sábado, 31 de janeiro de 2026

MONZA NAS ALTURAS: O DIA EM QUE A CHEVROLET LEVOU UM CARRO AO TOPO DO CORCOVADO EM UBATUBA

No início dos anos 1990, quando a publicidade automotiva brasileira vivia uma fase de ousadia criativa e grandes produções, a Chevrolet decidiu transformar um comercial de 30 segundos em uma verdadeira operação de engenharia. O protagonista era o Monza, um dos carros mais desejados da época, e o cenário escolhido não poderia ser mais simbólico: o topo do Pico do Corcovado, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.

A ideia era simples no conceito e gigantesca na execução. Colocar o carro no alto de uma montanha de difícil acesso representava, de forma visual e direta, a posição de liderança da Chevrolet no mercado nacional. Mas entre a concepção criativa e a imagem final exibida na TV, houve uma complexa operação logística que mais parecia missão de cinema do que gravação publicitária.

Para viabilizar a cena, uma equipe técnica completa de áudio e vídeo foi mobilizada, além de profissionais especializados em transporte aéreo de carga. O Monza não subiu a montanha rodando — na verdade, ele nem sequer estava inteiro. Antes da operação, o veículo passou por um processo de “emagrecimento”: portas, capô, bancos, vidros e vários acessórios foram retirados. O motor também ficou de fora. Restou basicamente a carroceria, preparada para ser içada.

O transporte foi feito com o auxílio de um helicóptero equipado com cabos de aço, que ergueu a estrutura do carro até o topo do Corcovado. A imagem do automóvel suspenso no ar, cruzando o céu rumo à montanha, já era por si só digna de roteiro publicitário. Lá em cima, a equipe remontou o Monza apenas com os elementos necessários para a aparência externa. O carro não funcionava — era, naquele momento, um símbolo estático, construído exclusivamente para a câmera.

As filmagens exploraram ao máximo a imponência do local. O contraste entre o automóvel e a paisagem natural reforçava a mensagem pretendida: o Monza estava no topo, acima de todos, em um lugar onde poucos chegavam. A metáfora era clara e dialogava diretamente com o cenário do mercado automotivo brasileiro, que vivia um dos períodos mais competitivos de sua história.

Concluída a gravação, o processo foi todo revertido. O veículo foi novamente desmontado no alto da montanha e transportado de volta, peça por peça, seguindo rigorosos protocolos de segurança. Nada foi deixado para trás, e a natureza do local foi preservada após a ação.

O comercial começou a ser exibido amplamente a partir de 1994 e rapidamente se tornou um dos filmes publicitários mais marcantes da Chevrolet no Brasil. Produzido pela agência McCann Erickson, hoje McCann World Group, ele ganhou ainda mais força com a narração do locutor Ferreira Martins, cuja voz grave e imponente ajudou a eternizar a peça na memória do público.

Mais do que vender um carro, a campanha vendeu uma imagem de supremacia. Ao colocar o Monza literalmente nas alturas, a Chevrolet transformou uma montanha em metáfora de mercado e fez da publicidade um espetáculo logístico, visual e simbólico que até hoje é lembrado como um dos feitos mais curiosos e ousados da propaganda automotiva nacional.

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