segunda-feira, 27 de abril de 2020

No Brasil, saúde perde prioridade em gastos do governo

Do orçamento de R$ 226,8 bilhões anunciado em novas despesas, apenas R$ 5,4 bilhões foram direcionados para o Ministério da Saúde os no

BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Pernambuco já apresenta colapso no sistema de saúde público por causa do novo coronavírus - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM

Apesar da urgência, os gastos com saúde ficaram para trás no total de recursos que já foram pagos pelo governo para as ações emergenciais contra o novo coronavírus. Do orçamento de R$ 226,8 bilhões anunciado em novas despesas, R$ 56,5 bilhões já foram efetivamente desembolsados - sendo que, desse total, apenas R$ 5,4 bilhões foram direcionados para o Ministério da Saúde. É menos de 10% do que já foi gasto pelo governo.

O governo tornou disponível R$ 23 bilhões para o Ministério da Saúde e outros ministérios para medidas emergenciais - apenas 2,3% do total previsto. Outros R$ 16 bilhões foram transferidos como auxílio emergencial a Estados e municípios, mas, nesse caso, o ritmo de execução é ainda mais baixo: só R$ 1 bilhão foi pago.

A velocidade do desembolso tem sido maior para a linha de financiamento da folha de pagamento das pequenas e médias empresas. Dos R$ 34 bilhões orçados, a metade já foi efetivamente executada, ou seja, paga pelo governo federal. Os gastos com o auxílio emergencial de R$ 600 para os trabalhadores informais e desempregados também estão sendo gastos com maior rapidez. Dos R$ 98,2 bilhões orçados, um terço já foi pago.

Os dados são do painel de monitoramento de gastos que o Tesouro passou a divulgar na internet. Para o pesquisador do Instituto Brasiliense de Direito Público, José Roberto Afonso, os números indicam que há uma enorme distância entre o que é anunciado de medidas, o orçado, e o efetivamente pago. "O mais chocante é que, quando vamos olhar dentro dos R$ 56 bilhões orçados para saúde, só R$ 5,4 bilhões foram pagos", diz.

Ele pondera que é muito pouco diante da urgência da crise. "É uma confissão da falta de prioridade que está se dando para a saúde, porque a primeira coisa que o mundo todo está fazendo é gastar com saúde."

Afonso afirma que é preciso comprar logo tudo que se pode de respiradores, montar UTIs, contratar reforço de profissionais de saúde numa prioridade máxima. Para ele, a diferença de execução é visível com outras medidas. "Não estou dizendo que as outras iniciativas não são relevantes. São muito relevantes. Mas não dá para entender porque a saúde está ficando para trás."

Além disso, gestores do SUS têm pedido ao Ministério da Saúde critérios mais objetivos para envio de recursos do governo federal. Nas primeiras parcelas liberadas, o ministério escolheu a partilha de acordo com a população, mas secretários locais apontam que é preciso priorizar locais próximos do colapso, como o Amazonas.

Segundo secretários estaduais, o governo tem privilegiado municípios, apesar de ficar nas mãos de governadores o grosso do custo para combate ao novo coronavírus. No Pará, por exemplo, são R$ 84,1 milhões destinados ao Estado e R$ 124,2 milhões aos municípios pelo governo Bolsonaro.

O governo tem ainda atrasado a instalação de leitos de UTI nos Estados, forçando gestores locais a abrirem espaços por conta própria. No começo da crise, o ministério prometeu 3 mil kits para instalação dos leitos. Em 15 de março, o Estado revelou promessa de entrega da primeira leva, de 540 unidades - mas apenas 340 kits foram entregues. O governo tem dito que encontrou dificuldades para compra de equipamentos - mil respiradores, por exemplo, foram bloqueados pelo governo da Argentina.

Sobre as razões da baixa execução, o Ministério da Economia disse a reportagem para procurar o Ministério da Saúde, que não respondeu o pedido da reportagem.

Com mais 460 pacientes e 35 óbitos, Pernambuco confirma 5.358 casos e 450 mortes por Covid-19

Por G1 PE

SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19 — Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons/DivulgaçãoSARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19 — Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons/Divulgação

SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19 — Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons/Divulgação

Pernambuco confirmou, nesta segunda-feira (27), 460 novos casos e 35 óbitos de pacientes com a Covid-19, doença transmitida pelo novo coronavírus. Com isso, o estado passa a ter 5.358 pacientes com a doença e 450 mortes.

