terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CONCURSO, DESGASTE E SILÊNCIO: JOÃO CAMPOS NA DEFENSIVA EM MEIO A POLÊMICA QUE EXPLODIU ANTES DA HORA

O início do ano colocou o prefeito do Recife, João Campos (PSB), no centro de uma crise política que ultrapassa a rotina administrativa e atinge diretamente sua imagem pública. Um episódio envolvendo o concurso da Procuradoria do Município, que deveria ser tratado como um tema técnico e jurídico, acabou se transformando em combustível político num momento especialmente sensível para o gestor, que há cerca de dois anos passou a ser projetado — por aliados e pela própria equipe — como protagonista antecipado da eleição de 2026.

A controvérsia gira em torno da nomeação de um candidato que ocupava a 63ª colocação no certame para uma vaga destinada a pessoas com deficiência (PCD), ultrapassando concorrentes melhor posicionados. O caso ganhou repercussão após denúncias do vereador Eduardo Moura (Novo), que apontou uma sequência de fatos no mínimo estranhos. O candidato beneficiado é filho de um juiz que, ao assumir uma vara responsável por investigações envolvendo a Prefeitura do Recife, determinou a suspensão de uma apuração poucas horas depois de assumir o cargo.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o episódio pode até não configurar ilegalidade direta. Coincidências, por mais improváveis que pareçam, não são crimes por si só. No entanto, na política, a régua é outra. A percepção pública, o simbolismo dos atos e o contexto em que eles ocorrem pesam tanto quanto documentos e pareceres técnicos. E é exatamente aí que o caso se torna explosivo.

A Câmara Municipal passou a ser o palco natural para o debate, com a oposição cobrando explicações mais profundas e defendendo a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Em situações como essa, a transparência costuma ser o melhor antídoto. Mas a reação do prefeito seguiu caminho oposto. Ao tratar o episódio como uma simples “narrativa eleitoral”, João Campos evitou responder questões centrais e adotou um tom defensivo que não ajudou a dissipar as suspeitas.

A resistência em liberar a base aliada para apoiar a CPI acabou ampliando o desgaste. Para críticos e parte da opinião pública, a recusa em investigar passa uma mensagem perigosa: a de que pode haver algo a esconder. Mesmo que não haja qualquer irregularidade, o gesto político fala mais alto. Uma CPI, se concluísse rapidamente pela inexistência de problemas, poderia encerrar o assunto. Bloqueá-la mantém o tema vivo e alimenta o noticiário negativo.

O episódio evidencia o risco de antecipar o debate eleitoral. Ao ser tratado como candidato natural a voos mais altos com tanta antecedência, João Campos passou a ser observado com lupa redobrada. Decisões administrativas comuns ganham contornos políticos, e qualquer ruído vira munição. Em vez de blindagem, a projeção precoce acabou criando vulnerabilidades.

Com a pressão crescendo dentro e fora da Câmara, o prefeito enfrenta agora o desafio de recuperar o controle da narrativa. O caso do concurso já deixou de ser apenas um questionamento administrativo e se transformou em um teste de transparência, postura e maturidade política. E, num cenário em que a campanha parece ter começado cedo demais, cada silêncio pesa, cada gesto conta e cada escolha tem impacto direto no futuro.

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