quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

FACÇÃO VENEZUELANA EXPANDE TENTÁCULOS NO BRASIL E ACENDE ALERTA NACIONAL

A presença do Tren de Aragua, considerada a maior e mais violenta facção criminosa da Venezuela, deixou de ser um problema restrito às fronteiras e passou a preocupar autoridades brasileiras em diferentes regiões do país. Investigações das forças de segurança apontam que integrantes do grupo já atuam em pelo menos seis estados brasileiros, com maior concentração em Roraima, porta de entrada de milhares de refugiados venezuelanos nos últimos anos.

A expansão da facção ocorre em paralelo a um cenário de tensão internacional. O nome do Tren de Aragua voltou ao centro do debate após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que citou diretamente a organização criminosa ao justificar ações contra o governo venezuelano. Segundo autoridades norte-americanas, o suposto envolvimento do presidente Nicolás Maduro com o grupo estaria entre as motivações para a prisão dele e da primeira-dama, Cilia Flores, no último sábado (3/1). O casal foi levado para o Centro de Detenção Metropolitano, no Brooklyn, em Nova York.

Maduro foi indiciado por um grande júri federal dos Estados Unidos por narcoterrorismo e tráfico internacional de drogas. A acusação sustenta que ele teria liderado, por mais de duas décadas, uma engrenagem criminosa instalada no alto escalão do Estado venezuelano, utilizando instituições públicas, forças de segurança, aeroportos, portos e até canais diplomáticos para viabilizar o envio de toneladas de cocaína aos Estados Unidos. As penas previstas podem variar de 20 anos de prisão à prisão perpétua.

Em discurso contundente, Trump afirmou que Maduro teria facilitado a atuação de gangues extremamente violentas em território norte-americano. Entre elas, citou o Tren de Aragua, acusado de invadir complexos residenciais, cometer mutilações e impor o terror em comunidades inteiras. “Eles foram brutais. Não serão mais”, declarou o presidente.

No Brasil, o avanço da facção ocorre de forma silenciosa, mas estratégica. De acordo com a Polícia Civil de Roraima, já há integrantes classificados como “diplomáticos” do Tren de Aragua em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em São Paulo e no Rio, os venezuelanos teriam firmado alianças com as duas maiores facções do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), ampliando o alcance de suas operações criminosas.

Roraima se tornou o principal ponto de fixação do grupo no Brasil. Segundo o delegado Wesley Costa Oliveira, titular da Delegacia de Repressão às Organizações Criminosas (Draco), a infiltração começou de forma discreta, por volta de 2016. Criminosos entravam no país se passando por refugiados, misturando-se à população vulnerável que fugia da crise humanitária venezuelana. Com o tempo, ganharam confiança e passaram a disputar territórios em Boa Vista, o que provocou uma escalada da violência.

Os números refletem esse avanço. Dados oficiais indicam que os homicídios na capital roraimense saltaram de 90 em 2020 para 127 em 2021, período em que o Tren de Aragua consolidou pontos de venda de cocaína. Uma vez estabelecido, o grupo fortaleceu conexões com facções brasileiras, tornando-se fornecedor de armas e responsável pelo transporte de grandes cargas de drogas oriundas da Colômbia, atravessando o território venezuelano.

Além do tráfico de drogas e armas, a facção mantém um esquema brutal de tráfico humano, especialmente de mulheres. De acordo com a Polícia Civil, venezuelanas em situação de extrema pobreza são aliciadas com promessas de uma vida melhor no Brasil. Ao chegar, acabam exploradas sexualmente em casas de prostituição controladas pelo Tren de Aragua, onde passam a acumular dívidas impostas pelos próprios criminosos.

“A situação é extremamente cruel. Muitas dessas mulheres acabam se viciando em drogas, o que aumenta ainda mais a dependência e a dívida com a facção. Quando não conseguem pagar, algumas são assassinadas para servir de exemplo”, relatou o delegado Wesley Costa Oliveira.

A dimensão da barbárie veio à tona no fim de 2024, quando a Polícia Civil de Roraima localizou um cemitério clandestino ligado ao Tren de Aragua em Boa Vista. No local, foram encontrados dez corpos, entre eles o de cinco mulheres com sinais de desmembramento, evidenciando o nível de violência empregado pelo grupo.

O avanço do Tren de Aragua no Brasil revela um novo e preocupante capítulo do crime organizado transnacional, exigindo integração entre forças de segurança, vigilância nas fronteiras e ações coordenadas para conter uma facção que já demonstrou não reconhecer limites geográficos nem humanos.

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