Dos 460 casos, 203 se enquadram como Síndrome Respiratória Aguda Grave (Srag) e outros 257 são casos leves. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES), esses pacientes são profissionais de saúde e segurança, além de pacientes ambulatoriais da rede privada.

Com os acréscimos, o estado passa a ter 3.688 casos graves e 1.670 casos leves da Covid-19. Outros detalhes epidemiológicos devem ser repassados ao longo desta segunda (27) pela SES.

Dicas de prevenção contra o coronavírus  — Foto: Arte/G1Dicas de prevenção contra o coronavírus  — Foto: Arte/G1

Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1

Adiamento das eleições municipais de outubro é uma possibilidade real’, diz Barroso, presidente eleito do TSE



O presidente eleito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, admitiu que há uma possibilidade de adiamento das eleições 2020 por causa dos efeitos da pandemia do novo coronavírus.

No entanto, o ministro defendeu que, se efetivado, o adiamento do pleito seja ainda em 2020, evitando prorrogações de mandatos dos atuais prefeitos e vereadores.

“As convenções partidárias são no final de julho até o começo de agosto, e a campanha eleitoral começa em 15 de agosto. Se não puder ter alguma aglomeração em agosto, temos uma dificuldade. Porém, é mais grave um pouco ainda. A Justiça Eleitoral tem que fazer teste das urnas e treinos de mesários e isso teria junho como limite”, disse Barroso, em entrevista à Rádio Gaúcha, na manhã desta segunda-feira (27).

Luís Roberto Barroso foi eleito, em abril, o próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No final de maio, ele substitui a atual presidente, ministra Rosa Weber, e terá como uma das missões comandar a Corte durante a realização das eleições municipais, com data sob incógnita por causa da pandemia da covid-19.

“Até o momento, ninguém fala com precisão quando a curva vai evoluir e quando vai começar a ser descendente. Desejaria não adiar as eleições, mas, se for necessário adiar, é de competência do Congresso porque depende de uma emenda à Constituição. Se for necessário adiar, que ele seja pelo prazo mais breve possível. Desejaria adiar por algumas semanas, ainda este ano, para que não haja adiamento de mandato”, acrescentou Barroso, que também é ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Há uma possibilidade real de que elas precisam ser adiadas e nesse caso gostaria de que se adiasse o prazo minimo possível para se evitar a prorrogação de mandatos”, frisou o magistrado.

O presidente eleito do TSE também disse que tem conversado com profissionais de saúde para ter uma melhor percepção a respeito do quadro do coronavírus no Brasil.

“Infelizmente, a curva no Brasil neste momento ainda é ascendente. Tem havido mais casos e óbitos a cada dia. Tenho conversado com alguns epidemiologistas e eles dizem que o ciclo é de cerca de 3 meses e meio, mas tudo é um pouco imprevisível”, afirmou Barroso à Rádio Gaúcha.

Razões

O ministro justificou que é contrário ao cancelamento das eleições 2020 para a unificação em 2022 porque isso prejudicaria o jogo democrático e também porque, eventualmente, com muitos cargos em disputa daqui a dois anos, o debate e a votação poderiam ficar confusos para os eleitores.

“O que sou completamente contrário é o cancelamento da eleição para se fazer em 2022. Em primeiro lugar, por uma questão democrática, porque esses prefeitos e vereadores atuais foram eleitos para 4 anos. A população tem o direito de, ao final dos 4 anos de mandatos, decidir se quer renovar os mandatos ou alternar o poder. A segunda razão é que, se você fizer tudo coincidir tudo em 2022, o eleitor terá de votar para 7 cargos distintos. É muito nome, fica confuso para o eleitor fazer essas escolhas simultaneamente”, disse Luís Roberto Barroso.

“Com a agravante de que a eleição nacional para presidente tem uma pauta completamente diferente das eleições municipais. Na eleição nacional, você discute a politica do SUS (Sistema Único de Saúde). Na eleição municipal, discute-se transporte urbano e outros problemas locais. Se adiar a eleição deste ano para 2022, ou vai se nacionalizar a eleição municipal ou municipalizar a eleição nacional”, alertou o ministro sobre o debate eleitoral.

