No discurso oficial, o município da “Terra da Papacaça” passa a figurar entre os maiores reajustes da região e de Pernambuco. Porém, fora das notas institucionais e das redes sociais da prefeitura, a realidade da educação municipal revela um cenário mais complexo e marcado por conflitos administrativos e políticos.
INÍCIO DE ANO LETIVO SOB TENSÃO
O ano letivo de 2026 começou sob críticas de pais e professores. Relatos apontaram atraso na distribuição de fardamentos e materiais escolares, gerando insatisfação em comunidades que, em anos anteriores, contavam com maior organização logística no início das aulas. Em algumas unidades, famílias reclamaram da falta de kits básicos para os estudantes, o que teria comprometido os primeiros dias de atividades.
Além disso, houve queixas de docentes sobre a ausência de pagamento por atividades realizadas antes do início oficial do calendário escolar, situação que ampliou o desgaste interno. Para parte da categoria, o reajuste salarial anunciado não compensa falhas administrativas nem resolve pendências históricas relacionadas à carreira, progressões e condições de trabalho.
A lembrança da greve geral de 2017 ainda ecoa entre os educadores. Naquele período, a categoria cruzou os braços reivindicando valorização profissional e cumprimento de direitos. Quase uma década depois, embora o reajuste seja numericamente expressivo, muitos profissionais avaliam que a política educacional precisa ir além do percentual aplicado ao salário-base.
CONFLITOS NA CÂMARA E POLÊMICA ORÇAMENTÁRIA
A gestão de Edézio Ferreira também enfrentou tensão com o Legislativo municipal. A proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), enviada à Câmara, incluiu dispositivos que permitiriam ao Executivo remanejar até 40% do orçamento sem autorização prévia dos vereadores — inclusive em áreas sensíveis como educação e saúde. A iniciativa foi criticada por parlamentares da oposição, que consideraram os trechos questionáveis do ponto de vista legal e institucional.
O episódio acirrou o debate sobre transparência e controle dos recursos públicos. Para críticos da gestão, a tentativa de ampliar a margem de remanejamento orçamentário levantou dúvidas sobre o planejamento financeiro da administração, especialmente diante do impacto permanente de reajustes salariais acima da média nacional.
REAJUSTE ACIMA DO PISO, MAS DESAFIOS PERSISTEM
O aumento de 8,5% supera o índice nacional, mas especialistas em gestão pública observam que o cumprimento do piso é apenas um dos elementos da política de valorização docente. A legislação federal que institui o piso estabelece também parâmetros para jornada e carreira, exigindo estrutura consistente e planejamento contínuo.
Outro ponto em discussão é a sustentabilidade fiscal da medida. Municípios de porte semelhante ao de Bom Conselho operam com limites rigorosos da Lei de Responsabilidade Fiscal. Um reajuste expressivo, sem expansão proporcional de receita, pode pressionar o orçamento nos próximos anos, sobretudo se não houver equilíbrio entre folha de pagamento e investimentos estruturais.
ENTRE O DISCURSO E A REALIDADE
A administração municipal tem destacado obras de infraestrutura e parcerias políticas como marcas da gestão. No entanto, na área da educação, o debate permanece polarizado. Enquanto aliados celebram o índice concedido aos professores, parte da comunidade escolar aponta que a valorização profissional precisa vir acompanhada de organização administrativa, previsibilidade financeira e melhorias concretas nas escolas.
O reajuste de 2026 entra para os registros como um dos maiores já concedidos pelo município. A questão que permanece é se ele representa uma mudança estrutural na política educacional ou se será lembrado apenas como um movimento pontual em meio a um cenário de conflitos e desafios ainda não superados.
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