No centro dessa turbulência, a Polícia Civil de Pernambuco acabou arrastada para o epicentro do embate, após a divulgação de uma reportagem televisiva que sugeriu a existência de uma suposta “espionagem” envolvendo agentes do Estado. A reação foi imediata. O prefeito João Campos divulgou vídeo afirmando que tomará providências e reforçando que “em política não vale tudo”, associando o episódio a práticas que classificou como perseguição política.
A declaração ganhou eco na Assembleia Legislativa. O presidente da Alepe, deputado Álvaro Porto (PSDB), divulgou nota repudiando o que chamou de uso indevido da Polícia Civil para investigar adversários políticos, defendendo esclarecimentos por parte do Governo do Estado e afirmando que a situação remeteria a “outros tempos” da política pernambucana.
Entretanto, o debate ganhou um novo e decisivo capítulo com a entrada de Manuel Medeiros. Economista e ex-integrante da Casa Civil do Governo de Pernambuco, Manuel divulgou um vídeo nas redes sociais reagindo diretamente à postura do presidente da Alepe. Em tom firme, ele acusou Álvaro Porto de adotar “dois pesos e duas medidas” ao tratar do tema. Segundo Manuel, quando os alvos são adversários políticos do PSB, o discurso muda, e práticas semelhantes teriam sido relativizadas ou ignoradas.
No relato, Manuel Medeiros afirmou ter sido alvo, no passado, de ações de monitoramento e perseguição, inclusive com a exposição de sua rotina, vazamento de dados e imagens de seu cotidiano, chegando a citar episódios ocorridos em uma lan house dentro de um shopping no Recife. Para ele, há uma tentativa clara de criminalizar a atuação policial apenas quando a investigação se aproxima de determinados grupos políticos. “Quando a polícia chega mais perto de João, o desespero aumenta”, afirmou, sugerindo que fatos antes desconectados começam agora a se encaixar como peças de um quebra-cabeça político.
Enquanto o embate retórico se intensificava, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco se posicionou de forma objetiva. O secretário Alessandro Carvalho negou categoricamente qualquer uso da Polícia Civil para fins de espionagem política. Segundo ele, a atuação citada tratou-se de um serviço legal e lícito, iniciado a partir de denúncia anônima, devidamente apurada dentro dos protocolos institucionais. A SDS também informou que o procedimento já foi encerrado e que a denúncia não se comprovou.
A defesa da Polícia Civil se torna central em um momento de elevada tensão política. Fontes ligadas à segurança pública reforçam que investigações seguem critérios técnicos, são submetidas a controle interno, ao Ministério Público e ao Judiciário, não podendo ser confundidas com perseguição política apenas por atingirem figuras públicas. Transformar ações legais em instrumentos de disputa eleitoral, alertam especialistas, representa risco à credibilidade das instituições e à própria democracia.
O episódio evidencia que a campanha de 2026 começou muito antes do calendário oficial. A troca de acusações, que historicamente ganhava força apenas após o Carnaval, agora se instala já nos primeiros dias do ano, num ambiente marcado por redes sociais, vídeos virais e disputas de narrativa.
Em meio a esse cenário, a Polícia Civil de Pernambuco se vê pressionada por discursos políticos antagônicos, mas respaldada oficialmente pelo Governo do Estado, que reafirma a legalidade de suas ações. No calor da pré-campanha, preservar a atuação técnica das instituições passa a ser um dos maiores desafios, para que o debate eleitoral não ultrapasse limites e comprometa estruturas fundamentais do Estado.
Com pesquisas ainda por vir e um eleitorado que começa lentamente a voltar sua atenção para o processo eleitoral, Pernambuco entra em 2026 com um sinal claro: a disputa será dura, antecipada e marcada por confrontos intensos. E, nesse tabuleiro, a tentativa de instrumentalizar instituições como a Polícia Civil pode acabar produzindo efeitos opostos aos desejados por quem aposta no confronto como estratégia.
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