada como um gesto de gratidão. Instalada de frente para o mar, na posição em que tantas vezes foi visto observando o movimento das águas, ela parece manter viva a essência do animal que virou símbolo da praia. As flores ao redor, frequentemente renovadas por mãos anônimas, mostram que a homenagem não é estática — ela continua sendo construída por quem passa, lembra e se emociona.

Para muitos, parar diante da estátua de Orelha virou um pequeno ritual. Há quem faça um carinho na escultura, quem tire fotos, quem conte a história para os filhos ou amigos que visitam o local pela primeira vez. O espaço ganhou um significado que vai além da lembrança de um cachorro: tornou-se um ponto de reflexão sobre laços, cuidado coletivo e a capacidade que os animais têm de tocar vidas humanas de maneira profunda e transformadora.

Na imensidão da Praia Brava, onde tudo parece passageiro como as marcas que a maré apaga na areia, Orelha ganhou o que poucos conseguem: permanência. Em bronze, flores e memória, ele segue ali, voltado para o mar, como se ainda estivesse de guarda — não de um território, mas das lembranças de todos que um dia encontraram, naquele olhar tranquilo, um abrigo inesperado.

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