Bellini, capitão da seleção na conquista da Copa de 1958, em pose ao lado da estátua no Maracanã que eternizou seu gesto
SÃO PAULO - Quando, a pedido de alguns fotógrafos brasileiros, Hideraldo Bellini levantou a Jules Rimet acima da cabeça, em direção ao céu, logo após o Brasil conquistar seu primeiro título mundial, em 1958, na Suécia, o capitão da seleção brasileira não sabia que seu gesto seria repetido desde então por todos os capitães campeões do mundo. Tornou-se uma marca registrada dos vencedores. E não só do futebol. Em qualquer esporte, o capitão campeão ergue o troféu para os céus, mesmo aqueles que nunca ouviram falar do brasileiro.
O gesto de Bellini seria eternizado dois anos depois no Rio de Janeiro, mais precisamente na entrada principal do Maracanã. É lá que fica a estátua com ex-jogador de Vasco, São Paulo, Atlético-PR e seleção brasileira repetindo o gesto que fez em Estocolmo. Hoje, a "Estátua do Bellini" é o principal ponto de encontro dos torcedores cariocas. Poucos sabem que a estátua é uma homenagem ao jogador brasileiro, simbolizado pelo capitão de 58 no seu momento mais sublime.
Jogador de poucos recursos técnicos, Bellini ganhou a faixa de capitão das mãos de do técnico Vicente Feola por sua seriedade e determinação dentro de campo. O zagueiro tinha 28 anos e há seis era titular absoluto do Vasco, onde chegara em 1952. Ninguém contestou o treinador quando ele escolheu o homem que o representaria em campo.
Com a conquista do título mundial, os campeões viraram celebridades da noite para o dia. Passaram a ser paparicados onde quer que fossem. Os mais bonitos foram convidados a fazer propaganda dos mais diversos produtos. Logicamente, Belinni foi o mais assediado. O capitão estrelou até fotonovela e, diz a lenda, chegou a ser convidado para para filmar em Hollywood.
Quatro anos depois, Bellini sagrou-se bicampeão mundial no Chile, desta vez na reserva de Mauro, que fora seu reserva na Suécia. Os dois se tornaram mutio próximos e mantiveram por quase 40 anos uma sólida amizade, que só terminou com a morte de Mauro em 2002. Em 1966 já com 36 anos, disputou a Copa da Inglaterra e sucumbiu com a seleção brasileira, que não passou da primeira fase da competição.
Com 1,82m, 80 quilos, olhos azuis, Bellini era considerado um verdadeiro galã. Solteiro quando foi campeão mundial, tornou-se o sonho das meninas brasileiras no fim da década de 50. Só se casou em 1963 com Giselda, mãe de seus dois filhos, Carla e Júnior. Um ano antes tinha retornado a São Paulo — era paulista de Itapira — para defender o tricolor do Morumbi, onde ficou até 1967. De lá seguiu para o Atlético-PR, seu último clube. Em Curitiba reencontrou seu velho amigo Djalma Santos, que também estava prestes a pendurar as chuteiras. Duas temporadas depois, aos 39 anos, encerrou sua carreira, no dia 20 de julho de 1969, mesmo dia em que o homem pisou pela primeira vez na lua.
Há dez anos Bellini lutava contra o Mal de Alzheimer. Ele foi internado várias vezes neste período. Na última ficou 60 dias no hospital. Apesar do estado crítico, foi liberado para voltar para sua casa. Mas seu estado se agravou e Bellini acabou retornando ao Hospital 9 de julho. O capitão de 58, que há três anos já não falava, morreu nesta quinta-feira aos 83 anos. Ele será enterrado nesta sexta em sua cidade natal.
— Ele era excepcional na liderança. Um cara grande e sério. Todo mundo gostava dele — lamentou Zito, seu companheiro em 1958 3e 1962