Voltei de Goiânia, em Goiás, carregando na bagagem novos conhecimentos, boas lembranças de pessoas que tive a oportunidade de conhecer e uma sensação amarga que ainda custa a desaparecer. Fui para estudar, aprender, conhecer outras culturas e ampliar horizontes. Encontrei gente acolhedora, educada, generosa e disposta a conversar. Mas também encontrei, em meio ao calor de uma eleição que já passou, uma face dolorosa do Brasil: o preconceito contra quem nasceu no Nordeste.
Ouvi frases que parecem ter saído de um Brasil que insiste em não se enxergar no espelho. “Nordestino é tudo vagabundo.” “O Nordeste só suga as riquezas do país.” “Lá só tem preguiçoso.”
E eu estava ali, com meu sotaque carregado, sem esconder de onde vim, ouvindo atentamente aquelas declarações. Não fui a Goiânia para brigar. Fui para aprender. Mas, como jornalista, aprendi que os números também falam. E, diante de tamanha ignorância, eles se tornam instrumentos poderosos para desmontar mentiras repetidas como se fossem verdades absolutas.
O que mais incomoda não é uma divergência política. Democracia é isso mesmo: pessoas pensando diferente, votando em candidatos distintos e defendendo projetos que nem sempre combinam. O problema começa quando alguém acredita que a escolha eleitoral de milhões de brasileiros lhe dá o direito de humilhar uma região inteira. Quando o voto vira pretexto para chamar um povo de preguiçoso, a discussão deixa de ser política e passa a revelar um preconceito muito mais antigo.
Passadas as eleições, com Lula reeleito presidente da República, essa reflexão ganha um significado ainda mais especial para mim. Lula é meu conterrâneo, pernambucano de nascimento, natural de Garanhuns, a mesma terra do Agreste que carrego comigo por onde ando. E não há como negar que, depois de ouvir tantas ofensas contra os nordestinos, ver um filho da nossa região novamente escolhido para comandar o país tem um peso simbólico particular.
Não escrevo isso para dizer que todo nordestino precisa votar em Lula, muito menos para afirmar que quem votou contra ele vale menos. Democracia é liberdade de escolha. O que não pode existir é a ideia absurda de que o nordestino merece menos respeito porque vota de determinada maneira. O resultado das urnas não transforma ninguém em cidadão de primeira ou segunda categoria.
O que me incomoda é perceber que, para algumas pessoas, o voto nordestino se transforma em autorização para atacar a dignidade de milhões de brasileiros. Como se o resultado eleitoral apagasse nossa história, diminuísse nossa capacidade de trabalho ou nos tornasse menos merecedores de respeito.
Lula saiu de Garanhuns, no Agreste pernambucano, e chegou à Presidência da República. Sua trajetória política tem controvérsias, desperta paixões e provoca críticas legítimas, como acontece com qualquer liderança nacional. Mas sua origem não pode ser usada como instrumento de humilhação contra os nordestinos. Independentemente da posição política de cada um, sua história mostra que o lugar onde alguém nasce não determina até onde essa pessoa pode chegar.
E é justamente por isso que precisamos falar de números.
O Nordeste tem problemas? Evidentemente. Tem desigualdades históricas, dificuldades de infraestrutura, desafios no mercado de trabalho e municípios que ainda lutam contra a pobreza. Negar isso seria irresponsabilidade jornalística. Mas transformar essas dificuldades em uma sentença contra a dignidade de quase 60 milhões de pessoas é outra coisa. É desconhecer a história e, pior, usar a ignorância como argumento.
Segundo dados demográficos do IBGE, o Nordeste reúne aproximadamente 54,6 milhões de habitantes no Censo de 2022, pouco mais de um quarto da população brasileira. Estamos falando de uma região formada por nove estados, com economias, culturas, sotaques e realidades muito diferentes. Não é uma pequena parcela do país, muito menos um território que possa ser reduzido a meia dúzia de estereótipos.