Eventuais impactos

Em relação aos impactos de um eventual adiamento para 2022, Barroso citou que a Justiça Eleitoral seria impactada por causa do volume de candidatos. O número de julgamentos de candidaturas aumentaria, na avaliação do presidente eleito do TSE, e isso poderia causar prejuízo também às Cortes Eleitorais.

“Na eleição desse ano, teremos para as eleições municipais cerca de 750 mil candidatos. Agora, imagine somar a esse numero todos os candidatos a presidente, governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeitos e vereadores”, disse Barroso.

“E, desde a Lei da Ficha Limpa, a Justiça Eleitoral tem de julgar impugnações das eleições de preferência antes das eleições. Agora, nesses números estratosféricos você não consegue e aí tem que julgar depois da eleição, anular eleição e fazer outra, redistribuir votos”, afirmou o ministro.

Cabo, Garanhuns e Olinda devem receber novos respiradores resgatados pelo governo


Os equipamentos foram liberados após ação impetrada pela Procuradoria Geral do Estado (Heudes Regis /SEI)
Os equipamentos foram liberados após ação impetrada pela Procuradoria Geral do Estado (Heudes Regis /SEI)
Após Pernambuco receber os 13 primeiros dos 35 aparelhos respiradores apreendidos via Justiça, o Governo do Estado determinou a distribuição para as unidades de saúde de referência no atendimento contra a Covid-19. Receberão as máquinas o Hospital Dom Helder Câmara, no Cabo de Santo Agostinho, e a Maternidade Brites de Albuquerque - reaberta especificamente para atender casos da doença -, em Olinda na Região Metropolitana, além da Unidade Pernambucana de Atendimento Especializado (UPAE), em Garanhuns, no Agreste.

As máquinas serão testadas e revisadas pela equipe técnica da Secretaria de Saúde do Estado, antes de seguirem viagem para as unidades, ainda nesta segunda-feira. A quantidade distribuída para cada unidade, no entanto, ainda deve ser divulgada. Outras 22 unidades dos respiradores ainda devem chegar a Pernambuco nesta terça-feira (28).

Os 35 aparelhos fazem parte do primeiro lote adquirido, dos cem equipamentos previstos em contrato realizado junto à empresa Intermed Equipamento Médico Hospitalar Ltda., de fabricação nacional. O lote em questão tinha como data de entrega o dia 20 de março, no entanto não foi realizado o despacho da carga. Segundo a Secretaria de Saúde, a empresa alegou retenção por determinação federal via Ministério da Saúde, que negou a informação. Os equipamentos foram liberados após ação impetrada pela Procuradoria Geral do Estado, atendida pelo juiz Teodomiro Noronha Cardoso, da 3ª Vara da Fazenda Pública do Recife.

“Essa é uma luta diária. Abrir novos leitos envolve além do espaço físico nos hospitais, os recursos humanos, os insumos e muitos outros detalhes importantes para atender os pacientes”, destacou o governador Paulo Câmara, em pronunciamento oficial realizado no último domingo (26). "Por isso precisamos segurar a disseminação do coronavírus. Quanto menos contato com outras pesoas você tiver, menor é a chance de pegar a Covid-19. Fique em casa", reforçou.

Com os novos equipamentos, Pernambuco agora alcança o total de 712 novos leitos na rede estadual, sendo 333 de Unidades de Terapia Intensiva, além de 379 enfermarias específicas para atender casos da doença. No estado, até o último domingo, foram registrados 4.898 casos e 415 mortes, sendo 391 novas confirmações e 34 óbitos contabilizados nas últimas 24h.

Servidor não pode ficar em casa, com geladeira cheia, enquanto brasileiros perdem emprego, diz Guedes

Por: Folha Press


 (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse nesta segunda-feira (27) que os servidores públicos não podem ficar em casa, com a geladeira cheia, observando a crise econômica provocada pelo novo coronavírus, sem dar sua cota de sacrifício. Ele solicitou aos funcionários públicos que não peçam aumento pelo período de um ano e meio. "Precisamos também que o funcionalismo público mostre que está com o Brasil, que vai fazer um sacrifício pelo Brasil, não vai ficar em casa, trancado com geladeira cheia, assistindo a crise, enquanto milhões de brasileiros estão perdendo emprego", disse Guedes ao lado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), após uma reunião no Palácio da Alvorada. "Não, eles vão colaborar. Vão também ficar sem pedir aumento por algum tempo. Ninguém vai tirar, e o presidente disse 'ninguém tira direito, ninguém tira salário, ninguém encosta em nenhum direito que existe hoje'. Mas, por atenção aos brasileiros, para nos ajudar no combate a esta crise, não peçam aumento por um ano e meio, contribuam com o Brasil", continuou Guedes.
 
