estruição deixa moradores de Barreiros sem qualquer perspectiva
Há moradores que salvaram poucos objetos em casa, mas cenário na cidade é devastador
Por Chico Feitosa
01020304050607
Ampliar
Foto: Chico Feitosa
Veja mais
BARREIROS - Em menos de 11 meses, o estudante David Gustavo Silva (foto 1), 15 anos, viu sua casa ser invadida duas vezes pelo rio Una, em Barreiros, na Mata Sul do Pernambuco. Ainda de madrugada, ele foi acordado pela mãe e seguiu para um abrigo na parte alta da cidade com suas duas irmãs menores. Na manhã desta quarta-feira (04), acompanhado pelo amigo José Klebson da Silva, 14 anos, ele precisou nadar, por um local onde antes caminhava, para tentar salvar o pouco que restou da sua casa.
“Conseguimos salvar um galo e hoje vim buscar uma galinha. Ela está em cima do telhado da minha casa”, aponta. O indicador de David mostra apenas uma parte do telhado da casa, que fica quase na esquina de uma rua da comunidade Rio Una.
Sem acreditar, David conta que perdeu tudo pela segunda vez. No ano passado, o cenário era o mesmo: uma mistura de destruição e falta de perspectiva. “Até ontem (terça-feira) não estava assim, não. Mas, ano passado foi pior. Este ano conseguimos tirar uma televisão. As camas a gente deixou pra lá”, lamenta.
Ao lado de David, José Klebson agia como um fiel escudeiro. Compartilhando do mesmo sofrimento, os dois seguiram nadando em busca da galinha: único bem que restou à família do amigo. “É muito difícil. Minha casa caiu no ano passado. Fizemos outra por cima, mas a água invadiu de novo.”
A comunidade de Rio Una fica às margens do rio e a força da correnteza chega a impressionar. Algumas pessoas se arriscam enfrentando a água em jangadas improvisadas. Só Jorge Nascimento (foto 2) resgatou mais de 30 pessoas durante a madrugada, enfrentando o rio.
UMA CIDADE FECHADA
Depois de cruzar a comunidade de Rio Una, cortada pela PE-60, é quase impossível avançar muito pelo centro da cidade. Várias ruas ficaram alagadas, deixando algumas pessoas presas dentro de casas e em locais de trabalho.
Num misto de desespero e incredulidade, Maria José da Silva (foto 3), 43 anos, pedia ajuda desesperada. O filho ainda não tinha voltado do trabalho desde a terça-feira. “Ele está preso no primeiro andar da clínica onde trabalha. Está sem comida e sem água. Tirem ele de lá”, clamava. O telefone por qual se comunicavam ficava no térreo, que pela manhã já estava tomado pela água.
Andar pelas poucas ruas que continuam livres da água é como vivenciar uma cidade arrasada. Qualquer espaço que transmita um pouco de segurança é logo transformado em abrigo, sejam casas em construção ou galpões sem paredes, mas com coberturas para ao menos livrar a chuva que insiste em continuar. E até mesmo o Terminal Rodoviário: lá, centenas de pessoas ocupam o lugar de forma desumana.
Os colchões foram espalhados pelo chão, onde se cruzam famílias inteiras com gente idosa, crianças e até animais. A aposentada Maria do Carmo Gomes (foto 4), 68 anos, dividia uma área de menos de três metros quadrados com outras três famílias.
Ela conta que o espaço, onde também esteve no ano passado, acabou sendo suficiente porque ninguém conseguiu salvar quase nada. “Só tirei essa muda de roupa. A comida que tenho são essas três garrafas de água que distribuíram agora. Não deu para salvar nada”, lamenta.
Alertadas pela dor do ano passado, algumas pessoas conseguiram se antecipar ao pior e salvaram alguns móveis. Vivian Carla Barbosa de Oliveira (foto 5), 27 anos, está desempregada desde a última cheia. Na manhã desta quarta-feira, ela ajudava a mãe a descarregar o caminhão de mudanças. “Desta vez conseguimos salvar algumas coisas porque acordamos às 4h. Conseguimos um caminhão e estamos levando os móveis para a casa do meu irmão, aqui mesmo. Só que lá tem primeiro andar.
A dona de casa Maria de Fátima (foto 6) não teve a mesma sorte. É difícil descrever o cenário que se transformou sua casa. Isto porque, como o imóvel fica abaixo do nível da calçada, ao abrir a porta a única coisa que se enxerga é a água. Tudo ficou submerso. “Ainda tirei alguma coisa, mas muita coisa se perdeu”, comentou, encostada na porta que separava a calçada da sua casa totalmente invadida pela água.
COMÉRCIO
Além de perder praticamente tudo o que tinha em casa, Maurício Lima (foto 7), 36 anos, não sabe se continuará no emprego numa locadora de carros quando a água baixar. Muitos carros já tinham sido perdidos no ano passado e este ano o problema voltou a se repetir.
Apesar da decepção, ele quer continuar acreditando que logo mais a vida vai voltar ao normal. Ele só não sabe quanto tempo terá que esperar para isso. “Conseguimos salvar alguns carros. Bem mais do que no ano passado, porque nos prevenimos. Agora é só esperar água baixar e tentar continuar a vida”, desabafou.







Nenhum comentário:
Postar um comentário