Campanhas eleitorais não são decididas pelo ponto de largada, mas pela trajetória. Essa é uma regra antiga, testada eleição após eleição, e frequentemente esquecida por quem lidera cedo demais. Largar na frente anima, empolga, cria clima de vitória antecipada, mas também engessa a narrativa. Quem começa embaixo pode vender crescimento, virada, fôlego e novidade. Quem começa muito alto passa a ser julgado apenas pelo que perde, nunca pelo que mantém.
Talvez esteja aí um dos principais equívocos estratégicos do PSB e da condução política do prefeito João Campos. Durante meses, pesquisas foram divulgadas como se fossem sentença final, mostrando vantagens que beiravam ou ultrapassavam os 40 pontos percentuais. Em alguns momentos, os números chegaram a patamares próximos de 70%, algo absolutamente fora da curva para uma disputa que ainda estava distante do calendário eleitoral oficial. A bolha interna se animou, a militância comemorou, mas a régua de comparação foi elevada a um nível perigoso.
Pesquisa não é problema. O problema é o tempo. Quando divulgada cedo demais, ela deixa de ser instrumento de análise e passa a ser armadilha narrativa. Com tanto chão pela frente, mostrar uma vantagem gigantesca pode ser menos eficiente do que parece. Afinal, eleição é processo, não fotografia. E fotografia antiga, em política, envelhece rápido.
O primeiro levantamento do Datafolha em 2026, divulgado nesta sexta-feira (6), expõe com clareza essa mudança de cenário. Em relação à pesquisa de outubro, João Campos recuou cinco pontos, saindo de 52% para 47%. Raquel Lyra, por sua vez, avançou exatamente cinco pontos, passando de 30% para 35%. A diferença continua significativa, ninguém questiona isso. Mas o dado mais relevante não está apenas na distância, e sim no sentido das curvas.
Em política, cresce quem dita a narrativa. E, neste momento, a narrativa favorece quem sobe. Mesmo estando atrás, o crescimento gera manchetes positivas, sensação de competitividade e expectativa de disputa real. Já a queda, ainda que pequena e dentro da margem de conforto, passa a ser lida como sinal de desgaste, de teto alcançado ou de fôlego menor do que o imaginado.
Há pelo menos dois anos, esta análise vem alertando para o risco da antecipação excessiva da campanha de João Campos. Ao exibir seu teto muito cedo, a equipe criou um cenário em que qualquer oscilação seria interpretada como perda. Não importa se a liderança permanece ampla; o imaginário coletivo passa a trabalhar com a ideia de “derretimento”, mesmo quando os números continuam altos.
Esse é o efeito clássico de uma bolha política. Enquanto ela cresce, tudo parece sólido. Quando estoura, a realidade aparece sem filtro. Não significa derrota, nem mudança brusca de favoritismo. Significa apenas que o jogo saiu do campo da empolgação e entrou no terreno duro da disputa real.
2026 chegou. Agora não é mais ensaio, nem campanha informal, nem teste de popularidade. É jogo valendo, com narrativa, estratégia, erros cobrados e acertos disputados diariamente. Quem entender melhor o próprio teto, respeitar o tempo da eleição e souber administrar expectativas terá vantagem. Quem continuar acreditando que o ponto de partida decide tudo corre o risco de descobrir, tarde demais, que eleição não se ganha no salto inicial, mas na linha de chegada.
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