O estado de calamidade aprovado em decorrência da pandemia do novo coronavírus levou o governo Bolsonaro a editar uma medida provisória permitindo a redução provisória de até 70% do salário e da jornada de trabalhadores da iniciativa privada, mas, até o momento, não há movimentação na cúpula dos três Poderes e do Ministério Público para replicar a medida no funcionalismo.
 
A aprovação do corte provisório no salário e benefícios de políticos e servidores dos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), nas três esferas (federal, estadual e municipal), criaria um caixa de dezenas de bilhões de reais, mas até o momento, só há ações isoladas nesse sentido.  Guedes já vinha defendendo a manutenção do pagamento integral dos salários dos servidores e o reforço no repasses aos fundos que abastecem municípios e estados como forma de conter uma depressão na economia.
 
Só no plano federal, que reúne os mais altos salários, dados do Siga Brasil mostram que vencimentos e vantagens dos servidores ativos civis (excluídos 13º, férias e Ministério da Saúde) somaram R$ 103 bilhões em 2019. Aplicando-se de forma geral uma redução de 25% do salário e da jornada, por três meses (a possibilidade mais branda reservada à iniciativa privada, que prevê também 50% e 70%), haveria um caixa de R$ 6,4 bilhões.
 
O estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) "Atlas do Estado Brasileiro" aponta que, em dados atualizados para janeiro de 2019, o funcionalismo federal (R$ 184 bilhões), dos estados (R$ 299 bilhões) e dos municípios (R$ 268 bilhões) consumiu R$ 751 bilhões ao ano, incluindo aí a área militar e todos os benefícios e contribuições sociais. Estimando que a folha de pagamento represente cerca de 85% disso, uma redução geral de 25% por três meses daria um caixa de R$ 36,8 bilhões

Gameleira tem seu segundo vereador assassinado esse ano


Um vereador foi assassinado na noite desta sexta-feira (24), na cidade de Gameleira, na Mata Sul de Pernambuco.

João Rogério dos Santos de Lima, de 36 anos, estava conversando com populares na Rua 11 de Agosto, quando chegaram dois homens em uma moto, o garupa sacou uma arma de fogo e efetuou vários disparos em direção a João Rogério.

O vereador não teve tempo de correr, foi alvejado diversas vezes e morreu no local.

Testemunhas não souberam da detalhes a polícia que possam ajudar a identificar e prender os autores do crime, o corpo de João Rogério foi periciado e encaminhado para o IML do Recife.

João Rogério, foi o segundo vereador assassinado este ano em Gameleira, no dia 29 de janeiro, o vereador José Ednaldo Marinho foi assassinado no centro da cidade.

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Cabeleireiro morre em acidente no Centro de Garanhuns


Uma colisão deixou um homem morto na noite deste domingo (26), no cruzamento da Avenida Agamenon Guimarães, com a Rua João Guimarães Rosa, no bairro Heliópolis, em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco.

Enoque Moreira de Melo Filho, de 48 anos, conduzia uma motocicleta, quando atingiu outra moto, perdeu o controle e devido a gravidade dos ferimentos não resistiu.

A Guarda Municipal isolou a área até a chegada do Instituto de Criminalística e Polícia Civil, o local do acidente foi periciado e corpo encaminhado para o Instituto de Medicina Legal (IML) de Caruaru.

O condutor da outra moto foi levado para delegacia, prestou esclarecimentos e foi liberado

domingo, 26 de abril de 2020

Operação que matou miliciano Adriano da Nóbrega teve ao menos três rajadas de tiros, segundo vizinhos

Cena da ação policial não foi preservada, apesar de Corregedoria da PM ter anunciado investigação. Suspeito de ter ajudado miliciano é libertado pela Justiça

Vista da entrada do sítio em Esplanada (Bahia), onde Adriano Nóbrega foi morto.
Vista da entrada do sítio em Esplanada (Bahia), onde Adriano Nóbrega foi morto.MATHEUS BURANELLIBRUNO LUIZ
Esplanada (Bahia) 

