terça-feira, 2 de março de 2010

ORCA MATA TREINADORA


Por Rodolfo Araújo
para o Acerto de Contas

Causou consternação no mundo todo, na semana passada, a notícia da trágica morte da treinadora Dawn Brancheau, de 40 anos, afogada pela orca Tilikum, numa das piscinas do SeaWorld, na Flórida. Brancheau teria sido atacada pelo cetáceo e depois puxada pelo rabo-de-cavalo para o fundo da piscina, de onde seria resgatada já sem vida.

O acidente foi, de fato, uma tragédia. Mas não uma novidade, nem uma surpresa. Fatos semelhantes já haviam ocorrido antes – inclusive com a própria Tilikum, que coleciona outras duas mortes na sua extensa ficha corrida.

Mas há um outro detalhe por trás do episódio que parecemos não nos dar conta: a orca matar a treinadora é o desfecho mais natural desta relação e das outras que envolvem perigos desnecessários.

O esperado ocorre, da mesma forma, quando o leão come o domador, o touro empala o toureiro, o alpinista morre congelado ou o equilibrista cai da corda bamba. Isto seria o normal. Sempre que não ocorre desta forma é por alguma habilidade excepcional – ou sorte – da pessoa que, por essa exímia destreza1, recebe o título de artista.

Quando você entra num parque aquático ou num circo, pagou para ver alguém correndo risco de morte para seu deleite, quer isso envolva animais ferozes ou não. O mais plausível ali, entenda, seria a pessoa ser despedaçada ou esmigalhada pelo animal que tem cem vezes o seu peso e dentes do tamanho da sua mão.

Ao sentar-se no seu lugar, porém, você parece esquecer que em qualquer outra situação o tigre devoraria o lépido domador. Independente de cadeira ou do chicote, o felino lamberia os beiços com seu incauto quitute. Se você sai do picadeiro sem ter presenciado o sinistro banquete, algo não natural ocorreu. Mas você pode tentar de novo no horário seguinte.

Do mesmo modo, o alpinista que sobe o Everest deve morrer, pois assim ocorre quando uma pessoa enfrenta aquelas condições climáticas. Não há surpresa, portanto, quando isso ocorre, já que este é o desfecho natural para um ser humano sob neve e com ar rarefeito.

O destemido mundo dos recordes e dos feitos extraordinários está construído sobre as lápides dos menos aptos, dos não tão heróicos e dos azarados. As mortes nada glamorosas e rapidamente esquecidas (como era mesmo o nome daquele "domador" de crocodilos morto por uma arraia…?) dos agora anônimos aventureiros tornam-se meros efeitos colaterais da hipnotizante diversão da quase-tragédia.

* * * * * * * * * *

Por isso eu adoro a piada do cara que vai a um restaurante ao lado de uma arena, em Madri, e pede o prato típico do local. Quando chegam os cojones, ele indaga o que seriam aquelas duas grandes bolas de carne em seu prato. Son los cojones del toro que murió hoy en la arena, explica o solícito garçom. Satisfeito e deliciado, o turista volta na semana seguinte para repetir a iguaria. Para sua surpresa, porém, o mesmo garçom traz-lhe duas pequenas bolotinhas. Quando reclama do tamanho da porção, ouve a plausível explicação: Ni siempre el toro pierde

Nenhum comentário: