O caso ganhou repercussão quando a gestão municipal nomeou um candidato que havia ficado na 63ª colocação após ele apresentar, dois anos depois da realização do certame, diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). A nomeação ocorreu em detrimento do candidato que havia alcançado o 1º lugar entre as pessoas com deficiência no concurso. À época, a Prefeitura do Recife classificou o episódio como uma “controvérsia estritamente jurídica”, sustentando que a decisão estava amparada em interpretação legal e direitos assegurados.
A oposição, porém, não engoliu a explicação.
Para a instalação da CPI, era necessário o apoio de ao menos um terço dos vereadores da Casa — 13 assinaturas. O número foi alcançado nesta segunda-feira com a adesão do vereador Osmar Ricardo (PT), presidente municipal do partido. A assinatura não passou despercebida. Muito pelo contrário: caiu como uma bomba política.
O movimento de Osmar ocorre em meio às articulações nacionais sobre um possível apoio do PT à candidatura de João Campos ao Governo de Pernambuco em 2026. Nos bastidores, o gesto é visto como um recado duro — e estratégico. Nos últimos dias, o vereador também tem demonstrado aproximação com a governadora Raquel Lyra (PSD), que deve disputar a reeleição. Em outras palavras: a CPI nasce jurídica, mas cresce política.
O QUE ESTÁ EM JOGO
A CPI pretende investigar se houve irregularidade, privilégio indevido ou interpretação forçada da legislação no processo de nomeação. O ponto central é a mudança de enquadramento do candidato após o diagnóstico apresentado dois anos depois da prova — algo que, segundo críticos, pode ter alterado a ordem classificatória original.
Especialistas ouvidos à época divergiram. Alguns defenderam que o direito à inclusão e à acessibilidade deve ser respeitado mesmo que o diagnóstico seja posterior, desde que comprovado. Outros questionaram se o concurso poderia ter seu resultado reordenado tanto tempo depois, afetando candidatos que já aguardavam nomeação.
A CPI deverá convocar secretários, membros da Procuradoria do Município e possivelmente os próprios candidatos envolvidos. Se instalada, terá poder de requisitar documentos e produzir um relatório final que pode ou não recomendar medidas ao Ministério Público.
QUEM ASSINOU A CPI (OS QUE VOTARAM “SIM”)
Assinaram o requerimento para abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito:
Agora é Rubem (PSB)
Alcides Teixeira (Avante)
Alef Collins (PP)
Davi Muniz (PSD)
Eduardo Moura (Novo)
Felipe Alecrim (Novo)
Flávia de Nadegi (PV)
Fred Ferreira (PL)
Gilson Machado (PL)
Jô Cavalcanti (PSOL)
Osmar Ricardo (PT)
Paulo Muniz (PL)
Thiago Medina (PL)
O dado curioso — e politicamente explosivo — é que a lista reúne vereadores de espectros ideológicos distintos, da esquerda à direita, formando uma frente improvável contra o Palácio do Capibaribe.
PRESSÃO NO ANO ELEITORAL
Embora a investigação trate de um concurso realizado em 2022, o timing da CPI é tudo menos ingênuo. À medida que 2026 se aproxima e o nome de João Campos ganha musculatura para uma disputa estadual, qualquer ruído vira munição.
Aliados do prefeito afirmam que a gestão agiu dentro da legalidade e que a CPI tem motivação política. Já a oposição sustenta que, se tudo foi feito corretamente, não há por que temer investigação.
Entre a “controvérsia jurídica” e a “manobra política”, a verdade agora passa a ser disputada no campo institucional — e no tribunal da opinião pública.
A pergunta que ecoa nos corredores da Câmara é simples e direta: foi um direito assegurado ou um atalho privilegiado?
A CPI dirá. Ou, pelo menos, tentará.
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