quarta-feira, 28 de agosto de 2024

EMPRESÁRIO ROBERTO FONTES UM VICE QUE MARCOU ÉPOCA EM PERNAMBUCO

O empresário Roberto Fontes, natural de Caruaru, faleceu ontem aos 83 anos, deixando uma história marcada por seu papel como vice-governador de Pernambuco durante a gestão de Joaquim Francisco, entre 1991 e 1994. A relação entre Fontes e Joaquim foi, desde o início, repleta de tensões e desconfianças, que culminaram em um conflito permanente durante o mandato.

Joaquim Francisco, que sempre manteve uma postura rígida e controlada, nunca se sentiu totalmente à vontade com a presença de Fontes. Mesmo com o vice-governador ocupando um cargo estratégico, a confiança de Joaquim sempre esteve em xeque. Em 1994, quando Joaquim teve a oportunidade de disputar o Senado ou a Câmara dos Deputados, ele optou por não renunciar ao cargo de governador, atitude que, na prática, impediu Fontes de assumir a administração do Estado durante os 11 meses que restavam do mandato. Essa decisão evidenciava o desconforto do governador em deixar o Estado sob a responsabilidade de seu vice.

A aversão de Joaquim a Fontes se manifestava de forma particularmente aguda durante as ocasiões em que precisava viajar e deixar o governo nas mãos do vice. Roberto Fontes, conhecido por seu estilo de vida boêmio e por ser casado pela segunda vez com uma mulher muito mais jovem, utilizava as áreas de recepção do Palácio do Campo das Princesas para promover banquetes regados a bom vinho e whisky escocês, com a presença de amigos e aliados políticos. Os almoços e jantares, realizados no icônico Salão das Bandeiras, se tornaram um ponto de discórdia constante. Joaquim, por sua vez, desaprovava veementemente esses eventos, o que frequentemente o deixava irritado ao retornar ao Palácio.

A desavença entre os dois líderes não se limitava ao âmbito social, mas também se refletia nas tomadas de decisão. Fontes, ao exercer suas funções, frequentemente contrariava as diretrizes estabelecidas por Joaquim, o que apenas intensificava a tensão entre eles. Esse desgaste começou a se formar ainda durante a campanha eleitoral. Fontes, que tinha facilidade em fazer contatos no meio empresarial, frequentemente se envolvia em negociações que deixavam Joaquim desconfortável, situação que só se agravou após a posse.

A escolha de Roberto Fontes como vice-governador foi uma surpresa para muitos aliados de Joaquim Francisco. Deputados federais como Ricardo Fiúza, Gilson Machado e José Mendonça, figuras proeminentes e conservadoras da política pernambucana, esperavam que o posto fosse ocupado por um nome mais alinhado ao macielismo, como Joel de Hollanda, então ex-secretário de Educação. No entanto, Fontes foi escolhido por ser irmão de Lourinaldo Fontes, um empresário bem-sucedido em Pernambuco com fortes ligações com o ex-presidente Fernando Collor de Mello e o empresário PC Farias, figura central na campanha de Collor. A proximidade entre Roberto Fontes e esses personagens influentes acabou por prevalecer na decisão de Joaquim.

A convivência no governo foi difícil para Joaquim, que era constantemente confrontado pelo estilo independente e, por vezes, irreverente de Fontes. A relação já conflituosa azedou ainda mais com o tempo, e o vice-governador, apesar de manter um comportamento sempre animado e otimista, não era do agrado de Joaquim. Esse descontentamento ficou tão evidente que até os aliados mais próximos do governador sabiam da insatisfação. Joaquim, que nunca escondeu sua aversão ao estilo de vida e às decisões de Fontes, frequentemente se queixava de sua conduta, tanto em público quanto nos bastidores do governo.

Apesar de todas as divergências, Roberto Fontes sempre se destacou como uma figura de alto astral, apaixonado por sua terra natal, Caruaru, e por suas tradições. Era conhecido por seu amor pelas fazendas, vaquejadas e festas de peão, além de seu gosto por encontros regados a boas histórias e piadas sobre seus adversários políticos. Sua personalidade boêmia e expansiva contrastava com a austeridade de Joaquim Francisco, criando um cenário de constante atrito entre os dois.

Outro aspecto curioso de Roberto Fontes era sua obsessão por aviação. Durante a campanha eleitoral, gostava de ocupar a cadeira de copiloto em pequenas aeronaves, como o modelo Sêneca, que usava para visitar o interior de Pernambuco. Essa paixão, no entanto, muitas vezes testava a paciência dos pilotos, que tinham que lidar com sua insistência em aprender a pilotar. Seu entusiasmo só era contido pelo "puxão de orelha" de sua esposa, Ana, que acompanhava de perto as aventuras do marido.

Assim, a trajetória de Roberto Fontes como vice-governador foi marcada por conflitos e controvérsias, mas também por sua personalidade única e carismática, que deixará lembranças na política pernambucana.

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