Ex-prefeito perdeu a Prefeitura em 2024 por quase 34 mil votos e, em 2026, recebeu apenas 11.673 votos para deputado federal. Agora, admite voltar à disputa municipal, mas terá de explicar como pretende reconquistar o eleitorado.
O deputado estadual Izaías Régis voltou a movimentar o tabuleiro político de Garanhuns. Em entrevista ao podcast PodPerguntar, apresentado pelo radialista Gilmar Alves, nesta quinta-feira (15), o parlamentar relembrou realizações de suas gestões como prefeito, falou sobre projetos para o Agreste Meridional, elogiou o governo Raquel Lyra e deixou aberta a possibilidade de disputar novamente a Prefeitura em 2028.
A declaração seria apenas mais um movimento de um político experiente se não houvesse um detalhe importante: os números das últimas eleições mostram que Izaías precisa fazer muito mais do que recordar o passado para convencer o eleitorado de que merece uma nova oportunidade.
Em 2024, ele perdeu a Prefeitura de Garanhuns para Sivaldo Albino. Dois anos depois, disputou uma vaga na Câmara Federal e terminou como suplente, com uma votação modesta diante do tamanho do projeto eleitoral. A sequência de resultados coloca uma pergunta no centro do debate: Izaías está preparando uma volta por cima ou ainda não conseguiu superar o recado das urnas?
2024: UMA DERROTA DE 33.894 VOTOS
Na eleição municipal de 2024, os números foram contundentes. Sivaldo Albino, do PSB, conquistou a reeleição com 49.838 votos, correspondentes a 71,37% dos votos válidos. Izaías Régis, então no PSDB, ficou em segundo lugar, com 15.944 votos e 22,83%. Gersinho Filho, do PL, recebeu 4.046 votos, equivalentes a 5,79%. Os dados são da totalização eleitoral.
A diferença entre Sivaldo e Izaías chegou a 33.894 votos. Não foi uma disputa decidida por poucos votos, nem um resultado que possa ser explicado simplesmente por uma diferença apertada de campanha.
Sivaldo terminou com mais de três vezes a votação de Izaías. O resultado representou uma demonstração de força do prefeito reeleito e deixou ao ex-prefeito o desafio de entender por que uma parcela tão expressiva do eleitorado preferiu outro projeto político.
Izaías tem história em Garanhuns, governou o município por dois mandatos e deixou marcas administrativas. Mas o eleitor mostrou que conhecer essa história não significava, necessariamente, querer seu retorno ao comando da cidade naquele momento.
2026: A TENTATIVA FEDERAL NÃO DECOLOU
Se a eleição municipal de 2024 já havia imposto uma derrota expressiva, o resultado de 2026 trouxe outro sinal de alerta.
Na disputa por uma vaga de deputado federal pelo PSD, Izaías Régis recebeu 11.673 votos em Pernambuco, o equivalente a 0,22% dos votos válidos. Terminou na 62ª posição entre 359 candidatos e ficou como suplente, sem conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
A candidatura tinha um objetivo diferente daquele de 2024. Na eleição municipal, Izaías buscava o voto dos eleitores de Garanhuns para voltar à Prefeitura. Em 2026, precisava construir uma votação distribuída por Pernambuco, concorrendo com nomes de forte presença regional e estadual.
Ainda assim, o resultado impõe uma constatação: o projeto federal não alcançou a dimensão necessária para garantir uma vaga.
O dado mais revelador está na origem dos votos. Garanhuns respondeu por 8.397 dos 11.673 votos obtidos por Izaías em todo o estado. Isso significa que aproximadamente 71,9% de sua votação veio da própria cidade.
Em Garanhuns, ele recebeu 11,65% dos votos válidos para deputado federal e ficou em segundo lugar entre os candidatos mais votados no município, atrás de Felipe Carreras, que obteve 27.474 votos.
Ou seja, Izaías manteve uma base eleitoral concentrada em sua principal referência política, mas não conseguiu ampliar essa força na medida necessária para chegar à Câmara Federal.
A COMPARAÇÃO COM 2022 TAMBÉM ACENDE O ALERTA
Em 2022, quando disputou uma vaga na Assembleia Legislativa de Pernambuco, Izaías recebeu 27.104 votos e foi eleito deputado estadual pelo PSDB. Em 2026, na disputa federal, foram 11.673 votos.
A diferença nominal é de 15.431 votos a menos, uma redução de aproximadamente 57%.
É importante fazer a ressalva: deputado estadual e deputado federal são cargos diferentes, com disputas, eleitorados e estratégias de campanha distintas. Portanto, não seria correto tratar essa variação como uma medida direta de perda de apoio pessoal.
Mas o número ajuda a dimensionar a dificuldade de transformar uma trajetória política consolidada em uma candidatura competitiva em âmbito estadual.
Em 2022, Izaías conseguiu uma cadeira na Alepe. Em 2026, não conseguiu repetir o êxito eleitoral em uma disputa por Brasília. E, entre uma eleição e outra, já havia sofrido uma derrota expressiva na tentativa de voltar à Prefeitura de Garanhuns.
A sequência merece análise, não maquiagem política.
