NA LUPA: QUANDO A MEMÓRIA FALHA, A HISTÓRIA COBRA — O DISCURSO DE IZAÍAS RÉGIS E A TENTATIVA DE REESCREVER 2020 EM GARANHUNS
Há discursos que passam. Outros ficam. E há aqueles que voltam como bumerangue. A recente fala do deputado estadual e ex-prefeito de Garanhuns, Izaías Régis, na tribuna da ALEPE, pertence claramente ao terceiro grupo. Ao afirmar que saiu da Prefeitura com mais de 80% de aprovação e que “não fez sucessor porque o sucessor era fraco”, o deputado não apenas atacou diretamente Dr. Silvino Andrade, como também flertou com uma reescrita conveniente — e pouco fiel — da história política recente da cidade.
A política tem memória. E Garanhuns também.
OS NÚMEROS NÃO CONFIRMAM A NARRATIVA
Comecemos pelo ponto mais objetivo: os dados. Em 2019, último ano completo da gestão Izaías, as pesquisas divulgadas apontavam aprovação razoável, mas longe de qualquer unanimidade. Não havia 80%. Havia avaliação positiva, sim, mas misturada a um volume significativo de “regular”, desgaste administrativo e críticas acumuladas ao longo de dois mandatos.
O que existia, na prática, era um governo chegando ao fim com saldo político, mas também com cansaço, algo absolutamente normal em ciclos longos de poder. Transformar isso, anos depois, em um número quase plebiscitário soa mais como retórica defensiva do que como fato.
SILVINO ANDRADE: FRACO PARA QUEM?
É aqui que o discurso escorrega de vez. Dr. Silvino Andrade nunca foi um aventureiro eleitoral. Médico, professor, ex-vereador, ex-vice-prefeito e secretário municipal, Silvino entrou na disputa de 2020 com currículo, densidade política e reconhecimento público. Não era um desconhecido, nem tampouco um improviso.
A eleição foi dura. Disputada. Polarizada. Sivaldo Albino venceu, mas venceu num contexto complexo, atravessado por pandemia, crise sanitária, isolamento social e uma campanha profundamente atípica. Chamar Silvino de “fraco” é ignorar que ele chegou competitivo ao pleito e que sua derrota não se explica por ausência de qualificação — mas por conjuntura política.
O ELEFANTE NA SALA: O DESAPOIO
Aqui entra o ponto que muitos preferem evitar: o comportamento do então prefeito. Em 2020, Izaías Régis parecia politicamente distante do processo sucessório. O engajamento foi frio. A energia, morna. A presença, protocolar. Para aliados à época, havia mágoa. Para observadores, havia cálculo. Para a rua, havia silêncio.
O candidato do coração do gestor, o então vice Aroldo, não decolou. E quando isso ficou claro, o apoio nunca ganhou tração real. Em plena pandemia, Silvino disputou praticamente sem a força integral da máquina política que o antecedeu. E em eleição municipal, isso pesa. Muito.
O DISCURSO DIZ MAIS SOBRE QUEM FALA
Ao atacar Silvino agora, anos depois, Izaías acaba revelando mais sobre si do que sobre o ex-aliado. Revela dificuldade em dividir responsabilidades, resistência em reconhecer erros estratégicos e, sobretudo, uma tentativa de preservar a própria biografia às custas de terceiros.
Na ALEPE, o discurso soou desnecessário, deselegante e politicamente míope. Silvino hoje ocupa espaço institucional, segue com reputação técnica preservada e nunca rompeu publicamente de forma agressiva. O ataque, portanto, parece gratuito — e tardio.
GARANHUNS NÃO ESQUECE
A política local não é feita apenas de frases fortes, mas de fatos vividos. O eleitor lembra quem esteve presente, quem se omitiu, quem ajudou e quem lavou as mãos. Recontar a história com números inflados e adjetivos duros não muda o passado — apenas expõe inseguranças do presente.
No fim, fica a lição clássica da política: quem tenta diminuir o outro para se engrandecer costuma acabar menor do que entrou no debate.
E Garanhuns, definitivamente, sabe fazer essa conta.
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