terça-feira, 23 de abril de 2013

Inflação alta força novos hábitos para as famílias brasileiras



Inflação em alta obriga famílias a rever práticas de consumo e a adiar planos para cortar despesas e preservar o orçamento. Economizar e evitar as dívidas é a regra

Correio Braziliense 
Não está fácil para ninguém manter as contas em ordem nestes primeiros meses de 2013. A educação dos filhos encareceu de novo. A gasolina chegou à casa dos R$ 3. A Lei das Domésticas deixou patrões e o bolso deles em polvorosa. E ela, a inflação, voltou: derrubou as vendas do varejo, aumentou os custos da indústria, obrigou o governo a subir os juros e tirou o poder de compra das famílias. A sensação de que o salário encurtou preocupa os brasileiros.

Enquanto o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nega “dourar a pílula” da inflação e a presidente Dilma Rousseff promete intolerância com o repique de preços – em março a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estourou o teto da meta do governo e chegou a 6,59% no acumulado de 12 meses –, a classe média se aperta para tentar pagar as faturas do mês e não se afundar em dívidas. O índice de endividamento dos lares atingiu 69,2%, o maior nível desde julho de 2011, segundo dados divulgados na semana passada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O Estado de Minas relata nesta reportagem quatro casos de famílias que tiveram de mudar hábitos e adiar planos para ajustar o orçamento da casa ao novo cenário econômico do país. As histórias ilustram sentimentos e desafios comuns a milhares de lares brasileiros, onde, no mínimo, tem sobrado menos dinheiro a cada mês. Em muitas residências, a lista de despesas sufocou receitas, e as contas estouraram tanto quanto a meta de inflação do governo.

Medo

Pais e mães estão com medo de gastar. Para não prejudicar ainda mais a saúde financeira da casa, têm, ao menos, tentado cortar os supérfluos, embora esse conceito seja relativo e quase sempre abra divergências no ambiente doméstico. Com a taxa básica de juros (Selic) mais alta – na última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu aumentá-la para 7,5% ao ano –, quem conseguiu quitar financiamentos ou empréstimos anda fugindo de novas dívidas.

Sem prever os rumos da economia, a cautela – palavra usada pelo BC no comunicado em que informou a atualização dos juros – virou regra entre a classe média brasileira. “É preciso se adaptar aos ciclos. Tem muita gente reclamando, mas que ainda não parou para fazer contas e planejar”, alerta o educador financeiro Álvaro Modernell, que enumera algumas dicas para quem quer economizar. 

Gastos mais apertados

Com dois meses de vida, Júlia nasceu numa época em que a inflação voltou a assombrar a mãe e a avó dela. E, sem saber, acabou ajudando a família a economizar. “Estamos muito mais caseiros, e isso ajuda a diminuir os gastos”, comenta a servidora pública Karina Rodrigues, 28 anos, cujo carro ficará na garagem durante a licença-maternidade. O enxoval da bebê foi comprado nos Estados Unidos, por preços muito abaixo dos cobrados no Brasil. Os aumentos espantaram a família. A compra dos mesmos itens, diz a avó de Júlia, encareceu pelo menos 50% desde o nascimento da neta. “Uma conta que antes dava R$ 100 não sai agora por menos de R$ 150”, reclama a dona de casa Luciene Gomes de Souza, 50 anos, revoltada com o preço do feijão.

Além de um dos automóveis ter parado de circular, a família decidiu visitar menos os parentes no interior: culpa do combustível mais caro. “Para compensar, temos que ligar mais vezes. Não está fácil para ninguém”, diz Luciene. “Está tudo muito mais caro: essa é a realidade, não é só uma sensação”, emenda a filha. Para não perder o controle das finanças, Karina anota todos os gastos numa agenda e acompanha as movimentações por uma planilha virtual. “Se não for assim, além de não sobrar, o dinheiro falta, e muito”, justifica.

Corte até do plano de saúde

Nem o plano de saúde das duas filhas mais novas escapou do corte de gastos na casa do funcionário público
Gilberto de Melo Júnior, de 42 anos. “Não teve outro jeito”, lamenta ele. “Elas não são de adoecer. É torcer
para continuar assim”, emenda a mulher, a operadora de telemarketing Andréa Valadares, 37 anos, descrente com o atendimento em postos de saúde e hospitais públicos.  Os aumentos de 2013 reviraram as contas da família. Os biscoitos recheados deram lugar aos de água e sal. Outras guloseimas, como chocolate e iogurte, também saíram do carrinho.

