segunda-feira, 2 de março de 2026

CPI DO CONCURSO VIRA BOMBA POLÍTICA NA CÂMARA DO RECIFE E COLOCA JOÃO CAMPOS NO CENTRO DA TEMPESTADE

A segunda-feira (2) começou com cheiro de pólvora no plenário da Câmara do Recife. Vereadores de oposição protocolaram oficialmente o pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o prefeito João Campos (PSB). O alvo é um episódio que, desde o fim de 2024, vem rendendo críticas, debates jurídicos e acusações de favorecimento: a alteração no resultado do concurso público para procurador do município, realizado em 2022.

O caso ganhou repercussão quando a gestão municipal nomeou um candidato que havia ficado na 63ª colocação após ele apresentar, dois anos depois da realização do certame, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). A nomeação ocorreu em detrimento do candidato que havia alcançado o 1º lugar entre as pessoas com deficiência no concurso. À época, a Prefeitura do Recife classificou o episódio como uma “controvérsia estritamente jurídica”, sustentando que a decisão estava amparada em interpretação legal e direitos assegurados.

A oposição, porém, não engoliu a explicação.

Para a instalação da CPI, era necessário o apoio de ao menos um terço dos vereadores da Casa — 13 assinaturas. O número foi alcançado nesta segunda-feira com a adesão do vereador Osmar Ricardo (PT), presidente municipal do partido. A assinatura não passou despercebida. Muito pelo contrário: caiu como uma bomba política.

O movimento de Osmar ocorre em meio às articulações nacionais sobre um possível apoio do PT à candidatura de João Campos ao Governo de Pernambuco em 2026. Nos bastidores, o gesto é visto como um recado duro — e estratégico. Nos últimos dias, o vereador também tem demonstrado aproximação com a governadora Raquel Lyra (PSD), que deve disputar a reeleição. Em outras palavras: a CPI nasce jurídica, mas cresce política.

O QUE ESTÁ EM JOGO

A CPI pretende investigar se houve irregularidade, privilégio indevido ou interpretação forçada da legislação no processo de nomeação. O ponto central é a mudança de enquadramento do candidato após o diagnóstico apresentado dois anos depois da prova — algo que, segundo críticos, pode ter alterado a ordem classificatória original.

Especialistas ouvidos à época divergiram. Alguns defenderam que o direito à inclusão e à acessibilidade deve ser respeitado mesmo que o diagnóstico seja posterior, desde que comprovado. Outros questionaram se o concurso poderia ter seu resultado reordenado tanto tempo depois, afetando candidatos que já aguardavam nomeação.

A CPI deverá convocar secretários, membros da Procuradoria do Município e possivelmente os próprios candidatos envolvidos. Se instalada, terá poder de requisitar documentos e produzir um relatório final que pode ou não recomendar medidas ao Ministério Público.

QUEM ASSINOU A CPI (OS QUE VOTARAM “SIM”)

Assinaram o requerimento para abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito:

  • Agora é Rubem (PSB)

  • Alcides Teixeira (Avante)

  • Alef Collins (PP)

  • Davi Muniz (PSD)

  • Eduardo Moura (Novo)

  • Felipe Alecrim (Novo)

  • Flávia de Nadegi (PV)

  • Fred Ferreira (PL)

  • Gilson Machado (PL)

  • Jô Cavalcanti (PSOL)

  • Osmar Ricardo (PT)

  • Paulo Muniz (PL)

  • Thiago Medina (PL)

O dado curioso — e politicamente explosivo — é que a lista reúne vereadores de espectros ideológicos distintos, da esquerda à direita, formando uma frente improvável contra o Palácio do Capibaribe.

PRESSÃO NO ANO ELEITORAL

Embora a investigação trate de um concurso realizado em 2022, o timing da CPI é tudo menos ingênuo. À medida que 2026 se aproxima e o nome de João Campos ganha musculatura para uma disputa estadual, qualquer ruído vira munição.

Aliados do prefeito afirmam que a gestão agiu dentro da legalidade e que a CPI tem motivação política. Já a oposição sustenta que, se tudo foi feito corretamente, não há por que temer investigação.

Entre a “controvérsia jurídica” e a “manobra política”, a verdade agora passa a ser disputada no campo institucional — e no tribunal da opinião pública.

A pergunta que ecoa nos corredores da Câmara é simples e direta: foi um direito assegurado ou um atalho privilegiado?

A CPI dirá. Ou, pelo menos, tentará.

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