Durante o ato, o ex-presidente centrou seu discurso em ataques ao STF e na estratégia de recuperar influência política por meio do Congresso Nacional. “Se vocês me derem, por ocasião das eleições do ano que vem, 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil”, afirmou, em tom desafiador. “Não interessa onde eu esteja. Aqui ou no além, quem estiver na liderança (do Congresso) vai mandar mais que o presidente da República”, declarou, sugerindo que, mesmo inelegível até 2030, seu grupo pode se manter no centro das decisões do país.
Bolsonaro, que é réu no Supremo Tribunal Federal e alvo de investigações por tentativa de golpe de Estado, tem buscado rearticular sua base política mirando o pleito de 2026. Para isso, aposta na eleição de aliados com vistas a compor uma maioria no Senado que, em tese, poderia avançar até mesmo com pedidos de impeachment contra ministros do STF — especialmente Alexandre de Moraes, relator das ações sobre os atos antidemocráticos de 2023. Esse movimento evidencia uma estratégia de pressão institucional em meio ao avanço dos processos judiciais contra ele.
A manifestação, que teve a presença do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, incluiu pedidos explícitos de anistia aos condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes. “A gente está aqui para pedir anistia e pacificação”, disse Tarcísio, tentando suavizar o tom do ato, ainda que em consonância com as bandeiras do bolsonarismo. A retórica pacificadora, no entanto, contrastava com cartazes, falas e palavras de ordem que atacavam diretamente o Supremo Tribunal Federal e exaltavam a possibilidade de retaliação institucional por meio da eleição de parlamentares fiéis ao ex-presidente.
Apesar do visível esvaziamento, Bolsonaro preferiu ignorar a baixa adesão e manteve o tom de provocação à oposição. “Faço um desafio à esquerda de colocar nas ruas um terço da quantidade de gente que nós colocamos”, disse, tentando minimizar a queda expressiva de público. A comparação com atos anteriores evidencia essa tendência: em fevereiro de 2024, mais de 185 mil pessoas passaram pela Avenida Paulista em um protesto semelhante; em abril, o número caiu para 44,9 mil; agora, não passou de 12,4 mil, segundo os dados do monitor da USP.
O recuo na mobilização não impede Bolsonaro de tentar manter o controle narrativo sobre a direita no Brasil. A manifestação de domingo serviu também como palanque simbólico para fortalecer sua imagem junto ao núcleo duro de apoiadores, mesmo diante de crescentes dificuldades jurídicas e políticas. Enquanto tenta evitar a prisão e reverter sua inelegibilidade, o ex-presidente age nos bastidores para montar uma bancada forte no Congresso, com o objetivo de influenciar os rumos do país, mesmo fora do Planalto. A Avenida Paulista, embora menos cheia, segue como palco central dessa tentativa de manter o bolsonarismo vivo e combativo no imaginário popular e no jogo institucional.
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