O gesto ganhou contornos ainda mais sensíveis diante do cenário alarmante vivido pelo Estado. Até novembro de 2025, Pernambuco contabilizou 82 feminicídios, superando todo o número registrado em 2024. Na prática, os dados revelam uma mulher assassinada a cada quatro dias, além do crescimento expressivo das denúncias de violência doméstica, refletido no aumento das ligações ao Ligue 180. Em meio a esse quadro, a recusa de um equipamento voltado justamente para ampliar a capacidade de resposta do poder público levanta questionamentos sobre prioridades administrativas e compromisso efetivo com a pauta.
A iniciativa do Governo de Pernambuco, liderado pela governadora Raquel Lyra, tem sido apresentada como um esforço concreto de interiorização e fortalecimento das políticas para mulheres. Além da entrega de veículos aos municípios, o Estado ampliou significativamente o orçamento da Secretaria da Mulher, que saltou de R$ 22,6 milhões em 2023 para R$ 85 milhões em 2025. A estratégia busca estruturar organismos municipais, garantir mobilidade às equipes técnicas e ampliar o alcance das ações de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas.
No mesmo evento, apenas outro município, Tacaimbó, também deixou de receber o veículo. No entanto, o peso político da decisão do Recife é consideravelmente maior. Capital do Estado, maior colégio eleitoral de Pernambuco e administrada por um prefeito que se coloca como pré-candidato ao Governo em 2026, a recusa ganha dimensão simbólica e eleitoral. Para aliados do Palácio e observadores da cena política, o gesto abre espaço para a interpretação de que a gestão municipal optou por se ausentar de uma ação estratégica justamente em um momento de emergência social.
Nos bastidores, o contraste é evidente. Enquanto o governo estadual reforça o discurso de prioridade absoluta à proteção das mulheres com ações concretas e ampliação de recursos, a escolha da Prefeitura do Recife passa a ser vista como um ruído difícil de explicar à população. Em um Estado onde os números da violência falam por si, a ausência em iniciativas desse porte acaba tendo um peso que vai além do administrativo e alcança o campo moral e político.
A política, como se diz nos corredores do poder, é feita de gestos, escolhas e sinais. Em tempos de dados tão duros e de uma realidade que cobra respostas urgentes, deixar de integrar uma ação voltada ao enfrentamento do feminicídio não passa despercebido. Quando o assunto é salvar vidas, a ausência não é neutra — ela comunica, e comunica alto.
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