domingo, 26 de abril de 2020

Brasil supera a marca de 60 mil infectados por coronavírus e soma 4.205 mortes


Nas últimas 24h, foram 3.379 novos casos e 189 novos óbitos

FREEPIK/BANCO DE IMAGENS
Ministério da Saúde divulgou balanço de casos da covid-19 - FOTO: FREEPIK/BANCO DE IMAGENS

O Brasil teve mais 3.379 casos confirmados e 189 óbitos pelo novo coronavírus nas últimas 24 horas, de acordo com boletim divulgado neste domingo (26) pelo Ministério da Saúde.

Pernambuco sozinho contabiliza 4.507 casos e 381 óbitos, segundo números mais recentes da Secretaria Estadual de Saúde (SES).

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmou mais 391 casos e 34 óbitos neste domingo. O Estado é o quarto com maior ocorrência da covid-19, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.

"Verdade acima de tudo. Fazer a coisa certa acima de todos", diz Moro, em referência a Bolsonaro


Moro publicou no Twitter que estão fazendo uma campanha "de fake news" para desqualificá-lo

VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL
Em janeiro de 2019, Bolsonaro empossa Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato e responsável pela prisão do ex-presidente Lula, como o ministro da Justiça do Brasil. Foto: VALTER CAMPANATO/AGÊNCIA BRASIL

Depois de ter pedido demissão na última sexta-feira (24), o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, divulgou no Twitter que está sendo alvo de fake news.

No entanto, ele afirmou não se preocupar "já que passei por isso durante e depois da Lava Jato". Na publicação, ele ainda ironizou o slogan do governo Bolsonaro que diz "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos", deixando a entender que a campanha de fake news feita teria alguma relação com o clã Bolsonaro. 


Chegam a PE parte dos respiradores apreendidos por determinação judicial


13 dos 35 aparelhos comprados da Intermed chegaram a Pernambuco, após decisão judicial. (Foto: Heudes Régis/SEI.)
13 dos 35 aparelhos comprados da Intermed chegaram a Pernambuco, após decisão judicial. (Foto: Heudes Régis/SEI.)
Começaram a chegar neste domingo (26) 13 dos 35 respiradores comprados pelo governo de Pernambuco à Intermed Equipamento Médico Hospitalar Ltda, de São Paulo. O material deveria ter chegado ao estado em 20 de março, mas a empresa alegava que não podia repassar por conta de uma requisição do governo federal, que negou a informação. Como a Intermed seguia se recusando a entregar, a Procuradoria Geral do Estado (PGE-PE) entrou com uma ação para garantir os equipamentos.

O 13 respiradores que chegaram neste domingo serão distribuídos para a rede estadual de saúde nesta segunda-feira (27). A expectativa do governo de Pernambuco é de que o restante dos aparelhos - 22 - cheguem até a terça (28). O conteúdo foi apreendido pela Comarca de Cotia, cidade do interior paulista, no dia 24, atendendo a uma decisão do juiz Teodomiro Noronha Cardoso, da 3ª Vara da Fazenda Pública do Recife

Em pronunciamento, o governador Paulo Câmara (PSB) afirma que os aparelhos se integram ao esforço do governo em abrir novos leitos no sistema de saúde por causa da pandemia do novo coronavírus. Neste domingo, o estado contabiliza 712 novos leitos, sendo 333 de UTI e 379 comuns (enfermaria). 

“É uma luta diária. Abrir novos leitos envolve além do espaço físico nos hospitais, os recursos humanos, os insumos e muitos outros detalhes importantes para atender os pacientes de maneira adequada. Por isso, precisamos segurar a disseminação do vírus. Quanto menos contato com as pessoas você tiver, menor é a chance de pegar a Covid-19. Faça o isolamento social, fique em casa por você, pela sua família, pelo próximo e por todos nós”, ressalta o governador.

