Irmão de João Carlos Paes Mendonça, empresário construiu trajetória própria nos negócios, marcou o setor gráfico pernambucano e criou uma iniciativa de acolhimento para famílias de pacientes com fissura labiopalatina.
O mundo empresarial pernambucano perdeu, nesta terça-feira (27), um de seus nomes de destaque. Morreu, no Recife, aos 83 anos, o empresário Eduardo Paes Mendonça, sergipano que fez de Pernambuco sua terra de trabalho, de negócios e de construção de um legado que ultrapassou as fronteiras do mundo empresarial.
Irmão de João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, Eduardo construiu uma história própria, marcada pela capacidade de empreender, pela disposição para enfrentar dificuldades e por uma visão de negócios que o levou a atuar em diferentes setores da economia. Mas foi fora das empresas que deixou uma de suas marcas mais humanas: a criação de uma estrutura de acolhimento para famílias que precisam viajar ao Recife em busca de tratamento especializado.
O velório será realizado nesta quarta-feira (28), a partir das 10h, no cemitério Morada da Paz, em Paulista. A missa está prevista para as 14h, seguida da cerimônia de cremação, às 15h. As informações são do Jornal do Commercio.
UMA TRAJETÓRIA CONSTRUÍDA COM TRABALHO
A história de Eduardo começou longe dos grandes centros empresariais. Nascido na Serra do Machado, distrito de Ribeirópolis, em Sergipe, ele cresceu em uma família trabalhadora, liderada por Pedro Paes Mendonça e Maria Dudu. Desde cedo, aprendeu que os negócios exigiam dedicação, disciplina e disposição para recomeçar.
Em 1959, quando um incêndio destruiu o armazém que sustentava a família, Eduardo se uniu aos irmãos João Carlos e José Américo para ajudar o pai a reconstruir o patrimônio. Aos 16 anos, estudava Contabilidade à noite e trabalhava durante o dia, embalando mercadorias e organizando produtos.
A confiança conquistada dentro de casa logo se transformou em responsabilidades maiores. Ainda adolescente, passou a administrar lojas, cuidar da distribuição de produtos e participar diretamente das atividades comerciais da família. Aos 19 anos, assumiu a gerência de uma usina de beneficiamento de arroz e farinha de milho, em Propriá, experiência que consolidou sua formação como empresário.
Anos depois, Pernambuco se tornaria o principal cenário de sua atuação profissional.
DO BOMPREÇO À INTERGRAF
Eduardo trabalhou na rede Bompreço, onde acompanhou de perto a operação da empresa e assumiu responsabilidades que iam da central de distribuição à segurança, às compras, às embalagens, às obras e à gestão de veículos. Permaneceu no grupo até a venda total da rede aos holandeses, encerrando aquele ciclo ao lado do irmão João Carlos.
Mas Eduardo não era homem de ficar parado. Durante o processo de venda, adquiriu a Gráfica JC, ligada ao Jornal do Commercio, e transformou uma estrutura que enfrentava dificuldades em um empreendimento competitivo. À frente da empresa, que passou a se chamar Intergraf, investiu em modernização e levou o negócio a um novo patamar tecnológico.
A gráfica se tornou pioneira em Pernambuco na impressão de folha inteira em quatro cores e conquistou a certificação ISO 9001. Em pouco tempo, passou a disputar espaço com a Gráfica Santa Marta, então uma das referências do mercado.
Depois de dez anos no setor, Eduardo decidiu encerrar sua participação. Insatisfeito com práticas comerciais que considerava incompatíveis com seus princípios, optou por desativar a empresa em vez de vendê-la. Uma decisão que traduzia uma característica de sua trajetória: os resultados financeiros tinham importância, mas não estavam acima de seus valores.
NEGÓCIOS, SHOPPINGS E A FORÇA DA FAMÍLIA
A atuação empresarial também passou pela Wolk Elevadores. Eduardo ampliou a presença da companhia no mercado e firmou uma parceria com a Hyundai para distribuição e manutenção de elevadores da fabricante no Brasil, antes de se desfazer do negócio.
Nos últimos anos, concentrou suas atividades na Emel Investment, holding voltada aos empreendimentos imobiliários e shopping centers. Ao lado dos filhos, manteve participação em diferentes negócios, incluindo empreendimentos ligados aos shoppings Recife, Tacaruna, Guararapes, RioMar Recife, RioMar Fortaleza, RioMar Presidente Kennedy e Salvador Shopping.
A família também possuía participações em negócios herdados dos pais e em uma empresa de investimentos no mercado internacional.
Na estrutura familiar, Danielle assumiu responsabilidades administrativas e financeiras, Eduardo Filho ficou à frente da operação e Viviane, residente em São Paulo, permaneceu como acionista.
