segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

COLUNA POLÍTICA | UMA ESTRATÉGIA QUE DESMORONA A CADA VERSÃO | NA LUPA 🔎 | POR EDNEY SOUTO

JOÃO CAMPOS MENTIU À VEJA — E O QUE ELE TENTA ESCONDER A TODO CUSTO

A POLÍTICA DE ENQUANTO MAIS MEXE MAIS FEDE 

A declaração do prefeito do Recife, João Campos (PSB), à revista Veja não foi apenas uma tentativa de suavizar danos políticos. Foi, objetivamente, uma mentira desmontável por documentos oficiais. Ao afirmar que três secretárias municipais foram “por conta própria” ao Supremo Tribunal Federal para trancar investigações da Operação Barriga de Aluguel, o prefeito criou uma narrativa que não resiste a uma simples leitura da petição, da decisão do STF e da prestação de contas do próprio partido que ele preside nacionalmente.

O episódio revela algo mais grave do que uma contradição: expõe um esforço deliberado para esconder o envolvimento direto do prefeito, do PSB e de sua estrutura jurídica na tentativa de impedir investigações sobre contratos milionários da sua gestão.

A MENTIRA FORMAL NÃO FOI “POR CONTA PRÓPRIA”

João Campos disse à Veja que as secretárias “se sentiram injustiçadas” e, sozinhas, buscaram o STF. Isso é falso. A petição que resultou no trancamento da investigação foi protocolada pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), não por pessoas físicas. As secretárias apenas assinam como interessadas. Partido político não age por impulso emocional. Age por decisão estratégica.

O PSB NA LINHA DE FRENTE E O JOÃO CAMPOS NO COMANDO

O PSB é presidido nacionalmente por João Campos. Não existe ação jurídica dessa magnitude, envolvendo investigação criminal de uma prefeitura governada pelo presidente do partido, sem conhecimento, aval e comando político da cúpula. Ao omitir isso na entrevista, o prefeito deliberadamente ocultou seu papel central na articulação.

O ADVOGADO DE R$ 1,3 MILHÃO POR ANO NÃO CAIU DO CÉU

Outro ponto que desmente a versão do prefeito é o advogado. Rafael Araripe Carneiro, que assina a petição no STF, é o advogado histórico do PSB, contratado oficialmente com recursos do fundo partidário, num valor que ultrapassa R$ 1,3 milhão por ano. Não foi um advogado contratado às pressas por três secretárias “injustiçadas”. Foi a máquina partidária em ação.

O QUE JOÃO CAMPOS QUER ESCONDER SÃO OS CONTRATOS

O esforço para trancar a investigação não foi por acaso. O que está em jogo são contratos milionários envolvendo secretarias estratégicas da prefeitura. Pagamentos foram feitos a uma construtora do interior de Minas Gerais, sem filial em Pernambuco, sem histórico de atuação local e sem participação direta em licitação municipal. Isso, por si só, já justificaria investigação profunda.

SAÚDE, FINANÇAS E TRABALHO NO EPICENTRO

As três secretarias citadas por João Campos não são áreas periféricas. A Secretaria de Saúde concentrou o maior volume de recursos, com centenas de boletins de medição para manutenção predial. A de Finanças autorizou pagamentos dentro do próprio prédio da Prefeitura. A de Trabalho reformou praticamente toda a sua rede com base nesse contrato. O volume e a repetição dos pagamentos levantaram suspeitas de fraude, duplicidade e falhas deliberadas de fiscalização.

O OFÍCIO DO GAECO NÃO FOI ABUSO, FOI ROTINA

João Campos tenta justificar a ida ao STF dizendo que as secretárias se sentiram injustiçadas por um ofício do Gaeco pedindo evolução patrimonial. Isso é procedimento padrão em investigações sobre possível enriquecimento ilícito. Tratar rotina investigativa como perseguição é uma estratégia clássica para deslegitimar o trabalho do Ministério Público.

A DECISÃO DE GILMAR E O CAMINHO QUE EVITOU SORTEIO

Outro ponto sensível que o prefeito evita comentar é o caminho da ação no STF. O processo não passou por sorteio e foi direto ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, sob argumento de conexão com uma ADPF do PSB. A decisão misturou investigações distintas e produziu um efeito amplo de trancamento. Tudo isso favoreceu diretamente a gestão municipal — e não as secretárias individualmente.

DISCURSO ANTICORRUPÇÃO DESMORONA DIANTE DOS FATOS

João Campos gravou vídeo dizendo que “não tolera corrupção”. Mas a prática mostra outra coisa: quando a investigação se aproxima do núcleo da gestão, a reação foi mobilizar partido, advogado milionário e Supremo Tribunal Federal para encerrar apurações. Em seguida, tentou vender à opinião pública a versão de que nada disso partiu dele. Essa contradição é o que mais desgasta sua imagem.

NÃO FOI ERRO, FOI ESTRATÉGIA

João Campos não se confundiu na entrevista à Veja. Ele escolheu mentir para tentar se afastar de uma operação política e jurídica claramente coordenada. O que ele tenta esconder a todo custo não é apenas o nome das secretárias, mas o funcionamento de uma engrenagem que usou o peso do partido e do STF para barrar investigações sobre sua gestão. A investigação pode ter sido trancada nos tribunais, mas a narrativa caiu — e os fatos continuam falando alto. E por aí só, um pouco de lógica e observância se chega aos fatos. É isso!

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