Moro e Bolsonaro continuaram troca de farpas pelas redes sociais neste sábado


 (Foto: Marcos Corrêa/PR)
Foto: Marcos Corrêa/PR
O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro continuaram a trocar farpas neste sábado (25/4), um dia após o pedido de demissão de Moro, por meio das redes sociais.
O primeiro a se manifestar foi Bolsonaro, com um tuíte que parece ter a intenção de passar a imagem de Moro como um traidor ou que, ao menos, agiu de maneira ingrata. Na mensagem, o presidente postou uma foto em que aparece caminhando ao lado de Moro, com a mão no ombro do então ministro.

A imagem é acompanhada do seguinte texto: "A VazaJato começou em junho de 2019. Foram vazamentos sistemáticos de conversas de Sergio Moro com membros do MPF. Buscavam anular processos e acabar com a reputação do ex-juiz. Em julho, PT e PDT pediram prisão dele. Em setembro, cobravam o STF. Bolsonaro no desfile do dia 7 fez isso". 
A Vaza Jato foi uma série de matérias publicadas pelo site The Intercept e, mais tarde, vários outros veículos, sobre trocas de mensagens entre Moro e procuradores que colocaram sob suspeita a imparcialidade de Moro ao julgar os precessos relacionados à Vaza-Jato, que acabaram, entre outras consequências, levando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão e o impedindo de concorrer nas eleições de 2018.

A resposta de Moro
Depois da postagem de Bolsonaro, Moro respondeu, usando a mesma rede social. "Sobre reclamação na rede social do Sr.Presidente quanto à suposta ingratidão: também apoiei o PR quando ele foi injustamente atacado. Mas preservar a PF de interferência política é uma questão institucional, de Estado de Direito, e não de relacionamento pessoal", afirmou Moro.

À mensagem, Moro anexou uma matéria jornalística cujo título é "Moro pede que PGR e PF investiguem depoimento de porteiro". Em seu discurso na sexta-feira, Bolsonaro se queixou de a Polícia Federal sob comando de Moro ter se empenhado mais em descobrir quem mandou matar a vereadora carioca Marielle Franco do que quem mandou matá-lo. Bolsonaro também se queixou de omissão de Moro no episódio em que o depoimento de um porteiro sugeria um encontro de Bolsonaro com um dos presos pelo assassinato da vereadora.

Antes, também neste sábado, Moro compartilhou uma campanha do Ministério da Justiça. "Faça a coisa certa, pelos motivos certos e do jeito certo" foi o lema de campanha de integridade que fizemos logo no início no MJSP", afirmou.

Acusações
Ao anunciar a saída do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública, Moro acusou o presidente de tentar interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. "O presidente me quer fora do cargo", disse Moro, ao deixar claro que a saída foi motivada por decisão de Bolsonaro.

Em um pronunciamento de cerca de 40 minutos, o presidente Jair Bolsonaro rebateu o ex-ministro. Na fala, no entanto, Bolsonaro reconheceu que deseja um contato mais direto com o diretor-geral da instituição e evidenciou ter interesse pessoal em investigações da PF, como o caso da facada que sofreu em 2018. Bolsonaro disse que, se Moro queria independência para fazer nomeações, deveria ter disputado a eleição à Presidência. 

Decisão de Moro estava tomada antes de Bolsonaro comunicar troca na PF


 (Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Com seis minutos de atraso, abatido e cabisbaixo, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro entrou pelo acesso direito do Auditório Tancredo Neves do Palácio da Justiça para encerrar 478 dias de sua participação no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), contados a partir do ato de sua nomeação, em 2 de janeiro de 2019.A cena contrasta com a euforia do dia 1º de novembro de 2018, quando o então juiz da Lava Jato desembarcou no condomínio de Bolsonaro na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, para largar 22 anos de magistratura –cinco deles à frente da maior investigação de corrupção do país– e aceitar emprestar seu nome e sua imagem ao governo recém-eleito.

A declaração de despedida, na última sexta-feira (24), durou 37 minutos e 55 segundos e foi seguida por uma salva de palmas de 44 segundos –mas não foi construída na véspera.

A decisão de sair do governo caso o presidente insistisse em interferir na Polícia Federal já estava tomada por Moro desde o fim de semana.

O ex-ministro da Justiça já havia avisado assessores e subordinados próximos, entre eles o próprio Maurício Valeixo, então diretor-geral da PF, que a interferência no órgão era uma linha intransponível e não aceitaria que o presidente a cruzasse.

