Governadora quer consenso, mas o PSD já se movimenta para conquistar a presidência da Assembleia. Antônio Moraes, Joãozinho Tenório, Débora Almeida e Aglailson Victor aparecem no tabuleiro, enquanto a Primeira-Secretaria também movimenta os bastidores.
A eleição terminou, mas a disputa pelo poder em Pernambuco está apenas começando. E, desta vez, Raquel Lyra sabe que não pode deixar o jogo correr solto. Depois de conquistar a reeleição, a governadora colocou a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) no centro das articulações para o segundo mandato. O objetivo é claro: evitar que a relação entre o Palácio do Campo das Princesas e a Casa de Joaquim Nabuco volte a ser marcada por conflitos, surpresas e dificuldades para fazer avançar a agenda do Executivo.
Na política, ganhar a eleição é uma coisa. Governar com tranquilidade é outra. E Raquel aprendeu isso na prática durante o primeiro mandato, quando a relação com o Legislativo foi atravessada por divergências e disputas de protagonismo. Agora, com a vitória nas urnas e uma nova composição parlamentar pela frente, a governadora quer participar diretamente da construção da futura Mesa Diretora. Não pretende assistir de camarote a uma eleição que pode definir o ritmo de seu governo pelos próximos dois anos.
O PSD QUER A PRESIDÊNCIA
As movimentações ganharam força nos últimos dias. Segundo informações publicadas pelo Blog Dellas, do JC, em reunião com o secretário da Casa Civil, Túlio Vilaça, os deputados do PSD defenderam que a presidência da Alepe fique com um representante do partido da governadora. Antônio Moraes e Joãozinho Tenório apresentaram seus nomes, enquanto Débora Almeida e Aglailson Victor também aparecem entre os interessados. A decisão, porém, ainda depende das conversas com o Palácio e da construção de uma candidatura capaz de reunir apoio suficiente.
A movimentação deixa evidente que o PSD não quer apenas participar da composição da Mesa: pretende ocupar o principal posto da Assembleia. Antônio Moraes aparece com força nas conversas por sua experiência parlamentar, proximidade com Raquel e trânsito político na Casa. Joãozinho Tenório também está no páreo, enquanto Débora Almeida e Aglailson Victor ampliam a concorrência dentro da própria legenda.
O problema é que, quando vários aliados disputam o mesmo espaço, a escolha deixa de ser apenas uma questão de preferência. Passa a envolver equilíbrio interno, compromissos partidários e a necessidade de evitar que uma disputa por cargos termine provocando rachaduras na base governista.
RAQUEL FALA EM CONSENSO, MAS O PALÁCIO ESTÁ NO JOGO
Em declaração à CBN Recife, no dia 13 de outubro, Raquel Lyra defendeu a construção de um consenso para a eleição da Mesa Diretora, sem anunciar apoio público a nenhum candidato. A posição preserva a margem de negociação da governadora e evita antecipar uma escolha que ainda precisa passar por conversas com deputados e dirigentes partidários.
Nos bastidores, entretanto, consenso não significa ausência de disputa. Significa encontrar uma solução que permita ao governo sair fortalecido sem transformar aliados em adversários. A governadora terá de ouvir os interessados, avaliar quem reúne condições de conquistar votos e administrar as expectativas de partidos que também querem espaço na estrutura de comando da Assembleia.
A lembrança da eleição anterior pesa nessa equação. Álvaro Porto chegou à presidência da Alepe em um cenário que acabou produzindo uma relação difícil com o Executivo. Para Raquel, repetir uma situação em que o presidente da Casa se distancia das prioridades do governo seria um risco político desnecessário no início de uma nova gestão.
PRIMEIRA-SECRETARIA: A OUTRA DISPUTA DE PESO
Se a presidência concentra os holofotes, a Primeira-Secretaria também promete uma queda de braço considerável. O cargo tem importância administrativa e influência sobre o funcionamento interno da Assembleia, incluindo atribuições relacionadas à gestão, aos contratos e às despesas da Casa.
Gustavo Gouveia, do Podemos, aparece entre os nomes cotados para a função e já manifestou interesse em disputar a presidência ou a Primeira-Secretaria. Francismar Pontes, atual ocupante do posto, também pretende permanecer. Kaio Maniçoba e France Hacker são outros nomes mencionados nas articulações, especialmente diante do interesse da Federação União Progressista em participar da composição.
A negociação, portanto, não se resume a escolher quem sentará na cadeira de presidente. O desenho da Mesa deverá contemplar diferentes forças políticas, respeitando o peso das bancadas e os acordos necessários para garantir uma maioria. É nesse ponto que o Palácio terá de demonstrar habilidade: acomodar interesses sem perder o controle político da negociação.
UMA NOVA ALEPE, UM NOVO CENÁRIO
A Assembleia que tomará posse em 2027 terá uma configuração diferente. PSD e PSB elegeram nove deputados estaduais cada um, formando as maiores bancadas da Casa. Ao mesmo tempo, projeções divulgadas pelo Jornal do Commercio apontam que a base governista poderá reunir entre 25 e 30 parlamentares, embora essa conta ainda dependa do posicionamento efetivo dos eleitos.
Esse cenário oferece a Raquel uma oportunidade de construir uma relação mais favorável com o Legislativo. Mas maioria potencial não é cheque em branco. Cada deputado tem seus próprios interesses, seus compromissos políticos e suas ambições. Uma coisa é apoiar o governo; outra é abrir mão de espaço numa disputa que envolve poder, influência e projeção para o futuro.
A governadora terá de transformar o capital político conquistado nas urnas em unidade parlamentar. E a eleição da Mesa será o primeiro grande teste dessa capacidade.
NA LUPA
Raquel Lyra começa o segundo mandato diante de uma escolha que vai muito além do nome do futuro presidente da Alepe. O que está em jogo é quem terá capacidade de conduzir a Assembleia, organizar as votações e manter uma relação institucional funcional com o Executivo.
A governadora tem a força de uma reeleição e a possibilidade de trabalhar com uma base mais confortável. Mas precisará evitar que a disputa entre aliados se transforme numa guerra por espaços. Antônio Moraes, Joãozinho Tenório, Débora Almeida, Aglailson Victor e Gustavo Gouveia representam interesses e caminhos diferentes dentro desse tabuleiro.
A eleição está marcada para 1º de fevereiro de 2027, e muita conversa ainda vai acontecer até lá. Raquel defende consenso, mas terá de mostrar que consegue construí-lo na prática.
Porque, em Pernambuco, a eleição para governador escolhe quem ocupa o Palácio. Já a disputa pela presidência da Alepe pode definir o tamanho da força desse governo dentro do próprio poder. E Raquel Lyra sabe que não pode errar nessa jogada.
Edney Souto — Blog do Edney | Política na Lupa
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