Entre as entidades das quais os Estados Unidos estão se desligando, ao menos 31 fazem parte da estrutura da ONU, incluindo acordos ambientais, organismos voltados aos direitos humanos, igualdade de gênero, saúde global e cooperação científica. O impacto mais simbólico recai sobre o campo ambiental: ao abandonar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, os EUA passam a ser a única grande potência fora do principal pacto climático global, responsável por orientar metas de redução de emissões e ações conjuntas contra o aquecimento do planeta. Também foi confirmado o desligamento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, responsável por consolidar dados científicos que embasam políticas ambientais em todo o mundo.
A decisão atinge ainda programas voltados a mulheres e populações vulneráveis. A saída do ONU Mulheres e do Fundo de População das Nações Unidas implica o corte imediato de recursos destinados a iniciativas de igualdade de gênero, planejamento familiar e saúde reprodutiva em países em desenvolvimento. Especialistas alertam que, além do impacto financeiro direto, a medida enfraquece redes internacionais de cooperação construídas ao longo de décadas.
Em declaração oficial, Trump adotou um tom nacionalista e confrontacional. Segundo ele, não é mais aceitável que o contribuinte norte-americano continue financiando instituições que, na sua avaliação, operam contra os interesses dos Estados Unidos. “Chega de enviar o nosso sangue e o nosso suor para sustentar o resto do mundo”, afirmou o presidente, reforçando o discurso de que o país deve priorizar acordos bilaterais e decisões soberanas, sem submeter-se a organismos multilaterais.
Enquanto apoiadores comemoram o que chamam de “independência americana” e o fim de compromissos considerados onerosos, a reação internacional foi imediata. Líderes europeus, representantes da ONU e organizações como a Anistia Internacional classificaram a decisão como imprudente e vingativa, alertando para o risco de um colapso na cooperação global em áreas sensíveis como clima, direitos humanos e segurança internacional. Há também o temor de que o vazio deixado pelos Estados Unidos seja rapidamente ocupado por potências como a China, que tende a ampliar sua influência dentro dessas instituições e a ditar novas regras do jogo mundial.
Apesar do discurso duro, especialistas lembram que nem todos os itens da lista são tratados de paz no sentido clássico, como frequentemente se tem divulgado nas redes sociais. O pacote inclui acordos ambientais, conselhos técnicos, agências especializadas e fóruns multilaterais diversos. Ainda assim, o volume e a abrangência das retiradas tornam a decisão inédita na história recente da diplomacia norte-americana.
Para além dos bastidores de Washington, os efeitos desse rompimento já começam a preocupar governos, empresas e cidadãos comuns. O afastamento dos EUA de pactos globais pode influenciar o preço da energia, o ritmo das transições ambientais, a resposta a crises humanitárias e até o equilíbrio geopolítico em regiões instáveis. Com os Estados Unidos fora da mesa de negociações, a ordem internacional construída no pós-guerra entra em uma nova fase, marcada por incertezas e disputas de liderança.
O mundo observa atento. A decisão de Trump não é apenas um movimento administrativo, mas um sinal claro de que as engrenagens da cooperação global estão sendo desafiadas — e, possivelmente, reescritas — em tempo real.
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