No entanto, Moro já esperava que isso fosse acontecer.

Nas últimas semanas, em reação ao apoio do ex-juiz às medidas de isolamento social defendidas pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, Bolsonaro havia voltado a cobrar insistentemente a saída de Valeixo.

A cobrança se tornou assunto monotemático do presidente nas reuniões semanais entre ele e Moro às quintas-feiras no Palácio do Planalto.

O último encontro ocorreu às 9h de quinta (23), no gabinete da Presidência da República. Bolsonaro comunicou que trocaria Valeixo até o final da semana e avisou que definiria o substituto.

Moro tentou indicar o nome do delegado Disney Rosseti, da Diretoria Executiva, cadeira número 2 na hierarquia da corporação. Bolsonaro rejeitou. A conversa durou menos de dez minutos e, ao final, Moro pediu demissão.

No caminho do Planalto para o Palácio da Justiça, onde comunicou aos auxiliares que estava fora do governo, o ministro avisou a esposa, a advogada Rosângela Moro, da decisão. Ela ficou em Curitiba na semana passada. De longe, tentou monitorar, dar forças e consolar o marido nas últimas horas no cargo.

Em texto publicado nas redes sociais da advogada –enviado pessoalmente ao ex-ministro por WhatsApp–, Rosângela recorreu ao poema "Ausências", de Vinícius de Moraes, para confortar Moro.

Os versos falam sobre o fim de um relacionamento. "Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces. Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto", começa o poema.

Em outro trecho, Moraes diz: "Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados. Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada".

O poema foi apagado das redes sociais de Rosângela logo após Moro fazer o pronunciamento em que anunciou os motivos da demissão. E foi justamente ao falar da família que o ministro embargou a voz uma única vez na saída do governo.

A última semana de Moro à frente do Ministério da Justiça foi marcada pelo autoisolamento.

O ex-ministro veio sozinho para Brasília. Nos últimos dias, andou mais calado e fechado do que de costume desde que entrou no governo.

Para alguns aliados, o comportamento dele nesses dias lembrou o do ex-juiz da Operação Lava Jato.

Um dos assessores que era da equipe da PF na época afirmou à reportagem que Moro estava tão tenso quanto no dia da condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em março de 2016.

Na terça-feira (21), já em Brasília, Moro foi informado de que Bolsonaro iria colocá-lo contra a parede sobre a mudança na PF. Ele voltou a avisar a equipe que, ocorrendo isso, estaria fora.

Nos dias seguintes, o ministro recorreu a aliados, amigos e assessores para avaliar os prós e contras de um pedido de demissão e os impactos a sua imagem. Moro tinha a preocupação de não passar a mensagem errada e a impressão de que estava abandonando o barco em meio à pandemia do novo coronavírus.

O ex-ministro queria ainda passar um recado sobre o seu futuro, deixando em aberto que poderia voltar a trabalhar pelo Brasil. Moro é, a todo momento, lembrado como um possível presidenciável em 2022, apesar de sempre negar a intenção de ser candidato.

Antes mesmo de formalizar a saída, na quinta-feira, o ex-ministro foi sondado por governadores e também pela iniciativa privada. Moro disse a interlocutores que, por ora, só queria voltar para casa em Curitiba e descansar ouvindo Fagner, seu cantor favorito.

Na véspera da demissão, o ex-ministro orientou assessores próximos que copiassem arquivos pessoais em seus computadores e em seus celulares funcionais. E deixou o prédio por volta das 19h após receber ministros militares do governo que tentaram dissuadi-lo da decisão.

Moro passou a noite de quinta-feira sozinho em casa acompanhando o noticiário e trocando impressões com assessores por telefone.

Ele também recebeu uma ligação de Maurício Valeixo confirmando que a sua exoneração sairia no dia seguinte.

A decisão de Bolsonaro pôs fim a uma relação marcada por altos e baixos.

O primeiro encontro entre os dois ocorreu em 2017 e, na verdade, foi um desencontro. Em março daquele ano, o então juiz ignorou Bolsonaro no aeroporto de Brasília.