A DOR QUE VIROU SOLIDARIEDADE
A dimensão mais sensível da história de Eduardo Paes Mendonça está na luta pessoal que enfrentou durante décadas. Ele nasceu com uma fissura submucosa no palato, condição que só foi diagnosticada quando tinha 69 anos. Desde a infância, conviveu com dificuldades na fala, passou por avaliações médicas e chegou a ser submetido a procedimentos que não resolveram o problema.
A busca por respostas atravessou boa parte de sua vida. Em 2012, quando já havia recebido o diagnóstico de doença de Parkinson, decidiu enfrentar também a possibilidade de corrigir a fissura. O tratamento envolveu cirurgias, complicações e novas intervenções em 2013 e 2014. Nesse período, também passou por duas pontes de safena e uma mamária.
O resultado não foi o esperado. Ainda assim, Eduardo não permitiu que a experiência terminasse apenas como uma batalha pessoal.
Ao compreender as dificuldades enfrentadas por quem convive com a fissura labiopalatina, decidiu transformar sua vivência em uma iniciativa de apoio a outras pessoas. Foi assim que nasceu a Casa Sorrir, inaugurada em 2017, vinculada ao Instituto José Eduardo Mendonça, formalizado em janeiro de 2018.
A instituição foi criada para acolher pacientes e familiares que chegam ao Recife em busca de tratamento especializado, especialmente aqueles atendidos pelo Centro de Atenção aos Defeitos da Face (Cadefi), do Imip. Muitos vêm do interior de Pernambuco e de outros estados, sem condições financeiras para custear uma longa permanência na capital.
A Casa Sorrir foi concebida para oferecer mais do que hospedagem durante o tratamento. A proposta inclui apoio às famílias, acesso à educação, capacitação e oportunidades para reconstruir a vida.
Foi uma resposta concreta a uma dificuldade que Eduardo conhecia de perto. Em vez de guardar para si a experiência, ele decidiu abrir caminhos para quem enfrentava situação semelhante
UM HOMEM QUE NÃO ESCONDIA OS ERROS
Em suas memórias, Eduardo tratava os acertos com naturalidade, mas atribuía especial importância aos erros. Considerava que as experiências malsucedidas poderiam ensinar muito às novas gerações de empreendedores, sobretudo quando envolviam decisões tomadas sem o devido estudo sobre o negócio.
Defendia que gostar da atividade e trabalhar duro eram condições importantes, mas insuficientes para garantir o sucesso. Ética, credibilidade, respeito aos clientes, fornecedores e parceiros e um ambiente saudável de trabalho também faziam parte da equação.
Entre seus conselhos, a humildade ocupava lugar especial, principalmente nas empresas familiares, onde a convivência entre parentes pode se tornar um desafio tão grande quanto a própria gestão.
A FAMÍLIA, AS RAÍZES E AS MEMÓRIAS
A vida de Eduardo também foi marcada pela ligação com suas origens e pela importância dos laços familiares. Casado com Ana Maria Santa Rita, deixa esposa, três filhos, cinco netos e os irmãos João Carlos Paes Mendonça, José Américo Mendonça, Reginaldo Paes Mendonça, Maria Mendonça, Ester Mendonça Ferreira, Josefa Cecinha Mendonça e Joseilde Mendonça Prado.
O irmão João Carlos fez questão de destacar a dimensão humana da perda. “Perdemos um irmão querido. Uma pessoa exemplar. Um homem de muitos amigos e de uma leveza que agregava as pessoas em torno dele”, afirmou, ao recordar também sua atuação no Bompreço e a confiança que conquistou entre os colegas.
Durante a pandemia, Eduardo passou a revisitar episódios de sua vida e transformou lembranças em livros. Escreveu A pedra do meu caminho, em primeira pessoa, e O dito e o não dito, em terceira pessoa, registrando experiências, dificuldades, conquistas e aprendizados.
O que começou como uma forma de ocupar o tempo acabou se tornando uma maneira de preservar sua história e transmiti-la às próximas gerações.
Eduardo Paes Mendonça deixa uma trajetória que não cabe apenas na lista de empresas das quais participou ou nos empreendimentos em que investiu. Sua história reúne trabalho, coragem para recomeçar, respeito aos próprios princípios e a capacidade de transformar uma dor pessoal em oportunidade de acolher outras famílias.
No mundo dos negócios, construiu seu caminho. Na vida, deixou uma lição que vai além de qualquer patrimônio: o verdadeiro legado de uma pessoa também se mede pelas vidas que ela ajuda a transformar.
Edney Souto | Blog do Edney
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