De acordo com as investigações, após a contratação dos empréstimos, as vítimas tinham dificuldade para quitar as dívidas em razão dos juros abusivos. Mesmo quando realizavam pagamentos em dinheiro ou por meio de Pix para contas de familiares ou terceiros, os cobradores alegavam que não havia comprovação da quitação e davam continuidade às cobranças.
A pressão sobre os comerciantes incluía visitas diárias aos estabelecimentos. Os suspeitos utilizavam motocicletas, capacetes e balaclavas e, segundo os relatos, intimidavam e humilhavam as vítimas. Quando o valor exigido não era pago, chegavam a consumir ou retirar produtos dos estabelecimentos e ameaçavam retornar posteriormente com outras pessoas.
As ameaças também eram feitas por meio de ligações e mensagens. As vítimas recebiam fotografias de seus estabelecimentos, residências e familiares, em uma tentativa de demonstrar que estavam sendo monitoradas.
Segundo o delegado Altemar Mamede, gestor da Delegacia Seccional do Cabo de Santo Agostinho (10ª DESEC), a atuação dos suspeitos apresentava elevado grau de organização e utilizava diferentes formas de intimidação.
“Eles se utilizavam de artifícios muito violentos do ponto de vista da coação e da ameaça, mandando mensagens com fantasias de palhaços, armas de fogo e outros textos ameaçadores. Mesmo enquanto o flagrante estava sendo lavrado, outras pessoas envolvidas continuavam mandando mensagens para as vítimas, ameaçando e coagindo, inclusive porque elas tinham procurado a polícia para denunciar os fatos”, afirmou.
Monitoramento e primeiros flagrantes
No início da apuração, um dos principais obstáculos foi o medo das vítimas de formalizar as denúncias. A Polícia Civil passou, então, a acompanhar a dinâmica das cobranças em áreas comerciais do Centro do Cabo de Santo Agostinho.
A partir do monitoramento, os investigadores conseguiram identificar pontos de atuação e a dinâmica utilizada pelos cobradores, o que possibilitou a realização dos primeiros flagrantes.
Desde o início da repressão às cobranças extorsivas, foram realizados quatro flagrantes, que resultaram, até o momento, na captura de 14 pessoas, entre colombianos e venezuelanos. Também foram apreendidas nove motocicletas, milhares de cartões utilizados para divulgação de empréstimos, dinheiro, celulares e mais de dez capacetes, entre outros materiais.
Para o delegado, os flagrantes permitiram identificar elementos que apontam para uma estrutura organizada, que vai além da atuação individual dos cobradores.
“A investigação presidida pelo delegado Augusto de Castro, com sua equipe, conseguiu desbaratar uma grande parte desse grupo criminoso que estamos investigando. A partir dessas informações, estamos avançando para verificar se, de fato, está configurada uma organização criminosa”, explicou.
Estrutura com financiadores, supervisores e cobradores
Durante as prisões, os policiais identificaram uma divisão de funções entre os envolvidos. Conforme a apuração, haveria pessoas responsáveis por financiar os empréstimos e coordenar a atividade, enquanto outras atuariam como supervisores de área, panfleteiros ou captadores e cobradores.
Segundo as investigações, os chamados cobradores e panfleteiros seriam, em sua maioria, recém-chegados da Colômbia e da Venezuela, recrutados com a oferta de trabalho, moradia, transporte e telefone. As motocicletas utilizadas nas cobranças e outros custos operacionais, como combustível, seriam fornecidos pelos responsáveis pelo esquema.
“Foi identificada uma estrutura muito bem elaborada. Existe o financiador, que seria o responsável por repassar o dinheiro aos supervisores. Esses supervisores coordenam os panfleteiros e captadores e, posteriormente, os cobradores, que passam a agir de forma ameaçadora quando as vítimas não conseguem pagar os valores exigidos”, detalhou o delegado.
A Polícia Civil também apura a eventual participação de outras pessoas que permaneceriam em posições de comando e financiamento, enquanto os cobradores estariam na linha de frente das ações contra as vítimas.