O presidente, então deputado federal, bateu continência e tentou cumprimentá-lo. Moro acenou com a cabeça, falou "tudo bem" e virou as costas.

Em 2018, após a ida do juiz ao Rio de Janeiro, Bolsonaro por mais de uma vez declarou que o futuro ministro teria "total liberdade" para escolher o primeiro, o segundo e o terceiro escalões da pasta.

A promessa durou pouco. Em agosto de 2019, sem o conhecimento da cúpula da PF, Bolsonaro anunciou a troca do superintendente do órgão no Rio de Janeiro e houve reação na cúpula da corporação. Diante da resposta negativa, o presidente recuou, mas começou a pedir a cabeça de Valeixo.

O último capítulo da aliança aconteceu na sexta-feira.

Após ser chamado de mentiroso por Bolsonaro, Moro divulgou troca de mensagens entre os dois na qual mostra a tentativa do presidente de interferir na PF. (Renato Onofre)

Maciel Júnior segue estável e em tratamento contra o coronavírus


Comentarista esportivo da Rádio Jornal está internado no Recife com a covid-19 desde quinta-feira (23)

Maciel Júnior segue estável e em tratamento contra o coronavírus

Maciel Jr - Foto: Heudes Regis/JC Imagens

Em tratamento após ter resultado positivo para a covid-19, o comentarista esportivo da Rádio e TV Jornal Maciel Júnior segue internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Esperança, no Recife. Na madrugada deste domingo (26), ele teve uma piora no quadro respiratório e precisou passar por intubação orotraqueal para proteção pulmonar. 

No momento, Maciel está sedado e respirando com ajuda de aparelhos.

De acordo com informações passadas pelo filho dele, Kelvin Maciel, apesar da intubação, o pai permanece estável clinicamente e não apresenta quaisquer outras complicações.

Confira o boletim deste domingo (26):

Na madrugada de hoje (26), Maciel Júnior apresentou piora do padrão respiratório, com queda da saturação de oxigênio e alteração da gasometria arterial. Foi necessário realização intubação orotraqueal para proteção pulmonar. Nesse momento Maciel continua na UTI, sedado e respirando com ajuda de aparelhos. Apesar da intercorrência apresentada, permanece estável clinicamente e não apresenta quaisquer outras complicações.

Confira o comunicado do SJCC

Por meio de nota, o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC) informa que Maciel Júnior estava de férias da Rádio Jornal desde o dia 1º de abril e presta solidariedade ao comentarista. Confira:

Nesta quinta-feira, dia 23, a Rádio Jornal tomou conhecimento de que o comentarista Maciel Júnior está internado com sintomas da Covid-19. De acordo com a família, Maciel Júnior está internado desde segunda-feira, dia 20/04. Hoje, deu entrada na UTI. Ainda segundo os familiares, ele está consciente e em observação. Desde o dia 01 de abril Maciel Júnior está de férias da Rádio Jornal. Ele fez o teste para o novo coronavírus, mas o resultado ainda não saiu. Nós, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação, estamos solidários a Maciel e seus familiares e torcemos pela sua pronta recuperação.

Quatro famílias relatam a dor de perder parentes para a covid-19


É preciso pedir licença à dor para contar as histórias, mostrar os rostos. Remexer nas lembranças carregadas de afetos. O mais difícil é não poder dizer adeus.

LEO MOTTA/JC IMAGEM
André Tomé (Irmão da auxiliar de enfermagem vítima de covid19 que trabalhava no HGV e na Barros Lima) - Como ficam as famílias depois de perder alguém para o coronavírus. - FOTO: LEO MOTTA/JC IMAGEM

Os números são assustadores. Na contagem divulgada até este sábado (25), 381 mortos. Trezentas e oitenta e uma vidas interrompidas por um inimigo invisível. Não, não são só números. São pessoas. Com filhos, netos, sobrinhos, vizinhos, contas para pagar, um jardim para regar, aquele sonho prometido para daqui a pouco. Ana Cristina tinha três empregos para dar conta de criar sozinha a filha. Djalma era fanático pelo Sport e adorava tocar tambor na roda de samba. José Carlos cuidava da mulher portadora de Alzheimer com tanto amor que ganhou até homenagem. Lenira escreveu o primeiro livro aos 100 anos. É preciso pedir licença à dor para contar as histórias, mostrar os rostos. Remexer nas lembranças carregadas de afetos. Nem todos conseguem. Não nesse momento. O mais difícil é não poder dizer adeus. Ver pela última vez, dar um beijo, se despedir. Na voz de quem sempre esteve perto, o susto de tudo ser tão rápido.

