quarta-feira, 7 de outubro de 2026

EXPLODE O ÓDIO CONTRA O NORDESTE APÓS O RESULTADO DAS URNAS

O voto é livre. O preconceito não. E as redes sociais voltaram a mostrar, depois de uma eleição, uma face nada bonita do Brasil.

Não adianta esconder debaixo do tapete. O preconceito contra nordestinos existe, é antigo e atravessa gerações. Aparece no sotaque, na origem, na condição social, nas piadas e, de tempos em tempos, ganha uma nova embalagem: a política.

Foi exatamente isso que voltou a acontecer depois do primeiro turno das eleições de 2026.

O mapa das urnas mostrou uma diferença regional bastante clara na disputa presidencial. Luiz Inácio Lula da Silva terminou o primeiro turno à frente de Flávio Bolsonaro no Nordeste, com 63,77% dos votos válidos contra 30,85% do candidato do PL. Lula venceu nos nove estados nordestinos. No restante do país, Flávio teve desempenho superior em boa parte das regiões. 

E foi aí que parte das redes sociais resolveu transformar uma escolha eleitoral em motivo para atacar milhões de brasileiros.

O fenômeno não é exatamente novidade. Depois de eleições anteriores, especialmente em 2014, 2018 e 2022, episódios de xenofobia contra nordestinos foram registrados no ambiente digital. Uma pesquisa acadêmica dedicada às eleições de 2014, por exemplo, identificou a circulação de discursos de ódio contra nordestinos nas redes sociais e relacionou esse comportamento a estereótipos históricos, preconceito regional e desigualdades sociais. 

Em 2018, a própria Assembleia Legislativa de Pernambuco registrou o aumento de manifestações discriminatórias contra nordestinos na internet após o resultado presidencial. Na ocasião, o Observatório da Intolerância Política da OAB-PE havia recebido 195 queixas relacionadas à discriminação por opinião eleitoral, muitas delas envolvendo ataques ao eleitorado nordestino. 

Agora, oito anos depois, a história parece ganhar novos capítulos.

O MOTIVO DA VEZ

Um levantamento que está sendo concluído pela Ativaweb DataLab aponta uma explosão da conversa digital em torno do voto nordestino após o primeiro turno.

Segundo o cientista de dados e CEO da Ativaweb DataLab, Alek Maracajá, foram capturadas, nas últimas 72 horas, quase 33 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao voto nordestino. De acordo com o levantamento preliminar citado pelo pesquisador, 82,2% dessas manifestações apresentavam tom crítico ao voto do Nordeste.

O número ainda precisa ser apresentado pelo laboratório com metodologia, período exato, plataformas monitoradas e critérios de classificação para que possa ser analisado em sua totalidade. Mas a existência de uma avalanche de comentários sobre o comportamento eleitoral nordestino já é perceptível nas redes.

A Ativaweb DataLab tem realizado monitoramentos do ambiente digital durante as eleições de 2026. Levantamentos anteriores do laboratório foram publicados por veículos como VEJA e Revista Nordeste, inclusive com análise de milhões de menções e interações nas plataformas digitais.

O NORDESTINO VOTA. E PAGA A CONTA?

O que chama atenção nessa história é a lógica utilizada por parte dos ataques.

O eleitor nordestino pode votar em Lula. Pode votar em Flávio. Pode votar em Caiado, Zema, Cury, Renan ou em qualquer outro candidato.

Pode mudar de opinião.

Pode votar branco.

Pode anular.

Pode simplesmente não gostar de nenhum.

É democracia.

O problema começa quando alguém olha para o mapa eleitoral e conclui que milhões de pessoas são inferiores, ignorantes, incapazes ou menos brasileiras simplesmente porque vivem ou nasceram em determinada região.

Isso não é debate político.

É preconceito regional.

E o próprio Estado brasileiro já tratou situações semelhantes como casos que podem ultrapassar o limite da liberdade de expressão.

Em janeiro deste ano, o Ministério Público Federal em Pernambuco informou a condenação de um internauta por publicações ofensivas contra nordestinos motivadas por questões político-eleitorais e preconceito de origem regional. A decisão estabeleceu pena de 2 anos e 11 meses de reclusão, substituída por medidas alternativas, além de R$ 20 mil por danos morais coletivos. O caso teve origem em comentários publicados em uma rede social e relacionados a eleitores de Garanhuns. 

