quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

CAMINHADA DE NIKOLAS FERREIRA INTERROMPE CLIMA DE DISTENSÃO E ESFRIA POSSIBILIDADE DE BOLSONARO IR PARA PRISÃO DOMICILIAR

Um movimento político que começou nas estradas de Minas Gerais tem reflexos diretos nos bastidores do Supremo Tribunal Federal e acabou atravessando uma articulação silenciosa que poderia beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro. A caminhada liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) até Brasília, marcada por duras críticas ao STF e às condenações dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, mudou o ambiente de diálogo que vinha sendo cuidadosamente construído entre aliados do ex-presidente e a Corte.

Nos últimos dias, conforme apurado por interlocutores do Judiciário, havia um esforço discreto de setores mais moderados do bolsonarismo para reduzir tensões institucionais. À frente dessa tentativa estavam a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o frei Gilson, figuras que buscavam estabelecer uma ponte de diálogo com ministros do Supremo, apostando em uma postura menos confrontacional. O objetivo era criar um ambiente favorável para discutir uma eventual progressão da pena de Bolsonaro, incluindo a possibilidade de prisão domiciliar, a depender de avaliações jurídicas e políticas.

Esse cenário, no entanto, começou a ruir a partir do momento em que Nikolas Ferreira colocou o protesto em marcha. A caminhada, apresentada como um ato simbólico contra o STF e em defesa dos condenados pelos atos antidemocráticos, reacendeu críticas públicas à Corte justamente quando o discurso de pacificação ganhava espaço nos bastidores. Para ministros do Supremo, a retomada do tom agressivo foi interpretada como uma tentativa de pressão política, algo que costuma produzir o efeito contrário dentro do tribunal.

Magistrados ouvidos reservadamente avaliam que qualquer sinal de flexibilização no cumprimento da pena de Bolsonaro, em meio a uma mobilização que confronta diretamente o STF, poderia passar a imagem de que a Corte estaria cedendo a manifestações políticas. Esse risco institucional teria pesado para esfriar qualquer avanço nas conversas, ainda que informais, sobre a situação do ex-presidente.

A leitura predominante no Supremo é de que decisões sensíveis, como a concessão de prisão domiciliar, precisam ocorrer em um ambiente de estabilidade e respeito institucional, sem ruídos externos que coloquem em dúvida a independência do Judiciário. Nesse contexto, a caminhada de Nikolas acabou funcionando como um fator de tensão adicional, interrompendo o momento de maior moderação construído por aliados de Bolsonaro.

O episódio evidencia, mais uma vez, a divisão interna no campo bolsonarista entre os que defendem uma estratégia de confronto direto com o STF e aqueles que apostam na redução do embate como caminho para alcançar resultados práticos. Por ora, a ala mais ruidosa falou mais alto — e o custo político imediato foi o distanciamento de qualquer possibilidade concreta de Bolsonaro deixar a prisão para cumprir pena em casa.

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