Um ar bucólico paira sobre os 37 mil habitantes de Esplanada, a 170 quilômetros de Salvador (Bahia). Na praça do centro do município, margeada por árvores de médio porte, os moradores se reúnem em pequenos grupos para falar sobre o que acontece na cidade. Desde o último domingo não há outro assunto que não o chefe miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, de 43 anos, morto em suposto confronto com forças policiais da Bahia e do Rio, a 8 quilômetros dali. Poucos, no entanto, se mostram dispostos a falar sobre a operação ―ainda cercada de dúvidas— que eliminou o ex-policial próximo à família Bolsonaro. Quando aceitam relatar o que sabem, pedem anonimato ao discorrer sobre a passagem de Nóbrega pela região, incluindo as conexões do miliciano com um político do PSL e um pecuarista.

“Eu fiquei com meus filhos dentro de casa orando pra que nada acontecesse. Foi um terror", conta uma vizinha do povoado de Palmares, zona rural de Esplanada. É lá que fica a propriedade do vereador Gilson Neto (PSL) que serviu como último esconderijo de Adriano da Nóbrega, embora o político negue qualquer ligação com o miliciano e alegue que seu sítio foi invadido.

A vizinha diz ter dificuldade de lembrar detalhes por causa do medo que sentiu na manhã de domingo, quando a ação aconteceu. Conta que está sem conseguir dormir desde então, e que fica apreensiva toda vez que vê um carro se aproximando da propriedade. “Meu filho brincava todo dia lá no quintal, mas agora eu não deixo porque tenho medo de alguém aparecer por lá”, diz.

Foi num imóvel pequeno e arejado de paredes brancas, sede do sítio pertencente ao político do PSL —até bem pouco tempo atrás o partido de Jair Bolsonaro e dos filhos—, que Nóbrega foi abordado pela polícia. Vizinhos relatam que a ação foi rápida, mas que os tiros não foram disparados de uma só vez. Houve, pelo menos, uma sequência de três rajadas.

Outro vizinho do vereador, que também não quis se identificar, ajuda a narrar o cerco. Conta que, na fatídica manhã de domingo, foi surpreendido por dois policiais. Com rostos cobertos por brucutus, os agentes conseguiram chegar a sua propriedade pelos fundos do sítio de Gilson Neto. A dupla de policiais disse que estava atuando em uma ocorrência de roubo a banco e pediu para revistar a casa. Nem precisaram buscar Adriano da Nóbrega ali. Logo em seguida, os tiros começaram na propriedade vizinha. “Eles pediram que a gente entrasse em casa pra se proteger dos tiros. A gente não sabia do que se travava. Só veio saber depois, pela imprensa.”

Segundo a versão oficial da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, Adriano da Nóbrega tinha em mãos uma pistola austríaca 9mm e foi baleado após resistir atirando contra os agentes —cerca de 70 participaram da operação. O fato de estar numa área rural, isolada e cercada, levantou dúvidas sobre a abordagem policial: por que não foi usada uma ação mais cautelosa da polícia para prender o miliciano? O ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) era um alvo importante. É acusado de ser chefe da milícia de Rio das Pedras, uma das mais antigas do Rio, e também de comandar o Escritório do Crime, um sofisticado braço armado para execuções suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson. Somam-se aos questionamentos a afirmação do advogado de Nóbrega dizendo que seu cliente temia ser alvo de “queima de arquivo”.

Tanto a PM da Bahia como a do Rio repetem que a ação foi um sucesso. Apesar de o secretário de Segurança Pública da Bahia, Maurício Barbosa, afirmar que as circunstâncias da morte seriam investigadas pela Corregedoria da PM, a cena da operação policial seguia desprotegida nesta terça-feira, quando o EL PAÍS visitou o local, o que afeta a reconstrução da operação. O Governo da Bahia afirmou também não ter filmado a operação, apesar de ser um caso de repercussão nacional. Um vizinho do sítio disse, no entanto, ter visto um drone sobrevoando sua casa no momento da ação.

No sítio do vereador do PSL, o EL PAÍS identificou apenas duas marcas de tiro na parede, ambas próximas à porta da frente da casa, debaixo de uma janela. Na sala da casa de cinco cômodos, ainda é possível ver grande quantidade de sangue e móveis revirados. No chão, uma linha de sangue, formada da sala até a varanda do imóvel, denota que Adriano foi arrastado pelos policiais. Na cozinha, ficaram pães, aparentemente frescos, e uma garrafa térmica em cima de uma mesa. Na pia, copos e talheres.

