sábado, 21 de fevereiro de 2026

COLUNA POLÍTICA | A BRIGA PELO PALÁCIO AGORA É DE VERDADE| NA LUPA 🔎 | POR EDNEY SOUTO

NA ROTA DO PALÁCIO APÓS O CARNAVAL, PERNAMBUCO ENTRA DE VEZ NA DISPUTA PELO PODER

O Carnaval terminou, os trios elétricos foram recolhidos e os palcos desmontados, mas o clima de disputa só aumentou em Pernambuco. Longe de ser apenas festa, a folia de 2026 funcionou como vitrine estratégica para dois protagonistas que já polarizam os bastidores: a governadora Raquel Lyra (PSD) e o prefeito do Recife João Campos (PSB).

O que se viu nas ruas foi muito mais do que frevo e maracatu. Foi movimento calculado, gesto ensaiado e presença milimetricamente pensada. O Palácio do Campo das Princesas já está no horizonte — e o Carnaval foi o primeiro grande palco simbólico dessa corrida.

O GESTO QUE VALE MIL PALANQUES A DISPUTA PELA PROXIMIDADE COM LULA

O sábado de Zé Pereira trouxe a imagem mais emblemática da pré-disputa: Raquel e João lado a lado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no tradicional Galo da Madrugada.

Não foi apenas uma aparição protocolar. Foi um gesto político de alto simbolismo. Ambos buscaram ocupar espaço junto ao presidente, cientes de que o apoio de Lula pode pesar decisivamente na eleição estadual.

O detalhe mais estratégico foi a ausência de qualquer declaração pública de apoio por parte do presidente. O silêncio mantém o cenário aberto e preserva o Planalto como centro de gravidade da disputa. Lula segue cortejado — e confortável nessa posição.

RAQUEL NA ESTRADA: A ESTRATÉGIA DA INTERIORIZAÇÃO

A governadora apostou numa agenda extensa e territorialmente ampla. Do litoral ao Sertão, sua presença foi registrada em polos como Bezerros, Triunfo, Pesqueira e Aliança.

O movimento reforça uma linha estratégica: consolidar base fora da Região Metropolitana do Recife, onde o prefeito tem força natural. Ao circular pelo interior, Raquel busca dialogar com prefeitos, lideranças locais e eleitores que tradicionalmente definem o rumo da eleição estadual.

O MOVIMENTO NO TERRITÓRIO DO ADVERSÁRIO

O gesto mais comentado da governadora veio logo na abertura do Carnaval. Após participar da festa em Olinda ao lado da prefeita Mirella Almeida, Raquel seguiu para a Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo — território político de João Campos.

A travessia não foi casual. Foi leitura política clara: mostrar presença onde o adversário é mais forte. Fotos, cumprimentos e circulação estratégica marcaram o momento. Política também se faz por imagem — e a imagem foi construída.


JOÃO APOSTA NA FORÇA DA CAPITAL

Enquanto Raquel percorria o estado, João Campos concentrou energia no Recife. A capital é um dos maiores polos carnavalescos do Brasil e vitrine nacional da festa.

Ao associar a gestão municipal ao sucesso da organização, segurança e infraestrutura da folia, o prefeito reforçou a narrativa de capacidade administrativa. A lógica é simples: quem administra bem o Recife pode administrar Pernambuco.

A visibilidade diária nos polos fortaleceu sua presença pública e consolidou a capital como base sólida para um projeto maior.

RECIPROCIDADE POLÍTICA E SINAIS CRUZADOS

O prefeito também fez seu movimento simbólico ao circular pelas ruas históricas de Olinda, gesto interpretado como resposta à visita da governadora ao Recife.

Apesar disso, João evitou ampliar sua agenda pelo interior, preservando foco na Região Metropolitana. A escolha revela cautela: antes de expandir, é preciso consolidar terreno.

O RECADO NAS REDES: “TU VENS” COMO SINALIZAÇÃO

Nas redes sociais, João Campos apareceu diversas vezes balançando a bandeira de Pernambuco e cantando “Tu vens”, da música Anunciação, de Alceu Valença.

Para apoiadores, a repetição do verso não foi apenas entusiasmo carnavalesco. Foi mensagem política. Um sinal de que a candidatura ao governo pode estar a caminho. Na política moderna, redes sociais são palanque — e cada gesto comunica.

PRAZO DECISIVO: A CORRIDA CONTRA O RELÓGIO

João Campos enfrenta um marco crucial: para disputar o governo, precisa deixar a Prefeitura até 4 de abril, cumprindo o prazo de desincompatibilização.

Caso confirme a saída, o vice-prefeito Victor Marques (PCdoB) assume a gestão. A transição precisa ser suave para evitar desgaste. É um movimento de risco calculado: abrir mão da cadeira atual para disputar a próxima.

Raquel Lyra, por outro lado, tem a vantagem da reeleição. Pode permanecer no cargo durante a campanha, embora com restrições a inaugurações a partir de julho. Isso deve acelerar entregas e anúncios nos próximos meses.

JANELA PARTIDÁRIA E A MONTAGEM DAS CHAPAS

Entre março e abril, a janela partidária permitirá trocas de legenda sem perda de mandato. O período será decisivo para fortalecer bases e formar alianças.

As convenções começam em 20 de julho, o registro das candidaturas vai até 15 de agosto e a campanha inicia oficialmente no dia 16. O primeiro turno ocorre em 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro.

Até lá, muitos nomes ao Senado ainda devem ser filtrados. Cortes e rearranjos são inevitáveis. A formação das chapas será tão estratégica quanto a disputa majoritária.

O CARNAVAL FOI O ENSAIO, A CAMPANHA COMEÇOU

O que ficou claro após a folia é que a corrida pelo Governo de Pernambuco já saiu dos bastidores. O Carnaval funcionou como prévia simbólica da disputa.

Raquel aposta na capilaridade estadual e na força da máquina administrativa. João trabalha a imagem de gestor jovem, popular e bem avaliado na capital.

A partir de agora, os encontros deixam o tom institucional e assumem caráter mais eleitoral. Pernambuco entrou oficialmente em ritmo de campanha — mesmo antes da campanha começar.

Na política, como no frevo, quem pisa primeiro no compasso pode sair na frente. É isso!

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