As informações constam no VigiMed, sistema oficial de monitoramento de eventos adversos, e também em registros provenientes de estudos clínicos realizados no Brasil. Entre os fármacos citados nas notificações estão medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1, como semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida, hoje amplamente utilizados tanto no tratamento do diabetes quanto da obesidade.
Os relatos envolvem pacientes atendidos principalmente nos estados de São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal, embora a Anvisa não tenha divulgado a localização exata dos óbitos registrados. A agência reforça que todos os casos são classificados como suspeitos, ainda em análise técnica, e que não há, até o momento, comprovação definitiva de relação direta de causa e efeito.
O tema ganhou ainda mais visibilidade após um alerta emitido no Reino Unido, onde autoridades de saúde contabilizaram 19 mortes em usuários de medicamentos da mesma classe terapêutica. Apesar da repercussão internacional, tanto a Anvisa quanto especialistas brasileiros afirmam que os dados disponíveis não justificam a suspensão dos tratamentos, mas reforçam a necessidade de uso responsável, com prescrição médica e acompanhamento contínuo.
Segundo a agência reguladora, parte das notificações ocorreu após a comercialização dos produtos, enquanto outras foram registradas ainda durante pesquisas clínicas. Um ponto de atenção destacado é a dificuldade de vincular os casos a marcas específicas, já que há relatos de uso de medicamentos falsificados, manipulados ou irregulares, vendidos como se fossem versões originais. Estimativas apontam que o mercado ilegal dessas substâncias movimenta cerca de R$ 600 milhões por ano no Brasil.
Especialistas lembram que o risco de pancreatite não é desconhecido. A inflamação do pâncreas está descrita em bulas de alguns desses medicamentos como uma reação adversa incomum, porém possível. Além disso, não existem dados oficiais sobre o número total de usuários dessas terapias no país, o que impede calcular a real proporção de pacientes afetados.
Para Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), é preciso cautela antes de qualquer conclusão. Ele destaca que o público que utiliza esses medicamentos — pessoas com obesidade e diabetes — já apresenta, por si só, maior risco de desenvolver pancreatite, o que torna o acompanhamento médico ainda mais indispensável.
A Anvisa afirma que segue monitorando continuamente os registros e avalia que a exigência de retenção de receita médica, adotada em abril de 2025, foi uma medida importante para ampliar o controle e reduzir o uso indiscriminado. A agência não descarta novas ações regulatórias caso identifique aumento significativo de riscos à população.
Em escala global, os números também chamam atenção: já foram notificadas mais de 14,5 mil ocorrências de pancreatite associadas a esses medicamentos e 378 mortes. Para especialistas, o maior perigo está no uso sem orientação profissional, especialmente de produtos adquiridos fora dos canais oficiais, sem controle de dosagem e sem monitoramento de efeitos colaterais.
Os fabricantes, por sua vez, informam que acompanham permanentemente os dados de segurança e reforçam que a pancreatite está descrita nas bulas como um possível efeito adverso. As empresas orientam que pacientes sejam alertados sobre os sintomas e suspendam imediatamente o uso, procurando atendimento médico, caso haja suspeita de complicações.
Entre promessas de emagrecimento e alertas de saúde, o debate segue aberto. O consenso, por ora, é claro: não se trata de pânico, mas de prudência — e de lembrar que, na medicina, não existe atalho seguro sem acompanhamento adequado.
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