Em um dos quartos, num possível sinal de que o miliciano havia se organizado para a fuga, havia ainda nesta terça-feira pelo menos duas malas de roupa, além cápsulas de suplemento vitamínico e inúmeras cartelas de medicamentos. No cômodo estavam ainda duas caixas de celular —segundo a PM, 13 aparelhos do tipo, que estariam sendo usados por Nóbrega, foram apreendidos no local.

Cozinha do sítio onde Adriano Nóbrega foi morto.
Cozinha do sítio onde Adriano Nóbrega foi morto.MATHEUS BURANELLI

Suspeito de ajudar Nóbrega é libertado pela Justiça da Bahia

Os celulares poderiam ser um caminho para fechar os fios soltos a respeito dos últimos dias do miliciano e para esclarecer o tamanho da rede de apoio de Nóbrega, que estava foragido desde janeiro de 2019. Capitão Adriano, como era conhecido, chegou à região no fim do ano passado, recebido pelo empresário e pecuarista Leandro Guimarães. Guimarães, que atua no ramo de vaquejadas, chegou a ser preso no domingo por porte ilegal de armas e prestou depoimento à polícia sobre o miliciano. Segundo o UOL, o Ministério Público baiano pediu que sua prisão em flagrante fosse transformada em preventiva, citando a necessidade de seguir investigando a relação com Nóbrega, mas a Justiça decidiu liberar o empresário após pagamento de fiança.

À polícia, Leandro Guimarães confessou, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, que deu abrigo ao miliciano em sua fazenda, também na região. O pecuarista relatou que, na noite anterior a sua morte, Adriano da Nóbrega recebeu mensagens no celular e ficou visivelmente nervoso. Então, sob ameaça, pediu que o empresário o levasse até o sítio do vereador Gilsinho.

Ainda não está claro como Guimarães conseguiu entrar no sítio do vereador do PSL com Adriano da Nóbrega, já que o vereador alega nunca ter visto o miliciano e nem autorizado a ida dele para lá. Gilsinho sugere a possibilidade de invasão do local, algo que, até o momento, o empresário do ramo das vaquejadas não confirmou. Guimarães é amigo da família do vereador, que tem outros dois irmãos políticos, um deles ex-prefeito de Esplanada e o outro deputado estadual pelo PSB.

Durante o maior tempo em que ficou em Esplanada, porém, o esconderijo de Adriano da Nóbrega era outro, o Parque Gilton Guimarães, uma fazenda pertencente ao pecuarista que abriga um espaço para competições de vaquejada. No local, também visitado pela reportagem na terça, a ordem é não falar sobre os tempos em que o miliciano passou por lá. Foi para lá o ex-capitão do Bope se dirigiu após fugir do cerco policial montado para prendê-lo em Costa do Sauípe, no litoral da Bahia, em janeiro. Adriano da Nóbrega chegou a morar em uma casa alugada em condomínio de luxo com parentes na zona.

Mancha de sangue em casa em Esplanada (Bahia), onde Adriano Nóbrega foi morto.
Mancha de sangue em casa em Esplanada (Bahia), onde Adriano Nóbrega foi morto.MATHEUS BURANELLI

Para chegar à sede do parque, cuja entrada fica às margens da BR-101, é necessário atravessar um longo trecho de uma estrada de terra, margeada por uma extensa área verde com vasta plantação de eucaliptos e cabeças de gado. Após as relações entre Guimarães e o miliciano virem à tona, a entrada que dá acesso à casa e ao local das vaquejadas foi fechada. Só pessoas autorizadas podem adentrar a área. Funcionários temem falar sobre o assunto e reagem com hostilidade ao serem questionados sobre a estadia do miliciano. Um dos vaqueiros que trabalham no local chegou a intimidar a reportagem. Primeiro sugeriu que poderia fechar as saídas da fazenda, o que deixaria a equipe presa no local. Depois afirmou que “quem invade propriedade privada sabe o que leva”.

A uns 400 metros dali, se alguns moradores aceitavam falar sobre o assunto, outros tentavam despistar a imprensa, com hostilidade. Um homem se aproximou enquanto a reportagem conversava com duas mulheres: “A gente aqui não sabe de nada, não. Esse povo aqui é povo meu. Vai procurar informação em outro lugar. Cada um sabe do seu.”