A economia nordestina está presente na agricultura, na indústria, no comércio, nos serviços, no turismo, na energia e em inúmeras atividades que sustentam milhões de famílias. Pernambuco tem um polo médico, um complexo portuário e industrial e uma economia de serviços expressiva. A Bahia tem uma estrutura industrial e agropecuária de grande relevância. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Maranhão e Piauí também possuem atividades produtivas e potencialidades próprias.
Não existe uma única fotografia do Nordeste. Existe uma região inteira, diversa, que trabalha e busca oportunidades, apesar das desigualdades que ainda precisam ser enfrentadas.
E o mercado de trabalho também conta uma história que não cabe na conversa preconceituosa. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE, registrou avanços importantes no emprego brasileiro em 2025, com a menor taxa anual de desocupação da série histórica nacional. Os indicadores variam entre os estados e as regiões, e o Nordeste continua enfrentando obstáculos próprios. É justamente por isso que os dados devem ser analisados com seriedade, sem esconder dificuldades nem apagar conquistas.
Uma coisa, porém, precisa ficar clara: estar desempregado não é sinônimo de preguiça. Viver na pobreza não significa falta de capacidade. Enfrentar desigualdades históricas não transforma ninguém em cidadão inferior.
É justamente isso que diferencia uma análise séria de um preconceito: os números permitem enxergar a realidade com suas conquistas e dificuldades. O preconceituoso escolhe uma caricatura e tenta obrigar o mundo inteiro a caber dentro dela.
Há ainda uma questão que merece atenção: o Nordeste não é apenas uma região que precisa de oportunidades. É também uma região que produz oportunidades, movimenta o consumo e participa ativamente da economia nacional. De acordo com as Contas Regionais do IBGE, o Nordeste respondeu por aproximadamente 13,8% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2023. O Centro-Oeste, por sua vez, respondeu por cerca de 10,6% naquele mesmo ano.
São economias diferentes, com características próprias, e esses percentuais não devem ser confundidos com uma disputa entre povos. O Centro-Oeste tem sua força no agronegócio, nos serviços, na administração pública e em outras atividades econômicas. Goiânia tem sua importância, sua história e suas contribuições para o Brasil. Reconhecer isso não exige diminuir Pernambuco, o Ceará, a Bahia ou qualquer outro estado nordestino.
O desenvolvimento de uma região não precisa acontecer às custas da humilhação de outra.
O que vi e ouvi em Goiânia não me autoriza a condenar os goianos. Conheci pessoas boas e não seria justo colocar uma população inteira no mesmo saco por causa de declarações preconceituosas de alguns. Seria repetir, do outro lado, o mesmo erro que me feriu. O problema não é Goiás. O problema é o preconceito, esteja ele onde estiver.
E não se trata apenas de uma impressão individual. Estudos sobre o discurso de ódio nas redes sociais identificaram o crescimento de manifestações hostis contra nordestinos durante períodos eleitorais, especialmente nas disputas presidenciais. A associação entre origem regional e escolha política transforma milhões de pessoas em alvo de ataques que não deveriam ter espaço em uma sociedade democrática.
O preconceito regional não nasce nas urnas, mas muitas vezes encontra nas eleições o combustível para se manifestar. Basta uma diferença de votos entre regiões para que apareçam acusações coletivas, ofensas e tentativas de desqualificar o eleitor nordestino.
É triste perceber que, em pleno século XXI, ainda exista gente que acredita que o CEP de nascimento define o caráter de alguém. Como se honestidade, inteligência, disposição para o trabalho e capacidade de vencer fossem propriedades exclusivas de determinada região do Brasil.
O nordestino que sai de sua terra para estudar, trabalhar ou empreender não carrega consigo apenas uma mala. Carrega a história de uma região marcada por dificuldades, resistência, criatividade e capacidade de recomeçar. Carrega a força de pais e mães que fizeram sacrifícios para garantir aos filhos oportunidades que eles próprios não tiveram. Carrega a memória de trabalhadores rurais, professores, comerciantes, profissionais liberais, artistas, cientistas e tantos outros brasileiros que ajudaram a construir este país.