Em fevereiro, a Justiça Federal também manteve a condenação de um vereador de Caxias do Sul por manifestações xenofóbicas contra trabalhadores nordestinos, especialmente baianos. A decisão determinou o pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos.

Ou seja: não é invenção de quem se sente ofendido. O preconceito regional existe e pode produzir consequências jurídicas.

E TEM NORDESTINO QUE AJUDA A ALIMENTAR O PRECONCEITO

Aqui está uma parte incômoda da história.

O preconceito não vem apenas de quem está fora.

Existe também uma parcela de nordestinos que reproduz os próprios estereótipos contra a região. Gente que sente vergonha do sotaque, que esconde a origem, que trata a própria terra como sinônimo de atraso e que, paradoxalmente, participa da construção do discurso que depois volta contra ela.

É uma contradição brasileira.

O Nordeste é frequentemente lembrado pela cultura, pela música, pela gastronomia, pelo turismo e pela força de seu povo. Mas, na hora da disputa política, uma parte do debate abandona a crítica ao voto e passa a atacar a identidade de quem votou.

E aí o problema deixa de ser Lula ou Flávio.

Deixa de ser esquerda ou direita.

Deixa de ser PT ou PL.

Passa a ser uma questão muito maior: que tipo de país queremos construir quando discordamos uns dos outros?

O MAPA PODE SER VERMELHO, AZUL, VERDE OU DE QUALQUER COR

O mapa eleitoral não pertence a candidato nenhum.

Nem ao Nordeste.

Nem ao Sul.

Nem ao Sudeste.

Nem ao Norte.

Nem ao Centro-Oeste.

Em 2026, o Nordeste votou majoritariamente em Lula. Mas os próprios números mostram que o comportamento regional está longe de ser uniforme ou imutável.

Flávio Bolsonaro, por exemplo, obteve 10,39 milhões de votos no Nordeste, correspondentes a 30,85% dos votos válidos da região. O número representa crescimento em relação à votação de Jair Bolsonaro em 2022: Flávio recebeu cerca de 1,61 milhão de votos a mais que o pai havia obtido no primeiro turno daquele ano na região. 

Portanto, até dentro do Nordeste existe diversidade política.

E muita.

Pernambuco não é a Bahia.

A Bahia não é Alagoas.

Alagoas não é o Piauí.

O Piauí não é o Ceará.

E nenhum desses estados representa sozinho os quase 58 milhões de brasileiros que vivem na região.

O Nordeste não é um bloco eleitoral.

É uma sociedade inteira, formada por diferentes classes sociais, religiões, profissões, cidades, campos políticos e histórias familiares.

O ÓDIO DIGITAL NÃO PODE VIRAR NORMALIDADE

As redes sociais deram voz a milhões de pessoas. Mas também deram velocidade a preconceitos que antes ficavam restritos às conversas privadas.

O problema é que, escondido atrás de uma tela, muita gente perde a noção de que existe uma pessoa do outro lado.

Um nordestino lendo.

Um pernambucano lendo.

Um baiano lendo.

Um cearense lendo.

Um paraibano lendo.

Um maranhense, alagoano, sergipano, potiguar ou piauiense lendo.

E muitos deles vivendo justamente nas regiões que aparecem no mapa pintadas de outra cor.

A Polícia Federal reconhece que expressões historicamente utilizadas contra migrantes nordestinos carregam origem pejorativa e depreciativa e destaca que o Nordeste é uma região plural, com diferentes culturas, sotaques e realidades. 

No fim das contas, o eleitor pode até ser responsabilizado pelo voto que escolheu — politicamente, nas urnas. Mas não pode ser tratado como cidadão de segunda categoria por causa da sua origem.

A urna termina às cinco da tarde.

O preconceito, quando ninguém enfrenta, continua funcionando 24 horas.

E talvez seja essa a parte mais perigosa dessa história: transformar a divergência eleitoral em autorização para desprezar uma região inteira do país.

O Nordeste pode mudar de voto.

O Nordeste pode surpreender.

O Nordeste pode dividir suas escolhas.

O Nordeste pode votar em quem quiser.

Mas continuará sendo Nordeste.

E continuará sendo Brasil.

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