O início da temporada de cruzeiros ainda está longe. É apenas em outubro. Mas o recrutamento dos tripulantes já começou. Passar alguns meses a bordo requer, além de vontade e dedicação, alguns preparativos e um investimento em dinheiro. Antes é preciso fazer um Curso Básico de Segurança Naval (CBSN), tirar passaporte e realizar exames médicos. Na maioria dos casos, também é pedido experiência na área em que se pretende atuar e inglês básico ou intermediário (a depender do cargo). As funções são variadas: garçom, limpeza, cozinheiro, camareira, mensageiro de hotel, bartender, estoquista, recepcionista, vendedor, entre outros. Os salários costumam variar de U$ 600 a U$ 1,5 mil por mês. Com as gorjetas, alguns funcionários chegam a faturar U$ 3,5 mil mensais. As temporadas duram, em média, de 6 a 8 meses.
A única empresa no Recife que promove o CBSN é a Ship Jobs. O investimento é de R$ 710 à vista. São quatro dias de curso, sendo três de aulas teóricas e um de prática, com lições como combate a incêndios e sobrevivência no mar. Os exames de saúde são realizados em clínicas credenciadas. Paga-se cerca de R$ 600, que depois são ressarcidos pelas companhias marítimas. Depois dessa etapa, os candidatos ainda passam por uma aprovação final que fica a cargo das empresas marítimas.







Danielle Vasconcelos e Vladimir Guimarães são dois dos responsáveis por organizar os cursos de formação na Ship Jobs. Eles alertam para o trabalho de domingo a domingo, com uma carga que pode chegar a mais de 10 horas diárias. No entanto, também chamam atenção para a oportunidade de viajar o mundo inteiro, conhecer pessoas e lugares diferentes sem gastar praticamente nada, pois tudo dentro do navio é pago.
Confira o depoimento de Danielle, que passou cinco anos a bordo e hoje faz parte do RH da Ship Jobs:
"Nos meus primeiros dias embarcada, pensei que não iria ageentar. No meio de pessoas com idiomas diferentes, enfiada em corredores que no entra e sai davam no mesmo lugar, dividindo cabine com uma pessoa que jamais tinha visto antes, horas de trabalho, noites mal dormidas e uma comida com tempero diferente de casa. Isso tudo me parecia bem confuso, mas a vontade de conhecer novas culturas, idiomas e crescer profissionalmente foi maior e acabei me acostumando. Mais do que isso, comecei a adorar. Entrei no clima mesmo e, com 6 meses,fui promovida e as coisas só começaram a melhorar. Passei 5 anos a bordo de navios de cruzeiros e conheci muitos países. Dentre eles, França, Itália, Espanha, Grécia e até mesmo o Brasil, onde viajei de Norte a Sul. Conheci pessoas do mundo todo que hoje ainda são meus amigos e que, por muito tempo, os tive como referencial de família a bordo. Passei por situações engraçadas, saudade de casa, da família, dos amigos até incêndio a bordo e navio a deriva. O que esperar de melhor quando trabalhamos e moramos em um hotel itinerante? Simplesmente conhecer pessoas novas a cada 7 dias, estar em cidades e países diferentes a cada temporada, fazer sempre novas amizades e acumular experiência profissional e de vida. Posso dizer que trabalhar em navio é melhor que fazer intercâmbio, afinal você trabalha, conhece vários lugares, não tem nenhum custo a bordo e ainda recebe bem por isso. Com essa experiência, hoje sou responsável pelo recrutamento e seleção de uma agência de tripulantes de navios de cruzeiros. A paixão pelo trabalho não conseguiu me afastar definitivamente dos navios. Tenho amigos que juntaram dinheiro e hoje também já têm sua empresa em terra".