A saudade tem tantos rostos. E silenciou lares tão diversos, de endereços nobres a casas muito humildes, sem água nem esgoto. É certo que os mais velhos são os mais vulneráveis. Mais de 70% das vitimas da covid-19 em Pernambuco tinham idade a partir dos 60 anos. Mas há perdas também na juventude. O marido de Mysleid, o motorista de aplicativo Djalma Ramos, tinha só 38 anos. Homem alto, forte, saudável, trabalhava 12 horas rodando pela cidade. Em um mês, as mortes diárias para o coronavírus cresceram de forma brutal. Foram duas, no dia 25 de março, data do primeiro registro oficial. No balanço da última sexta-feira, o Estado já somava 30 óbitos contabilizados em 24 horas. Para cada uma dessas famílias, a dor extrapola a perda. Ela se potencializa, e isso é algo totalmente novo, na impossibilidade de viver o luto. Pelo menos da forma como sempre fizemos.

Em todos os relatos colhidos nessa reportagem, a pressa na hora do adeus, imposta por questões sanitárias, tem sido a parte mais dura de superar. Não dá tempo de chegarem os primos, os amigos, os netos, o colega de trabalho. Os poucos que podem estar presentes no sepultamento, na maioria das vezes, acompanham de longe. A despedida é de um caixão fechado. A imagem do corpo embalado em um saco plástico, sem flores, sem velas, sem tempo de dizer uma palavra derradeira, fazer uma última oração, torna a despedida incompleta, um peso a mais de se carregar.


“O que é o luto? É o tempo de que o cérebro e o corpo precisam para se estruturar da perda. E este primeiro momento está sendo negado, em função da pandemia, do risco de contaminação. Poder se despedir da pessoa querida é o primeiro passo do processo de habituação que envolve o luto e a superação dele”, explica Luciana Gropo, psicóloga cognitiva e comportamental. Uma alternativa, ela ensina, é cada um criar seu próprio ritual de despedida. “Vivenciar de uma maneira subjetiva essa perda, seja colocando uma foto num lugar de destaque, fazendo uma oração. O importante é tentar encontrar uma forma de deixar o cérebro menos reativo àquele sofrimento.”

Falar também é um caminho. Relembrar as histórias, refazer a trajetória de quem se foi. Quatro famílias concordaram em dividir, mesmo num momento tão difícil, a dor dessa saudade. Até como uma forma de homenagear e tornar mais viva a memória de uma vida inteira.

 

Acervo pessoal
Juliana Fônseca e o pai, José Carlos, que faleceu vitima de covid-19 - Acervo pessoal

 

“É um processo muito violento”

O aniversário de 75 anos do aposentado José Carlos Lins de Queiroz havia sido comemorado no domingo, dia 15 de março, numa pizzaria, com a família. Os sintomas chegaram dois dias depois. Passada uma semana, com a persistência da febre alta, ele foi levado a um hospital particular pela filha, a professora universitária Juliana Fônseca de Queiroz Marcelino, 42. Os exames indicaram uma infiltração no pulmão. Um dos médicos desconfiou de covid-19 e notificou o quadro suspeito à Secretaria Estadual de Saúde, além de solicitar o exame para coronavírus. “Outros médicos que o atenderam chegaram a diagnosticar o caso como gripe. O atendimento cuidadoso desse profissional foi fundamental para já direcionar o tratamento do meu pai”, diz Juliana.

Mesmo com a suspeita, ele foi mandado para casa. Após apresentar uma piora na capacidade de respirar, o aposentado voltou ao hospital já com os dois pulmões comprometidos. O quadro se agravou e, apesar de não ter nenhuma comorbidade ou doença preexistente, José Carlos veio a óbito, quase três semanas após o início dos sintomas.


