sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

RAQUEL LYR APOSTA EM COMPARAÇÃO COM O PASSADO, AMPLIA ALIANÇAS E AQUECE O TABULEIRO POLÍTICO do

A visita da governadora Raquel Lyra (PSD) a Serrita, no Sertão pernambucano, nesta semana, foi muito além do anúncio administrativo de R$ 4,8 milhões em investimentos para o município. O ato acabou se transformando em um palanque político simbólico, onde discursos, gestos e presenças revelaram o tom que deve marcar a disputa estadual nos próximos meses: a comparação direta entre a atual gestão e o governo do ex-governador Paulo Câmara, além da formação de uma base ampla e heterogênea em torno da reeleição da gestora.

O momento que mais chamou atenção veio do deputado estadual Aglailson Victor (ainda no PSB, mas politicamente afastado da sigla). Em um discurso carregado de recado político, ele fez questão de estabelecer um contraste explícito entre os dois períodos administrativos que vivenciou como parlamentar. Ao afirmar que “a diferença é enorme”, Aglailson não deixou dúvida de que seu elogio à atual governadora vinha acompanhado de uma crítica direta à gestão anterior.

Segundo o deputado, durante o governo Paulo Câmara havia dificuldade para que promessas de emendas parlamentares destinadas aos municípios se concretizassem. Ele relatou que acordos firmados com prefeitos frequentemente ficavam apenas na conversa, algo que, na avaliação dele, mudou sob a condução de Raquel Lyra. A fala não foi casual nem isolada: ela reforça uma narrativa que vem sendo construída por aliados da governadora, de que a atual gestão tem perfil mais municipalista e aberto ao diálogo com parlamentares.

A posição de Aglailson carrega também um forte componente local. Derrotado na disputa pela Prefeitura de Vitória de Santo Antão em 2024, ele rompeu politicamente com o PSB ainda durante o processo eleitoral municipal. Nos bastidores, analistas enxergam na aproximação com Raquel Lyra uma mistura de reposicionamento estratégico e reação às derrotas recentes, especialmente diante do fortalecimento do grupo do prefeito Paulo Roberto (MDB), aliado do prefeito do Recife, João Campos (PSB).

Esse pano de fundo ajuda a explicar o tom mais ácido das comparações feitas no palanque de Serrita. Para observadores da cena política, há um claro sentimento de revanche em curso. A derrota acachapante em 2024 ainda pesa sobre o grupo de Aglailson, que viu seu capital político encolher justamente em sua principal base eleitoral. A mudança de discurso e de alianças, portanto, não é vista apenas como ideológica, mas também como parte de uma reconfiguração de sobrevivência política.

A estratégia de contraste com o passado também apareceu na fala do secretário de Meio Ambiente e Fernando de Noronha, Daniel Coelho. Em entrevistas recentes, ele tem reforçado a ideia de que o modelo de gestão atual difere do que foi praticado pelo PSB no Palácio do Campo das Princesas. Daniel foi além e inseriu o prefeito do Recife, João Campos, nessa equação, ao lembrar que ele integrou a equipe de Paulo Câmara antes de se eleger deputado federal.

A menção não é despretensiosa. João Campos é apontado como o principal nome da oposição para enfrentar Raquel Lyra numa disputa estadual, e a vinculação dele ao governo passado deve se tornar uma das linhas centrais do embate político. Ao associar o prefeito recifense às decisões da gestão anterior, aliados da governadora tentam antecipar o debate eleitoral e colar em João a imagem de continuidade de um modelo que eles classificam como distante dos municípios.

Daniel Coelho, por sua vez, também tem interesses próprios nesse tabuleiro. Ex-deputado federal, ele ficou de fora da Câmara em 2022, apesar de ter obtido votação expressiva. Agora, trabalha nos bastidores para viabilizar um retorno à Câmara dos Deputados, em uma chapa alinhada à governadora. Sua presença constante em agendas e a defesa enfática da gestão indicam que ele pretende fazer campanha “colado” em Raquel Lyra, apostando na força da máquina estadual e na polarização com o grupo de João Campos.

Se os discursos já apontavam para o clima pré-eleitoral, a composição do palanque em Serrita escancarou o movimento de ampliação de alianças. Ao redor da governadora estavam nomes de partidos ideologicamente distintos, como PT, PL e PSB. Oficialmente, todos estavam ali para prestigiar o anúncio de recursos para o município, mas, politicamente, a imagem foi poderosa: Raquel Lyra demonstrando capacidade de dialogar com campos opostos e atrair apoios que ultrapassam fronteiras partidárias tradicionais.

A presença de Anderson Ferreira, do PL, pré-candidato ao Senado e que já se colocou como possível nome “avulso” na disputa majoritária, reforçou essa leitura. Mesmo com projetos próprios, ele dividiu espaço no evento, sinalizando que, ao menos no plano local e administrativo, há convergência de interesses. Para a governadora, esse tipo de cena ajuda a consolidar a imagem de liderança capaz de montar uma frente ampla em torno da reeleição.

Assim, o que parecia ser apenas mais uma agenda de entregas no interior acabou servindo como vitrine de um novo momento político em Pernambuco. Entre elogios estratégicos, críticas ao passado e alianças improváveis dividindo o mesmo palanque, Serrita virou palco de um ensaio claro do discurso e das articulações que devem dominar a próxima campanha estadual.

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