A ex-deputada federal Marília Arraes decidiu encerrar qualquer especulação e comunicou a aliados que será candidata ao Senado nas eleições de 2026, independentemente das composições majoritárias que venham a ser firmadas em Pernambuco. A definição, segundo relatos de interlocutores próximos, já vinha sendo amadurecida há meses, mas ganhou caráter definitivo nesta semana, quando a própria Marília passou a informar correligionários de que não há qualquer possibilidade de disputar novamente uma vaga na Câmara dos Deputados.
Em conversas reservadas, a ex-parlamentar tem sido direta. Afirma que uma eventual recuo para a disputa proporcional não seria compreendido por seu eleitorado, especialmente num momento em que aparece bem posicionada nas pesquisas preliminares para o Senado. “Essa questão de federal já passou. Eu serei candidata ao Senado e não vou decepcionar os eleitores que votam em mim alegando que sou aguerrida e combativa. Eles não iriam entender que, neste momento em que estou bem nas pesquisas, eu viesse a desistir. Aí não seria Marília”, confidenciou a uma liderança política que a procurou nos últimos dias.
A decisão projeta uma movimentação partidária estratégica. Nesta sexta-feira, em São Paulo, Marília terá reunião com o presidente nacional do Solidariedade, Paulinho da Força. O encontro deve tratar diretamente do seu futuro partidário e da viabilidade da candidatura ao Senado pela legenda. Em 2022, ela disputou o Governo de Pernambuco pelo Solidariedade, partido de porte médio, e surpreendeu ao chegar ao segundo turno contra a atual governadora Raquel Lyra, consolidando-se como um dos principais nomes do campo progressista no Estado.
Nos bastidores, contudo, cresce a avaliação de que o destino mais provável pode ser o Partido Democrático Trabalhista. A legenda trabalhista tende a apoiar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto o Solidariedade ainda não oferece garantia clara de alinhamento nacional. Antes de qualquer anúncio, Marília pretende conversar com o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, que já declarou publicamente o desejo de filiá-la ao partido. A definição deve ocorrer dentro do calendário apertado da janela partidária, período decisivo para a reorganização das forças políticas.
Outro ponto já pacificado internamente é que Marília não condicionará sua candidatura a acordos com eventuais cabeças de chapa ao Governo do Estado. Caso não haja espaço numa aliança liderada pelo prefeito do Recife, João Campos, ela admite disputar o Senado de forma avulsa. Para aliados, a postura não surpreende. Em 2022, praticamente isolada de grandes estruturas partidárias, conseguiu montar uma campanha competitiva e avançar ao segundo turno. A avaliação em seu entorno é de que, desta vez, o cenário é até mais favorável: serão duas vagas em disputa para o Senado, o que amplia o campo de viabilidade eleitoral.
Internamente, Marília também deixou claro que não pretende assumir a articulação das chapas proporcionais. Comunicou ao Solidariedade — e tem reiterado a outros partidos com os quais conversa — que sua prioridade será exclusivamente a campanha majoritária. Os nomes que chegaram a ser estimulados por ela a ingressar na legenda para disputar a Câmara Federal terão liberdade para permanecer onde estão ou acompanhá-la numa eventual migração. “O que não quero é me preocupar com eleição proporcional. Isso é tarefa do partido”, teria dito a um deputado que buscava orientação sobre o cenário eleitoral.
A movimentação ocorre num ambiente político já tensionado por desdobramentos recentes, como a operação da Polícia Federal que atingiu integrantes da família Coelho, lançando incertezas sobre o futuro político de Miguel Coelho. Apesar disso, pessoas próximas à ex-deputada garantem que sua decisão não foi reação a fatos conjunturais. Segundo elas, a estratégia vinha sendo desenhada muito antes e apenas aguardava o momento considerado ideal para ser anunciada.
Com a aproximação dos prazos de desincompatibilização e da janela partidária, Marília avaliou que esperar pela definição dos pré-candidatos ao Governo poderia significar perda de protagonismo e de tempo político. Ao bater o martelo agora, busca consolidar sua posição na disputa e forçar o debate sobre as alianças em torno das duas cadeiras que Pernambuco renovará no Senado.
Ao assumir publicamente a candidatura e descartar qualquer plano alternativo, Marília Arraes tenta transmitir uma mensagem de coerência e firmeza ao seu eleitorado. A aposta é que o perfil combativo que marcou sua trajetória, aliado ao desempenho expressivo de 2022, possa novamente colocá-la no centro do tabuleiro político pernambucano — desta vez mirando uma cadeira na Câmara Alta.