“É muito violento todo o processo. São muitos medos, muitos fantasmas. Como estive com ele todo o tempo, precisei ficar de quarentena e não pude receber um abraço dos meus filhos. É devastador”, conta a professora. Já na UTI, o aposentado chegou a tomar hidroxicloroquina, medicamento que tem sido alvo de polêmica no tratamento da covid-19. Após o uso da medicação, José Carlos teve duas paradas cardíacas. “Fiquei com a suspeita de que o remédio tenha contribuído para a morte dele. Mas não temos como ter certeza”, relata Juliana.

Uma das recordações mais difíceis do período em que o pai esteve lutando contra a doença foi o momento em que ele recebeu o diagnóstico de que poderia ser um quadro de covid. “Somos evangélicos. Ele era um homem que tinha muita fé, mas ali sentiu o peso da notícia. Ficou abalado. Disse que eu não me preocupasse. Porque ele tinha 75 anos e já havia vivido muito tempo. Foi quando ele falou: ‘Seja feita a vontade de Deus’”, conta, emocionada, Juliana.

José Carlos sempre foi a referência de todos. Forte, saudável, paciente, carregava uma sabedoria que norteava os passos dos filhos. Perdeu o pai ainda adolescente e logo precisou virar arrimo de família. De todas as lembranças que deixou, uma era especial. A de cuidador. Foram 45 anos de casados. E o cuidado com a esposa, portadora de Alzheimer, virou um exemplo para os filhos. “Anotava tudo em planilhas, os remédios, os horários; era ele quem levava mamãe para as consultas médicas. Por onde passava, chamava atenção a dedicação com que cuidava dela”, recorda a filha.

 

Acervo Pessoal
André Tomé, irmão da auxiliar de enfermagem Ana Cristina, que faleceu vítima da covid-19 - Acervo Pessoal

Uma vida dedicada a cuidar dos outros

No dia 27 de março, a auxiliar de enfermagem Ana Cristina Tomé, 52 anos, fez uma fotografia ao lado das companheiras de trabalho no plantão noturno da Policlínica e Maternidade Professor Barros Lima. Ana Cristina é a segunda em pé, da direita para a esquerda, na foto ao lado. Elas posaram para endossar a campanha “Fique em casa”, protagonizada por trabalhadores da saúde que atuam na linha de frente de combate à covid-19. No cartaz, o apelo pelo isolamento social. Foi a última vez que Ana esteve na maternidade.

No dia seguinte, já trabalhando na UPA da Bomba do Hemetério, ela passou mal, com cansaço e falta de ar. Liberada do plantão, foi mandada para casa. Como os sintomas continuaram ainda mais fortes, Ana procurou, quatro dias depois, a UPA de São Lourenço da Mata. Chegou por volta de meio-dia. Foi mandada direto à UTI para ser entubada. Às 15h, estava morta, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. A família teve menos de quatro horas para providenciar o enterro. Por volta das 18h30, o corpo de Ana, envolto em um saco plástico e dentro de um caixão fechado, foi sepultado no Cemitério de Camaragibe, cidade onde morava. Apenas sete pessoas da família estavam presentes.


“Na sexta, ela chorou a morte de Betânia. No sábado, foi a vez dela.” A frase é do gerente de supermercado André Tomé, irmão de Ana Cristina. Betânia Ramos, 55, a quem André se refere, também era auxiliar de enfermagem. Trabalhava com Ana no Hospital Getúlio Vargas. Adoeceu e foi levada ao Hospital dos Servidores, onde veio a falecer. Ana só teve o material colhido para exame após a morte. O resultado, confirmando a contaminação, a família só ficou sabendo pela imprensa. Na segunda-feira (6), na coletiva diária feita pelo governo do Estado, o secretário André Longo anunciava, em meio ao balanço diário, a morte das duas auxiliares de enfermagem. Foram as primeiras vítimas da covid-19 entre profissionais de saúde do Estado.

