Na lógica da política, nem todo processo nasce para chegar ao fim. Muitos morrem nos bastidores, arquivados silenciosamente. No entanto, alguns cumprem um papel simbólico poderoso: o de criar percepções, alimentar sentimentos e influenciar o imaginário do eleitor. É nesse campo que o pedido de impeachment passa a ter relevância, funcionando como um instrumento de disputa narrativa em um momento sensível do jogo político.
João Campos mantém alta aprovação na capital pernambucana, onde foi reeleito no primeiro turno e segue sendo visto como símbolo de renovação política e herdeiro de um projeto nacional do PSB. No Recife, sua força permanece sólida. O desafio, contudo, está fora da capital. Pernambuco é majoritariamente interiorano, e é justamente nesse território que começam a surgir sinais de hesitação em relação à sua imagem.
Pesquisas qualitativas já indicam percepções que, embora ainda não comprometam sua popularidade, acendem um alerta estratégico. Expressões como “excesso de marketing”, “desconfiança de corrupção” e “envolvimento em escândalos” aparecem com mais frequência em segmentos do eleitorado fora da Região Metropolitana. Isoladamente, esses sentimentos não derrubam um gestor bem avaliado, mas podem funcionar como freio ao crescimento onde ele mais precisa avançar para se consolidar como liderança estadual.
Enquanto isso, a governadora Raquel Lyra (PSDB) ocupa espaços tradicionalmente associados à força do PSB. A gestão estadual vem intensificando ações na segurança pública, ampliando a presença institucional na Região Metropolitana do Recife e construindo a imagem de uma administração que “arrumou a casa e começou a trabalhar”. Esse movimento tem aproximado a governadora do eleitorado urbano e reduzido distâncias em territórios onde João Campos ainda lidera.
O surgimento do pedido de impeachment coincide exatamente com esse momento de aproximação nas pesquisas, o que reforça a leitura de que o episódio tem menos peso jurídico e mais impacto político. Trata-se de um fator simbólico que entra no tabuleiro para tensionar a imagem do prefeito e testar sua capacidade de reação fora da bolha recifense.
No pano de fundo, o jogo é direto e sem espaço para ingenuidade. João Campos precisa romper suas próprias barreiras e avançar de forma consistente no interior do estado, onde o voto é decisivo. Raquel Lyra, por sua vez, tem como missão quebrar o cinturão histórico do PSB na Região Metropolitana do Recife, reduto que sempre foi determinante nas eleições estaduais.
Quem conseguir atravessar o território político do adversário não apenas ganhará vantagem na disputa pelo Governo de Pernambuco, como poderá projetar seu nome para além das fronteiras estaduais, entrando no radar nacional com vistas a 2030. O impeachment, nesse contexto, é menos um fim e mais um sinal de que a disputa já começou.
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