segunda-feira, 2 de março de 2026

OSMAR RICARDO ACENDE O PAVIO DA CPI E COLOCA JOÃO CAMPOS CONTRA A PAREDE

O que parecia apenas mais um discurso inflamado de tribuna virou movimento concreto de ruptura política. O vereador Osmar Ricardo (PT), presidente municipal do partido no Recife, deixou de lado os recados cifrados e assinou a CPI que mira o prefeito João Campos (PSB). Foi a 13ª assinatura que faltava para a oposição protocolar o pedido de investigação sobre o polêmico concurso da Procuradoria do Município. E, com isso, o jogo político na capital pernambucana mudou de patamar.

Na semana passada, Osmar já havia avisado, em tom quase profético: “O PT está roxinho”. A frase, uma referência direta à cor lilás usada na campanha da governadora Raquel Lyra (PSD), soou como provocação e sinalização. Questionado se o endurecimento do discurso contra o prefeito não atrapalharia entendimentos políticos, ele foi além: anunciou que poderia romper com João e até comandar uma greve dos servidores municipais. Não era bravata. Era roteiro.

A assinatura da CPI confirma que o vereador decidiu atravessar a linha que separa o aliado do opositor. A comissão pretende investigar possíveis irregularidades na nomeação de um candidato ao cargo de procurador do Recife que, embora estivesse classificado em 63º lugar, acabou assumindo a primeira posição destinada a candidatos com deficiência. O caso ganhou repercussão no fim de 2024 e levou a Prefeitura a recuar. Mesmo assim, o autor do requerimento, o vereador Thiago Medina (PL), sustenta que há pontos obscuros que precisam ser esclarecidos, inclusive sobre eventual parentesco do candidato com integrantes do Judiciário que atuam em processos do município.

O gesto de Osmar caiu como bomba dentro do próprio PT. O presidente estadual da legenda, Carlos Veras, afirmou ter sido comunicado apenas depois da assinatura e classificou a atitude como “pessoal”. Nos bastidores, porém, a avaliação é outra: quando o presidente municipal do partido age, dificilmente fala só por si. A fissura interna, que já existia, agora ficou exposta.

O pano de fundo é maior do que a CPI. O PT pernambucano vive uma disputa silenciosa entre duas alas: uma que flerta com a reeleição de Raquel Lyra e outra que mantém alinhamento com João Campos. O detalhe que torna o episódio ainda mais delicado é que Osmar sempre foi considerado do grupo próximo ao prefeito. Ele só assumiu a vaga na Câmara porque João convidou Marco Aurélio Filho para integrar o secretariado, abrindo espaço para o petista, primeiro suplente da federação PT-PV-PCdoB. Além disso, o irmão de Osmar, Oscar Barreto, ocupa cargo na gestão municipal como secretário de Meio Ambiente. Ou seja: a ruptura não é apenas política, é estrutural.

O desgaste vinha se acumulando. Presidente do Sindicato dos Servidores da Prefeitura do Recife, Osmar criticou publicamente o reajuste salarial oferecido pelo Executivo — 3,26% frente a uma inflação de 4,65% — e chamou a mesa de negociação de “mesa de enganação”. A insatisfação também se espalhou entre outros vereadores petistas, especialmente em relação ao concurso público, considerado bandeira histórica da legenda.

Outro ponto de atrito foram as parcerias com casas de apostas — as chamadas “Bets” — que passaram a exibir suas marcas em parques da cidade. Parte da bancada classificou a medida como “privatização disfarçada” de espaços públicos. A vereadora Liana Cirne chegou a reclamar, nas redes sociais, da presença ostensiva das propagandas em áreas frequentadas por crianças durante o Carnaval.

Agora, além da crise institucional com a CPI, surge a ameaça de retaliação política. Como Osmar é suplente e ocupa a vaga graças a uma articulação do prefeito, comenta-se nos bastidores que João poderia nomear outro secretário para abrir espaço ao retorno de Marco Aurélio à Câmara, devolvendo Osmar à suplência. Procuradas, fontes governistas admitem que “é uma possibilidade”. Se ocorrer, o gesto será lido como resposta direta à assinatura da CPI.

O movimento inesperado durante a sessão plenária desta segunda-feira deixou vereadores da base visivelmente desconcertados. Até então aliado, Osmar tornou-se peça-chave de uma engrenagem que pode constranger o prefeito e tensionar ainda mais a relação entre PT e PSB no Recife.

A crônica anunciada virou capítulo concreto. O que era discurso virou ato. E, em política, atos têm consequências. Resta saber se o gesto de Osmar Ricardo será o início de uma nova configuração de forças no Recife ou apenas mais um episódio de pressão dentro de um jogo maior que envolve 2026, o Palácio do Campo das Princesas e o comando da capital.

Por ora, a única certeza é que a paz entre petistas e socialistas ficou para trás — e o plenário da Casa de José Mariano deve se transformar no principal palco dessa disputa.

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