A diversão da criançada virou estritamente caseira: em vez de cinema no shopping, livros e videogame na sala de casa. A troca do colchão  da cama do casal é tão incerta quanto necessária.  Mesmo sendo contramão, Gilberto busca as filhas na escola e vai almoçar em casa todo dia. Gasta mais  gasolina, mas se livra de comer na rua e do pagamento da van escolar. Na balança, calcula, o esforço vale  a pena. “Tem que ir ajustando. Se a corda não está no pescoço, está quase, e bem esticada”, diz.  O filho mais velho concluirá o ensino médio este ano. Só não faz cursinho preparatório para o vestibular porque o orçamento apertou. As irmãs, às vezes, reclamam de não estarem saindo de casa como antes, mas entendem a situação. “Seria ótimo se tudo tivesse preço baixo”, diz Maria Beatriz, 8 anos.

Comida fora só no domingo

Flaviano Salvador de Castro e Daniela Microni, empresários, casaram-se há um ano e, assutados pela corrida de preços, há cinco meses resolveram mudar o seu estilo de vida para conseguir conter os gastos. Com a alta de preços do item alimentação, os dois passaram a pesquisar antes de fazer as compras, procurar os sacolões mais baratos e a cortar os produtos que estavam caros demais. O tomate foi substituído por outros legumes e verduras mais em conta, assim como os demais produtos que estavam com preços altos demais.

Flaviano Salvador de Castro e Daniela Microni resolveram mudar o seu estilo de vida para conseguir conter os gastos. Foto: Mário Martins/Esp. EM/D.A. Press. (Mário Martins/Esp. EM/D.A. Press.)
Flaviano Salvador de Castro e Daniela Microni resolveram mudar o seu estilo de vida para conseguir conter os gastos. Foto: Mário Martins/Esp. EM/D.A. Press.

Outra mudança de hábito ocorreu com a alimentação e diversão fora de casa. “Quando um produto está caro, trocamos por outro de preço menor. Além disso, reduzimos nossas saídas à noite e almoço fora de casa nos fins de semana”, diz Flaviano de Castro. Segundo ele, antes os dois saíam três vezes durante a semana e almoçavam fora todo sábado e domingo. “Agora só comemos fora no domingo, e olhe lá. Muitas vezes a gente vai para a casa da sogra. Estamos economizando mais de R$ 1.000 ao mês.”

Os hábitos se modificaram também no que se refere à escolha dos lugares onde eles fazem compras, que antes eram realizadas em qualquer supermercado, mesmo em estabelecimentos que sabidamente praticam preços salgados e nos quais a ampla oferta de produtos de qualidade e importados é muito mais tentadora. “As compras a gente fazia em qualquer lugar, sem pensar nos preços. Agora essa situação é completamente diferente”, afirma o empresário.

Compras e viagens suspensas

As viagens de férias, a reforma do banheiro e a troca do som da sala estão suspensas por tempo indeterminado na casa dos Medeiros. A família promete não cair em tentação, mesmo diante das ofertas de parcelamentos a perder de vista. Um acordo doméstico, fechado sem muita alternativa, permite que o pagamento de uma ou outra conta atrase nos próximos meses, com exceção das faturas de água e luz. Será a única forma de a receita continuar cobrindo as despesas.

O vale-alimentação do administrador Rodrigo Medeiros, de 34 anos, dura menos a cada mês. Nas idas ao supermercado, para baratear as compras, o responsável pela renda da casa passou a colocar no carrinho produtos de marcas menos conhecidas. “O problema é que, desta vez, ninguém gostou do suco”, conta o pai, tentando levar a situação numa boa. “Não adianta desesperar. Temos é que agradecer, sempre”, emenda a mulher, Patrícia, 41.

Mesmo com as substituições, a família não tem escapado de um aumento em torno de 15% nos gastos com alimentação. “Está tudo muito caro, não só o tomate”, comenta Rodrigo. Com as contas apertadas, o tradicional almoço de domingo em um restaurante também teve de ser cortado. A tevê por assinatura é a única despesa considerada supérflua da qual, por ora, a família não abre mão.

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