Eu conheço essa realidade. Sou nordestino, pernambucano, tenho orgulho do meu sotaque e não preciso disfarçar minha origem para ser respeitado. Não preciso falar como alguém de outro lugar, nem diminuir minhas raízes para caber na visão limitada de quem acredita que o Brasil termina na fronteira de sua própria experiência.
Passadas as eleições, o resultado das urnas deveria servir também como um convite à reflexão. Lula foi reeleito, mas o país continua sendo formado por brasileiros que fizeram escolhas diferentes. A vitória de um candidato não apaga a existência de quem votou no adversário, assim como a derrota de outro não autoriza ataques a quem o apoiou.
A eleição terminou. A obrigação de respeitar o próximo continua.
Confesso: houve momentos em que tive vontade de voltar àqueles lugares, abrir os dados, apresentar as estatísticas e esfregar os números na cara de quem falou tanta bobagem. A indignação é humana. Quando alguém ofende sua terra, sua história e seu povo, a vontade de responder aparece quase imediatamente.
E, sim, a vitória de Lula lavou minha alma em um sentido muito pessoal. Não porque um resultado eleitoral resolva todos os problemas do Nordeste, nem porque todos os nordestinos pensem da mesma maneira. Lavou minha alma porque, depois de ouvir aquelas frases, senti ainda mais orgulho de pertencer a uma região que tantas vezes é julgada sem ser conhecida.
Meu conterrâneo nasceu em Garanhuns e chegou novamente à Presidência pelo voto popular. Isso não faz dele um representante de todos os nordestinos, nem significa que a região tenha uma única opinião política. Mas torna impossível apagar a presença do Nordeste no centro da história brasileira.
Não quero transformar minha indignação em outra guerra entre regiões. Quero fazer o que a profissão me ensinou: informar, apresentar os fatos e exigir respeito. O Brasil não precisa de nordestinos contra goianos, pernambucanos contra paulistas ou qualquer outra disputa alimentada por estereótipos. Precisa de cidadãos capazes de reconhecer que as diferenças regionais não tornam ninguém superior.
O Nordeste não precisa ser apresentado como uma região perfeita. Nenhuma região brasileira é. Precisa ser reconhecido como ele realmente é: diverso, produtivo, cheio de talentos, com dificuldades reais e uma população que merece as mesmas oportunidades e o mesmo respeito concedidos a qualquer cidadão brasileiro.
Voltei de Goiânia com novos conhecimentos, boas lembranças e uma ferida provocada por palavras que não deveriam encontrar espaço em uma sociedade democrática. Mas voltei também com uma certeza ainda maior sobre quem sou e de onde vim.
Meu sotaque não é defeito. Minha origem não é motivo de vergonha. Minha terra não é sinônimo de atraso.
Sou nordestino. Sou pernambucano. Sou de Garanhuns, terra que também viu nascer o presidente Lula. E não aceito que confundam desigualdade com incapacidade, pobreza com preguiça ou divergência política com inferioridade humana.
Se os números ainda não são suficientes para convencer quem escolheu viver dentro do preconceito, talvez seja porque o problema nunca esteve apenas na falta de informação, mas na falta de disposição para enxergar o outro como igual.
O Nordeste segue trabalhando, produzindo, estudando, empreendendo e criando seus filhos. Segue enfrentando suas dificuldades sem pedir autorização a ninguém para ter orgulho de sua história.
E eu sigo fazendo o que aprendi na profissão: mostrando os fatos, contando as histórias e dando voz a quem muitas vezes é julgado antes mesmo de ser ouvido.
Porque o Nordeste não precisa baixar a cabeça para caber no Brasil. O Nordeste é Brasil.
Edney Souto — Blog do Edney
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