O sertão mudou. Em vez do engenho de cana de açúcar, os novos empreendedores e seus negócios científicos tomaram conta
Foto: Estevam Avellar / TV Globo
O jagunço usa o photoshop
para se encaixar ao lado da mocinha na foto. O coronel planta uvas
irrigadas e exporta vinho. A mocinha sertaneja pratica bungee jump e
estudou na Itália. O herói é sommelier. Os cavalos agora são mototáxis. A
quenga fuma e cospe como um Josey Wales da Boca do Lixo.
O sertão mudou. Em vez do engenho de
cana de açúcar, os novos empreendedores e seus negócios científicos
tomaram conta. Mas a moral arcaica e o apego das elites ao poder
permanecem os mesmos - o novo empreendedor continua decidindo a sorte do
“súditos” como um Rei Salomão de iPad. Marido bateu na mulher?
“Descubra qual dos dois está mentindo e demita”, diz Jaime (Murilo
Benício) ao capanga.
Talvez a minissérie Amores Roubados (que
estreou na segunda-feira, 6, na TV Globo) seja a primeira a atualizar o
cenário das antigas tragédias coronelistas da literatura regional
brasileira. O novo coronel conhece normas administrativas da FGV, mas
continua cuidando para que nunca haja igualdade social, racial ou de
gênero no seu terreiro. O arcaico transcende o moderno.
Parece um western caboclo, mas, se o
espectador já viajou entre Jacobina e Juazeiro (BA), região das
filmagens, reconhecerá aqueles cânions fabulosos, as cachoeiras, a terra
desértica, os lagos, a poeira e o verde. Tudo existe e coexiste
magnificamente extremos geminados.
No ritmo, em vez de embarcar no já
clichê do vácuo tarantiniano, de ação vertiginosa, o diretor José Luiz
Villamarin opta por um olhar mais retrô, mais cinemanovista.
Vindo logo após a capenguíssima novela
de Walcyr Carrasco, Amores Roubados, aparece na tela como um bálsamo.
Cauã Reymond faz Leandro, um Don Juan com noção zero de autopreservação.
Transa com Celeste (Dira Paes), casada com Deodoro (Osmar Prado) seja
na vastidão de um certo Posto Divisa ou na adega do marido. Envolve-se
ainda com mãe, Isabel (Patricia Pillar), e filha, Antonia (Isis
Valverde). Como mãe de Leandro e cafetina, Cássia Kis dá um banho de
secura e constrição. Os sotaques fingidos não fingem demais, não chegam
ao grau Viúva Porcina de dicção. Não ofendem nem maltratam os ouvidos.
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