Com 22 mil habitantes, a pequena cidade de Sombrio, no extremo
Sul de Santa Catarina, se prepara para ter o primeiro casamento gay
duplo na mesma família. A cerimônia vai celebrar a união matrimonial de
pai e filha, com seus respectivos pares, no próximo dia 19 de abril.
Os
dois casais já investiram R$ 50 mil na festa para 250 convidados, que
será “absolutamente tradicional, sem extravagâncias ou com temática
homossexual”. Nas imagens a seguir, conheça a reação da família, as
histórias curiosas que os casais enfrentam durante os preparativos e
como pai e filha “saíram do armário” um para o outro
A história de que pai e filha gays vão se casar no mesmo dia
no interior de Santa Catarina atraiu a curiosidade do Brasil. Porém,
poucos sabem o que os casais estão enfrentando para realizar a
cerimônia, que já consumiu R$ 50 mil para ser “tradicional e sem
afetação”
Foto: Arquivo pessoal
O casamento gay vai unir o policial civil Elvio Zico, 45, com namorado
dele, Neliton Júnior, 24, e Laise Homem, 23, conhecida como Gai (filha
de Elvio), com a companheira dela, Akristian Morretti, 24, a Kris. Quer
saber o que eles escolheram para festa?
Lindas, Gai (à esquerda) e Kris se conhecem há três anos em
Balneário Gaivota, no sul de Santa Catarina, na praia onde o pai de Gai,
que também vai se casar, tem uma casa de veraneio. Atualmente, ambas
moram em Caxias do Sul (RS), onde atuam como DJs e também tocam uma
empresa de promoção de eventos. O casamento vai rolar em Sombrio, cidade
próxima, por escolha do pai, Elvio
Elvio (à direita), o pai de Gai, que é policial, vereador e comerciante,
conheceu o namorado, Neliton (foto), em uma rodoviária. O futuro marido
era amigo da filha homossexual. E o interesse foi imediato. Atualmente,
Neliton trabalha na loja de roupas do namorado, Elvio
Apesar de sensacional, o casamento gay duplo não foi planejado. Em
entrevista ao R7, Gaia conta que fazer a cerimônia no mesmo dia e local
que o pai surgiu de “última hora”:
— Meu pai me disse que ia se casar no dia 19 de abril. Eu já era casada
com a Kris no cartório, mas não havíamos feito cerimônia. Daí decidimos
fazer o casamento na mesma data e local. Foi uma grande ideia!
À reportagem, Gaia, lésbica, parecia animada com a ideia de se casar de vestido de noiva:
—
Nunca imaginei que iria me casar com toda pompa e vestido de noiva.
Nunca! Não pensei que fosse acontecer um dia, casar de branco, até
porque é um casamento diferente, mas um casamento. Vai ser muito legal!
A mulher de Gai, a também DJ e empresária Kris, também disse ao R7 que
nunca pensou em se casar de vestido, mas está animada com a ideia:
—
Provamos o vestido hoje (segunda-feira 14), mas somos noivas normais.
Eu não vi o vestido dela e ela não viu o meu. Escolhi um vestido longo,
armado, lindo!
Os meninos também já escolheram seus trajes para o casório. E
quem imagina que a roupa pode ter algo de diferente ou festivo, vai cair
do cavalo. Elvio contou à reportagem que todos fazem questão de ter um
casamento normal, tradicional:
Foto: Arquivo pessoal
— Somos muito família e fiz questão de ter um casamento para a família,
para os amigos. Algo bonito, romântico, mas sem extravagâncias ou com
coisa de gays
Elvio e Neliton vão entrar na cerimônia com ternos escuros, já
escolhidos. Noivo e noivo não se viram com os trajes, como manda a
tradição:
— Somos homens, vamos entrar como homens. Apresentáveis
para a família, que já conhece o nosso amor (entre Elvio e Neliton) há
quatro anos, quando tudo começou. Não terá nada tipicamente gay
Foto: Arquivo pessoal
Religioso, Elvio (na foto com Gai bebê), em comum acordo com os demais, eliminou qualquer chance de show de drag queen, músicas típicas gays ou qualquer ideia homossexual:
— Não queria show, roupas berrantes, coloridas, nada... Será uma festa normal, não só para nós, gays, mas para todos.
E a família? Como reagiu ao casamento duplo – e gay - de seus pais e
filhos? Elvio foi casado por 22 anos com a mãe de Gai. É pai de três
filhos e tem uma neta. A mãe de Gai apoia o casamento. Elvio detalha as
primeiras reações:
— Não temos problema de preconceito na nossa
família. Todo mundo reagiu bem ao casamento, até porque já sabiam que
éramos homossexuais.
