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Na quarta-feira (29), o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, usou o Facebook para anunciar que Miguel, o filho recém-nascido, tem síndrome de Down. É o quinto filho do casal.

Renata, a primeira-dama, tem 46 anos. Mulheres jovens podem gerar bebês com a síndrome, mas o risco aumenta gradualmente com a idade. Aos 20 anos, a probabilidade de ter um filho com Down é de 1 para 1.600. Aos 35 anos, é de 1 para 370. Na idade de Renata, o risco é estimado em cerca de 1 para cada 100 nascimentos.
Como qualquer bebê nascido com essa condição, Miguel vai precisar de cuidados especiais. Pediatra especializado, fisioterapeuta, fonoaudióloga, acompanhamento da condição cardíaca etc.
Como qualquer bebê nascido com essa condição, Miguel vai precisar de cuidados especiais. Pediatra especializado, fisioterapeuta, fonoaudióloga, acompanhamento da condição cardíaca etc.
Com acesso a recursos e atenção, esses bebês têm totais condições de ter uma vida digna e feliz. Em muitos casos, o desenvolvimento é comprometido por falta de recursos. As famílias e associações de portadores da síndrome sabem disso muito bem. Não vai demorar para que elas enxerguem em Campos um padrinho estratégico.
Foi assim com o deputado federal Romário (PSB-RJ). Desde o nascimento da filha Ivy, com síndrome de Down, Romário se aproximou da luta das famílias por saúde e outros direitos fundamentais. Recentemente, apresentou um projeto de lei que prevê a simplificação do processo de importação de mercadorias destinadas à pesquisa científica.
O apoio de padrinhos, patronos, aliados é fundamental na luta por visibilidade e verbas. Cada doença tem suas associações de pacientes e elas disputam nacos do orçamento público (a síndrome de Down não é uma doença, mas costuma acarretar problemas de saúde que exigem cuidados especiais).
Não deveria ser assim, mas é assim que gente funciona. Só somos capazes de sentir a dor do outro quando ela se torna próxima e palpável.
Não deveria ser assim, mas é assim que o Brasil funciona. Quase nada vai para frente sem um padrinho. Se ele for uma celebridade influente, é ótimo. Se for uma autoridade (com cargo no legislativo ou no executivo), melhor ainda.
É natural que uma mãe batalhe por atenção e recursos para a questão que a aflige. É compreensível que o problema de cada um seja percebido por ele mesmo como o mais importante do mundo.
Esse comportamento é o esperado de cada mãe. De quem administra os recursos públicos, espera-se isenção. O dinheiro da saúde precisa ser distribuído de acordo com critérios técnicos.
Um dos principais é o que avalia o custo de determinada intervenção e o benefício que ela é capaz de oferecer. O governo deve bancar um novo serviço ou tratamento se o dinheiro investido nele for pouco diante do tamanho do benefício e da quantidade de pessoas atendidas.
Isso é feito com método. Um exemplo é a ferramenta que permite simular e prever o número de anos vividos com qualidade a partir da adoção de um novo medicamento ou tecnologia.
Em países com sistemas de saúde mais eficientes que o nosso, as decisões são baseadas nesses estudos. É o caso do Reino Unido. O Nice, o órgão que faz as avaliações técnicas e diz ao governo se ele deve ou não adotar uma nova droga reivindicada pelos doentes, é odiado pelas associações de pacientes. É frequentemente acusado de fazer avaliações frias e não levar em consideração o sofrimento das pessoas.
Por mais duras e impopulares que sejam essas avaliações, elas representam a forma mais justa de distribuir recursos limitados e de reduzir as iniquidades da saúde — tão presentes no Brasil. Apesar de todo preconceito contra elas, a matemática e a estatística podem ser grandes instrumentos de justiça social.
Desde 2011, uma comissão que faz análises técnicas semelhantes às do órgão britânico aconselha o Ministério da Saúde sobre as novas tecnologias que devem ou não ser adotadas. É um bom começo.
No Brasil, em todas as esferas de poder, as decisões de saúde (que deveriam ser técnicas) são altamente impregnadas pelo jogo político. O que vale é a projeção, a eleição, a reeleição. Se quisermos penetrar no submundo, há também a corrupção.
Nesse ambiente, o jeitinho, o telefonema, a comoção social costumam encurtar caminhos para quem busca a garantia ou a ampliação de direitos. Um padrinho influente é providencial.
Nesse ambiente, o jeitinho, o telefonema, a comoção social costumam encurtar caminhos para quem busca a garantia ou a ampliação de direitos. Um padrinho influente é providencial.
Crianças com síndrome de Down ou outras necessidades de saúde podem despertar nos pais uma disposição ímpar para o engajamento social e político. Não só isso. Cada pai e mãe reagem de um jeito. Cada família funciona a sua maneira.
Não é incomum que o casal se sinta apreensivo ou desanimado logo após o diagnóstico ou depois do parto. Muitos passam pelas fases de negação, raiva e depressão. Até que surgem a aceitação e o entendimento. O importante, como menciona esse texto do Movimento Down, é se deixar conquistar pelo bebê.
A maioria dos pais supera a tristeza inicial quando o filho começa a interagir, sorrir e brincar. Aos poucos, ele conquista toda a família. A informação sobre a síndrome de Down é fundamental para acalmar as pessoas e fazer com que elas enxerguem todas as potencialidades do bebê que nasceu ou vai nascer.
Além de começar a se interessar pelo jogo político, é hora de esquecer o rótulo associado à síndrome e conhecer a personalidade da criança. Muitas vezes, uma personalidade apaixonante.
(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras no site da revista època)
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