Não ter recebido nenhuma ligação, nenhuma informação por parte das autoridades de saúde, revoltou a família de Ana Cristina. “Nenhuma das três secretarias de Saúde deu importância ao caso dela. Nem a de São Lourenço, onde ele foi atendida; nem a de Camaragibe, para onde mandaram o resultado do teste; nem a do Recife, onde ela trabalhava. Ficamos muito tristes. Não recebemos nenhuma assistência”, afirma André. Ana Cristina tinha uma filha, de 24 anos. A jovem também teve confirmação positiva para covid. Felizmente, os sintomas foram leves e ela está se recuperando. Como as duas moravam juntas, ela agora está sozinha, em casa. Em isolamento social. “Tem sido muito difícil para ela. Porque, além de superar a perda da mãe, não pode receber visitas.”

De todas as dores que carrega, André fala especialmente de uma. “Não pudemos fazer uma homenagem a ela, por toda a dedicação que ela sempre teve no trabalho. Antes de adoecer, ela mandava áudios para a família, orientando sobre a prevenção, dando dicas de como se proteger. Foram 28 anos de carreira na saúde”, destaca o irmão. A homenagem veio das colegas de trabalho. As auxiliares de enfermagem gravaram um vídeo, postado nas redes sociais: “Nós, amigos da Barros Lima, estamos de luto por nossa amada amiga. Ela deixou seu legado, lutando pela vida de tantos. Você nunca será esquecida. Saudades”.

BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Mysled Gonçalves perdeu o marido para a Covid-19. Ele era motorista de aplicativo. - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

 

“Acreditem. Essa doença é terrível”

A voz já estava ofegante. “Tô indo para a UTI. A doutora veio agora falar comigo. Disse que vai me transferir porque lá tem mais gente para cuidar de mim. Ela falou para eu não ter medo. Não comenta com mainha que eu vou para a UTI, não, visse? A médica explicou que o oxigênio do meu sangue está baixando. Mas não fica preocupada, não. Tá tudo certo.”

Foram dois áudios gravados e enviados na noite da sexta-feira, dia 17 de abril, para a esposa, Mysleid Gonçalves, 41 anos. Naquele mesmo dia, o motorista de aplicativo Djalma Ramos, 38, havia sido internado no Hospital Oswaldo Cruz, com cansaço, dificuldade de respirar, após dias de febre e dores no corpo. Chegou com uma equipe do Samu. A coleta para a testagem do coronavírus foi feita na porta do hospital, quando ele ainda estava na ambulância. Mysleid, o tempo todo ao lado de Djalma. “Internaram logo ele. Foi a última vez que vi meu marido vivo”, conta. No dia seguinte, no sábado, já na UTI, o motorista foi entubado. Dois dias depois, na segunda-feira (20), teve uma parada cardíaca e não resistiu.

Mysleid conversou com o JC na noite da última quarta-feira, no dia seguinte ao enterro do marido. Ainda sem chão, sofria por não ter conseguido sequer despedir-se, nem mesmo depois da morte. “Eu nem pude vê-lo. Esse vírus não mata só a pessoa. Mata a família, os amigos. Ele foi enterrado num saco branco, tive que ficar de longe no sepultamento.” Quando fala do marido, ela lembra a paixão dele pelo Sport Club do Recife e o gosto pelas rodas de samba. “Ele adorava tocar, gostava de música, amava a vida.”

Djalma era motorista de aplicativo há dois anos. Entrou na atividade depois de ficar desempregado. Já tinha conquistado uma lista grande de clientes fixos e isso era um motivo de orgulho para ele e a esposa. “As mães confiavam nele para levar os filhos na escola, no médico. Era uma pessoa muito boa, trabalhadora. Fazia amizade com todos os clientes.” Quando a pandemia começou a somar vítimas, ele ficou extremamente preocupado. Pensou em deixar de rodar, mas dependia das corridas para sustentar a família. “Como a gente ia fazer para comer? Pagar o aluguel? Ele estava tomando todas as precauções, usando álcool em gel no carro. Estava seguro de que nunca ia pegar esse vírus”, conta.

Uma semana antes de ser internado na UTI, Djalma começou a sentir febre alta. Peregrinou por UPAs lotadas. Após horas de espera, era medicado e sempre mandado de volta para casa. Chegou a pagar consulta particular, quando o quadro se agravou muito. “É uma dor sem fim. Acreditem. Essa doença é terrível. Ela destrói a pessoa. Meu marido era forte, saudável, um homem de muita garra. Lutou muito para continuar vivendo.”

ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Ana d’Azevedo e João Paulo são filha e neto de Dona Lenira que tinha 102 anos e morreu vítima da Covid-19. Pandemia do novo coronavírus em Recife, Pernambuco, Brasil. - ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM

102 anos de muito amor e apego à vida

Lenira Sales de Azevedo e Silva sempre gostou de ler. Lia o jornal todos os dias, deitada na rede, sem precisar de óculos, como fazia questão de ressaltar. Gostava também de escrever. Aos 100 anos, publicou seu primeiro e único livro, contando a história de sua família. Já tinha essa idade, quando pegou a estrada para votar na eleição para presidente da República, em 2018. Moradora do Recife, foi aplaudida na sessão eleitoral onde votava, em Bezerros, sua cidade natal, no Agreste do Estado. “Fizeram questão de fazer fotos com ela”, conta, orgulhosa, a filha Ana d’Azevedo, 62. Vovó Lenira ou Tia Lenira, como sempre a chamavam, tinha uma saúde perfeita. “O coração dela era melhor do que o de muito jovem de 20 anos”, emenda a filha. No dia 13 de abril, a vitalidade e a energia de uma vida inteira perderam a batalha para o coronavírus. Dona Lenira havia completado 102 anos, exatamente um mês antes.

A contaminação, a família acredita, ocorreu no hospital. É que cerca de dez dias após o aniversário, ela levou uma queda, enquanto separava o lixo reciclável de casa. Quebrou o fêmur e precisou passar por uma cirurgia. A operação foi um sucesso. Voltou para casa disposta e com boa recuperação. A preocupação surgiu quando ela começou a dar sinais de indisposição, sem vontade de ler o jornal de todo dia. Quando a família decidiu levá-la para o hospital, a recuperação já foi mais lenta, ela terminou sendo transferida de unidade e logo em seguida foi para a UTI. “Os médicos acharam que podia ser o vírus. A partir do momento que coletaram amostra para o exame, não pude mais visitá-la”, conta o neto João Paulo.

Guerreira, dona Lenira resistiu por nove dias. “Ela não melhorava, mas também não piorava. Isso nos enchia de esperança. Porque ela sempre foi muito apegada à vida. Se não fosse o vírus, teria vivido mais uns bons anos”, diz João Paulo. A despedida marcou o neto profundamente. “Foram só quatro familiares no sepultamento. Isso foi o pior. Pelo tanto que ela era querida, foi um enterro muito solitário. Ela era uma mulher de muita religiosidade. Se fosse em outro momento, dezenas de pessoas estariam lá para prestar as homenagens que ela tanto merecia.”

Pernambuco totaliza 4.898 casos confirmados e chega a 415 mortes por coronavírus


Boletim da SES-PE divulgado neste domingo (26) apresentou 391 novos casos de covid e confirmou mais 34 óbitos no Estado

Pernambuco totaliza 4.898 casos confirmados e chega a 415 mortes por coronavírus

Novo coronavírus já foi detectado em mais de 4 mil pessoas em Pernambuco - Foto: Pixabay

Pernambuco confirmou, neste domingo (26), 391 casos novos da Covid-19, sendo 169 casos que se enquadram como Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag), portanto que foram internados e/ou mais graves, além de outros 222 casos leves. As informações são da Secretaria Estadual de Saúde. (SES-PE)

Agora, o Estado totaliza 4.898 casos confirmados (3.485 casos graves e 1.413 casos leves).Também foram confirmados laboratorialmente 34 óbitos. Com isso, o Estado totaliza 415 mortes pela Covid-19.

Boletim completo

Os detalhes epidemiológicos serão repassados ao longo dia pela SES-PE. 

O que é coronavírus?

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China.Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Como prevenir o coronavírus?

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização.
  • Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com freqüência.
  • Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (máscara cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).
  • Para a realização de procedimentos que gerem aerossolização de secreções respiratórias como intubação, aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, deverá ser utilizado precaução por aerossóis, com uso de máscara N95