Confesso que, como jornalista, recebi essa notícia com tristeza. Renato Machado fazia parte daquela geração de comunicadores que inspirava quem escolheu viver da notícia. Seu estilo jamais foi baseado no espetáculo ou na busca por protagonismo. Ao contrário. Ele entendia que a notícia era a estrela e que o jornalista tinha o dever de servi-la com responsabilidade, ética e discrição. Em tempos de excessos e de uma comunicação cada vez mais acelerada, Renato sempre foi um símbolo da sobriedade.
Sua trajetória começou no tradicional Jornal do Brasil, ainda na década de 1960, período em que o jornalismo brasileiro enfrentava enormes desafios políticos e sociais. O talento logo chamou atenção e, em 1982, passou a integrar a equipe da TV Globo, emissora onde construiu uma das carreiras mais respeitadas da televisão brasileira.
Ao longo de mais de quatro décadas, Renato Machado ocupou postos que poucos jornalistas tiveram a oportunidade de exercer. Foi correspondente internacional em Londres, acompanhando acontecimentos que marcaram o mundo contemporâneo. Cobriu guerras, crises políticas, atentados terroristas, mudanças econômicas e fatos históricos que ajudaram a escrever capítulos importantes da história mundial. Sua cobertura sempre foi marcada pela profundidade da informação e pela capacidade de traduzir temas complexos para uma linguagem acessível ao telespectador.
Mas foi no Bom Dia Brasil que Renato Machado eternizou sua imagem. Entre 1996 e 2010, transformou o telejornal em uma verdadeira referência para quem começava o dia buscando informação de qualidade. Seu jeito tranquilo, sua voz inconfundível e sua postura firme transmitiam confiança. Era o tipo de jornalista que não precisava elevar o tom para ser ouvido. Bastava começar a falar para conquistar a atenção do público.
Renato também participou da bancada do Jornal Nacional, apresentou o Jornal da Globo, comandou telejornais locais e especiais, sempre demonstrando uma impressionante versatilidade. Nunca perdeu a essência de repórter, mesmo ocupando os espaços mais nobres do jornalismo brasileiro.
Talvez uma das maiores virtudes de Renato Machado tenha sido justamente sua discrição. Em uma época em que muitos profissionais passaram a disputar espaço como celebridades, ele permaneceu fiel ao papel do jornalista. Nunca buscou holofotes pessoais. Preferiu deixar que sua competência falasse por ele. E falou muito.
Depois de deixar a apresentação do Bom Dia Brasil, voltou à função de correspondente internacional, demonstrando que sua paixão pelo jornalismo estava muito além das bancadas dos telejornais. Mais tarde integrou o Globo Repórter e permaneceu na emissora até 2021, quando encerrou oficialmente sua longa trajetória na TV Globo.
Mesmo aposentado da televisão, Renato encontrou outra forma de compartilhar conhecimento. Apaixonado por vinhos, passou a produzir conteúdos sobre enologia, mostrando que a curiosidade intelectual nunca o abandonou. Era um jornalista que entendia que aprender é um exercício permanente.
Sua morte deixa uma enorme lacuna. Não apenas entre colegas de profissão, mas também entre milhões de brasileiros que cresceram assistindo às suas reportagens e apresentações. Sua carreira atravessou gerações e serviu de escola para inúmeros jornalistas que hoje ocupam espaços importantes na imprensa brasileira.
Vivemos tempos em que a informação circula em velocidade impressionante, mas nem sempre acompanhada de credibilidade. Renato Machado representava justamente o contrário. Era a demonstração de que o bom jornalismo não precisa gritar, não precisa criar polêmicas artificiais nem transformar informação em espetáculo. Sua autoridade vinha do conhecimento, da preparação e da ética.
Como editor do Blog do Edney, faço questão de registrar minha profunda admiração por esse gigante da comunicação brasileira. Renato Machado pertence à galeria daqueles profissionais que honraram a profissão todos os dias. Seu legado não será medido apenas pelas décadas diante das câmeras, mas pela influência silenciosa que exerceu sobre milhares de jornalistas que aprenderam, observando seu trabalho, que credibilidade se conquista diariamente.
Hoje o telejornalismo brasileiro perde uma de suas maiores referências. Mas o exemplo de Renato Machado permanecerá vivo em cada profissional que continuar acreditando que informar com responsabilidade, respeito e compromisso com a verdade é, acima de tudo, uma missão.
Descanse em paz, Renato Machado. O jornalismo brasileiro lhe deve muito. E a história jamais esquecerá seu nome. Inesquecível "Graças a Deus, hoje é sexta feira!"
Edney Souto