A MAGIA DO NATAL E O VIVA DOMINGUINHOS NÃO RESOLVEM TUDO
Durante a entrevista ao PodPerguntar, Izaías relembrou ações de suas gestões, com destaque para a Magia do Natal, o Viva Dominguinhos, os investimentos culturais, o Festival de Inverno de Garanhuns e a implantação de escolas municipais em localidades que não contavam com essas unidades.
Essas iniciativas fazem parte do debate sobre seu legado administrativo. Não há problema em apresentá-las, defender sua importância e reivindicar reconhecimento pelo que foi realizado.
O problema começa quando o passado é tratado como se garantisse, automaticamente, o futuro.
A cidade mudou, o eleitorado mudou e a política local ganhou novos atores. A reeleição de Sivaldo Albino em 2024, com 71,37% dos votos válidos, mostrou que a disputa municipal não se resolveu pela simples comparação de currículos ou pelo peso histórico de antigos gestores. PP
Para voltar à Prefeitura, Izaías terá de explicar não apenas o que fez quando governou, mas o que pretende fazer de diferente, quais erros reconhece e como pretende dialogar com uma população que já teve a oportunidade de votar nele e escolheu outro caminho.
O legado é importante. Mas não é um cheque em branco.
HOSPITAL, MATERNIDADE E IML: O ELEITOR QUER SABER O QUE SAIU DO PAPEL
Na entrevista, o parlamentar também citou projetos e indicações voltados ao Agreste Meridional, incluindo o Hospital Mestre Dominguinhos, uma maternidade, um Instituto de Medicina Legal e uma UTI pediátrica no Hospital Regional Dom Moura.
São pautas relevantes para a região e para uma população que necessita de serviços públicos de saúde cada vez mais estruturados.
Mas o debate precisa distinguir anúncio, indicação parlamentar, articulação política, obra iniciada e serviço efetivamente entregue.
Quem pretende disputar novamente o Executivo municipal deve estar preparado para responder sobre o andamento dessas demandas, o que depende de cada esfera de governo e quais resultados concretos foram alcançados.
Não basta listar projetos importantes. É preciso apresentar o que avançou, o que continua pendente e como o parlamentar pretende contribuir para tirar as propostas do papel.
RAQUEL LYRA E A FORÇA DO GOVERNO ESTADUAL
Izaías também comemorou a vitória da governadora Raquel Lyra e fez uma avaliação positiva de sua gestão.
O alinhamento com a governadora pode ter importância estratégica para seus planos futuros, especialmente em uma conjuntura na qual alianças estaduais influenciam a formação de grupos municipais.
Entretanto, a vitória de Raquel não transfere automaticamente votos para todos os aliados. Cada liderança precisa demonstrar sua própria capacidade eleitoral e construir uma relação direta com a população.
Em Garanhuns, a questão será saber se Izaías conseguirá transformar sua posição política e seus vínculos com o governo estadual em uma nova base de confiança local.
A resposta não está apenas nos palanques, nas fotografias ou nas declarações de apoio. Está na capacidade de dialogar com o eleitorado e apresentar resultados.
2028: IZAÍAS QUER VOLTAR, MAS GARANHUNS VAI DECIDIR
Ao falar sobre a possibilidade de disputar novamente a Prefeitura, Izaías afirmou: “Iremos observar o cenário do momento, e caso seja favorável, podemos sim concorrer à Prefeitura de Garanhuns em 2028”.
A declaração mantém a hipótese viva, mas ainda não representa uma candidatura oficial nem garante que o cenário será favorável.
Até 2028, o deputado terá tempo para reorganizar seu grupo, avaliar alianças, recuperar pontes políticas e definir qual projeto pretende apresentar à cidade.
O desafio, porém, é maior do que anunciar uma intenção. Em 2024, perdeu a Prefeitura por 33.894 votos. Em 2026, recebeu 11.673 votos na disputa federal e terminou como suplente. São resultados diferentes, em eleições distintas, mas que colocam a reconstrução de sua força política no centro da discussão.
Não é impossível voltar. A política pernambucana tem exemplos de lideranças que perderam eleições e conseguiram se recuperar. Mas isso exige reconhecer o cenário real, e não agir como se nada tivesse acontecido.
NA LUPA
Izaías Régis tem história, experiência e realizações que podem ser apresentadas ao eleitor. Mas também tem duas derrotas recentes que não podem ser tratadas como notas de rodapé.
A eleição de 2024 mostrou uma ampla preferência por Sivaldo Albino na disputa pela Prefeitura. O resultado de 2026, por sua vez, mostrou que Izaías não conseguiu transformar sua trajetória em votos suficientes para conquistar uma vaga na Câmara Federal.
Agora, ao mencionar 2028, o deputado abre uma nova discussão sobre seu futuro político. A pergunta é se conseguirá apresentar uma proposta capaz de ir além da memória de suas administrações.
Porque política não vive apenas de saudade, realizações antigas ou declarações de intenção. Vive de confiança, articulação, resultados e voto.
Izaías pode querer voltar ao Palácio Celso Galvão. Mas querer é uma coisa; convencer Garanhuns é outra. E, depois dos números de 2024 e 2026, o caminho para uma eventual volta exige muito mais do que dizer que está disposto a disputar.
No fim, a decisão será do eleitor. E a urna, como já demonstrou, não costuma respeitar os planos de ninguém.