E a cidade? Como recebeu a notícia do casamento duplo gay entre pai e filha? Elvio responde:
—
Sou muito conhecido e respeitado na cidade. Fui vereador, mantenho um
comércio e fui policial civil. Sempre tive uma vida íntegra e fui
respeitado por todos.
Após a notícia ganhar o Brasil, Gai e Kris confirmam que não receberam “pedradas” por ondem passam:
—
Recebemos muitos elogios e mensagens de apoio de todo o Brasil. Eu
cheguei a me preparar para comentários negativos, mas eles foram quase
insignificantes.
Gai conta que as “pedradas” partiram de comentaristas de internet, a maioria anônimos:
—
Recebi mensagens desagradáveis pela internet. Pessoalmente as pessoas
estão apoiando, afinal, é uma história linda de amor. É só amor.
Nesta semana, os preparativos para festa continuam a todo vapor - veja
foto do salão escolhido. Elvio, o pai, é o grande responsável por tudo,
já que mora na cidade onde vai rolar a festa. Quer saber o que eles já
escolheram?
Elvio conta que, nesta semana, os casais provaram e “bateram o martelo”
nas roupas. Na última terça-feira (14), aprovaram as artes dos convites,
que vão para 250 convidados. O pai detalha ainda sobre as confusões com
lojistas na hora de escolher os trajes:
— Chegamos para escolher
o terno meu e o do Neliton. As vendedoras ficaram meio sem reação
quando revelamos que nós éramos o casal.
A estranheza também ocorreu quando Elvio foi comprar o vestido das daminhas de honra:
—
A vendedora perguntou quem ia casar e eu disse eu e ele, apontando para
o meu namorado. Você precisava ver a cara dela. Segundo depois,
estávamos todo rindo.
Gai também revela um episódio curioso durante os preparativos da festa:
—
Eu e a Kris fomos escolher os bonequinhos de noivos que ficam em cima
do bolo. E a lojista trouxe um casal com um homem e uma mulher. Quando a
avisamos que o casamento era gay, ela imediatamente buscou duas
meninas. Foi engraçado o choque.
O policial civil ainda decide qual será o cardápio do festão, mas adianta que será focado em churrasco:
—
Vamos investir em churrasco porque somos do Sul, né?! Estou escolhendo
tudo da melhor qualidade, bebidas, decoração, tudo ok. Já investimos em
torno de R$ 50 mil nessa cerimônia.
A decoração será floral, mas ainda pode mudar. As flores devem tomar
todo o grande salão, já reservado para festa, onde Kris e Gai, as
noivas, também vão tocar como Djs. Mas como pai e filha saíram do
armário um para o outro? Gai conta que tinha medo do pai, que foi líder
religioso e pregava contra a homossexualidade. Tempos depois, conversou
com ele:
— Meu pai e minha mãe já tinham se separado. Eles vieram me visitar e
ele conversou comigo: “Não precisa esconder de ninguém”, me disse. E
completou dizendo que me amava acima de qualquer coisa.
E como - e quando - o pai saiu do armário para a família?
— Minha
mãe ficou sabendo mais via murmurinhos pela cidade, eles já estavam
separados. Ela perguntou meu pai. E eles conversaram. Depois também
conversei com ele. E ficou tudo bem!
Despreocupados com o olhar alheio, ambos os casais parecem ansiosos para
o grande dia. Será a celebração de uma vida iniciada na dúvida, mas
recuperada pela certeza.
A festa vai muito além de uma cerimônia
social. É a oficialização de quem se interessa por uma relação de amor,
compromisso e cumplicidade, independentemente do sexo.
Com 22 mil habitantes, a pequena cidade de Sombrio, no extremo Sul de
Santa Catarina, se prepara para ter o primeiro casamento gay duplo na
mesma família. A cerimônia vai celebrar a união matrimonial de pai e
filha, com seus respectivos pares, no próximo dia 19 de abril.
Os
dois casais já investiram R$ 50 mil na festa para 250 convidados, que
será “absolutamente tradicional, sem extravagâncias ou com temática
homossexual”. Nas imagens a seguir, conheça a reação da família, as
histórias curiosas que os casais enfrentam durante os preparativos e
como pai e filha “saíram do armário” um para o outro
Reportagem e entrevistas: Gleyson Pereira, do R7
Foto: Montagem R7