A governadora Raquel Lyra e o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, dividiram o mesmo espaço, a mesma solenidade e, sobretudo, um clima que destoou das expectativas de quem imaginava frieza ou distanciamento. Não houve tensão visível, não houve constrangimento protocolar, não houve aquela pressa típica de quem cumpre tabela e vai embora. Pelo contrário: o registro foi de diálogo fluido, gestos respeitosos e uma convivência institucional que chamou atenção justamente por parecer natural demais em tempos de polarização.
O episódio, à primeira vista simples, ganhou contornos maiores porque os dois personagens não orbitam exatamente o mesmo campo político. Silvio é hoje um dos nomes cotados para disputar o Senado na chapa que deverá ser liderada pelo prefeito do Recife, João Campos, principal nome da oposição ao governo estadual. Raquel, por sua vez, comanda o Estado em uma posição que a coloca em rota de enfrentamento indireto com esse mesmo grupo. Ainda assim, diante de câmeras, autoridades e lideranças do setor portuário, o que se viu foi civilidade — algo que, em outros momentos da história política de Pernambuco, nem sempre prevaleceu.
Nos bastidores, os comentários surgiram quase na mesma velocidade das fotos divulgadas. Haveria ali apenas maturidade institucional ou um gesto que poderia abrir brechas para leituras mais ousadas? A política vive de símbolos, e encontros públicos entre figuras de campos distintos raramente passam em branco. Ainda assim, olhando o cenário com lupa, a probabilidade de esse entrosamento ultrapassar o limite administrativo parece restrita.
Silvio Costa Filho tem hoje uma construção política fortemente associada ao projeto de João Campos. Seu nome circula com respaldo importante dentro do PT para compor a vaga ao Senado na chapa da oposição, o que o posiciona com vantagem na disputa interna e reduz a margem para movimentos fora desse eixo. Além disso, sua atuação no governo federal e a proximidade com aliados estratégicos consolidam uma trajetória que, pelo menos neste momento, aponta para um caminho já pavimentado eleitoralmente.
Isso não significa que o gesto ao lado de Raquel Lyra tenha sido vazio. Pelo contrário. Ele sinaliza que, mesmo em lados distintos da disputa, ainda há espaço para relações institucionais equilibradas, especialmente quando o assunto envolve obras estruturadoras, como a dragagem do Porto do Recife, fundamental para a economia do Estado. A mensagem transmitida foi a de que a administração pública pode — e deve — funcionar acima das disputas eleitorais, ainda que elas estejam no horizonte.
Em um ambiente onde cada foto é dissecada e cada aperto de mão vira teoria, o encontro entre Raquel e Silvio serviu como lembrete de que a política também é feita de gestos que preservam pontes, não apenas de movimentos que erguem muros. Se isso terá algum reflexo futuro nas alianças ou estratégias, só os próximos capítulos dirão. Por ora, o que ficou foi a imagem rara de dois atores de campos diferentes dividindo o mesmo palco sem ruído — e isso, em Pernambuco, já é notícia suficiente.
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