Em meio à crise diplomática entre Brasil e Argentina, presidente brasileiro considera receber Axel Kicillof e Sergio Massa na cerimônia de janeiro de 2027. Javier Milei também será convidado, mas sua presença é considerada pouco provável.
A diplomacia brasileira começa a desenhar os movimentos políticos para a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2027. Em meio ao desgaste nas relações com o governo argentino de Javier Milei, Lula avalia fazer um movimento que tem significado político e diplomático: convidar representantes da oposição argentina para participar da cerimônia que marcará o início de seu novo mandato.
Entre os nomes que estão no radar do Itamaraty estão o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, uma das principais lideranças do peronismo e apontado como possível candidato à Presidência da Argentina, e o ex-ministro da Economia Sergio Massa, que disputou o segundo turno presidencial contra Milei em 2023 e acabou derrotado.
A informação foi divulgada pela CNN Brasil e repercutiu em outros veículos de comunicação. A iniciativa ainda está em avaliação e não significa que os convites tenham sido oficialmente enviados.
MILEI TAMBÉM DEVE SER CONVIDADO
Apesar da possibilidade de ampliar a representação da oposição argentina na solenidade, Lula também pretende convidar Javier Milei. A orientação diplomática é preservar a formalidade institucional e estender o convite aos chefes de Estado dos países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas.
Nos bastidores do governo brasileiro, entretanto, a avaliação é de que a possibilidade de Milei comparecer à cerimônia é remota. Os dois presidentes acumulam divergências políticas e ideológicas, além de episódios recentes que contribuíram para o afastamento entre Brasília e Buenos Aires.
O convite ao presidente argentino, portanto, não representa uma reaproximação política automática. É também um gesto de respeito ao protocolo diplomático.
FUGA DE FLÁVIO BOLSONARO AUMENTOU A TENSÃO
O novo capítulo da relação entre os dois países acontece depois da saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, passando pela Argentina, em meio às repercussões de sua derrota eleitoral e de questionamentos sobre o cumprimento de determinações judiciais brasileiras.
O episódio provocou desconforto no governo Lula. O Itamaraty convocou a encarregada de negócios da embaixada argentina no Brasil, María Emilia Cortés, para tratar de informações sobre a possível participação de autoridades argentinas na operação.
O caso ganhou dimensão internacional depois que Flávio agradeceu publicamente a Javier Milei pela assistência recebida, sem detalhar a participação do governo argentino.
A Reuters também noticiou a convocação da representante diplomática argentina e o agravamento do relacionamento entre os dois governos.
RELAÇÃO ENTRE OS PAÍSES JÁ ESTAVA DESGASTADA
A crise não começou com o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro. Desde antes das eleições brasileiras, Milei manifestou apoio político ao grupo bolsonarista e fez declarações públicas contra Lula.
Em agosto, depois de novos ataques do presidente argentino ao governo brasileiro e às instituições nacionais, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado de volta para consultas. Desde então, a representação diplomática brasileira na Argentina passou a funcionar em nível reduzido, com encarregados de negócios.
Em entrevista repercutida pelo UOL, o assessor especial de Lula para assuntos internacionais, Celso Amorim, classificou o relacionamento entre Brasil e Argentina como um dos piores momentos de sua história e criticou o comportamento diplomático do governo Milei.
Apesar do cenário político, o governo brasileiro procura preservar os canais institucionais e os interesses econômicos que unem os dois países.
AXEL KICILLOF E SERGIO MASSA NO RADAR
A possível presença de Axel Kicillof tem um significado especial. Governador da província de Buenos Aires, ele é uma das principais referências da oposição peronista e aparece entre os nomes cotados para representar esse campo político na disputa presidencial argentina de 2027.
Já Sergio Massa carrega a experiência de ter enfrentado Milei diretamente nas urnas em 2023. Ex-ministro da Economia, foi o candidato peronista derrotado naquele segundo turno.
A eventual participação dos dois na posse de Lula poderá ampliar a interlocução do governo brasileiro com diferentes setores da política argentina, sem que isso represente um rompimento com a atual administração daquele país.
A DIPLOMACIA E A POLÍTICA CAMINHAM JUNTAS
O movimento em estudo revela o cuidado do governo brasileiro em separar relações de Estado de afinidades entre governos. Lula pode receber Milei formalmente e, ao mesmo tempo, abrir espaço para lideranças que fazem oposição ao presidente argentino.
A cerimônia de janeiro de 2027 deverá reunir autoridades estrangeiras e lideranças internacionais em Brasília, num momento em que o novo mandato brasileiro começa cercado por desafios diplomáticos importantes.
No tabuleiro sul-americano, o convite aos adversários de Milei poderá representar mais um capítulo da disputa política entre diferentes projetos para a região. Mas a decisão de convidar também o presidente argentino demonstra que, mesmo diante das divergências, o protocolo institucional continua fazendo parte do jogo diplomático.
Na política internacional, os convites também falam. E, desta vez, Brasília poderá colocar adversários de Milei na mesma lista de convidados do próprio presidente argentino.
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